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Sociologia e a vida cotidiana de não-cientistas sociais

Sociologia e a vida cotidiana

Sociologia e a vida cotidiana de não-cientistas sociais

Cristiano das Neves Bodart[1]

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Os conhecimentos sociológicos (teorias, conceitos, categorias e métodos) e, principalmente, a forma sociológica de entender o mundo social (o que denominamos de epistemologia) não devem ser privativos, acessíveis apenas aos cientistas sociais/sociólogos. O acesso aos saberes produzidos na sociedade, especialmente quando esses impactam de maneira substantiva em nossa qualidade de vida, é um direito humano que deve ser extensivo a todas as pessoas; assim o é com a Sociologia.

A reintrodução da Sociologia no currículo escolar brasileiro é, talvez, a ação mais profícua para popularizar/publicizar os saberes produzidos no interior dessa área do conhecimento. Por meio da disciplina os estudantes têm acesso a uma “caixa de ferramentas” explicativas do seu mundo social, podendo, mesmo não sendo cientistas sociais, pensar sociologicamente a sua vida e a vida dos outros. Outra ação importante é a atuação de “sociólogos públicos” que ocupam espaços nas redes sociais e na mídia tradicional e alternativa; o Café com Sociologia enquadra-se nesse esforço.

Mas afinal, por que os conhecimentos sociológicos devem ser levados aos não-cientistas sociais? Qual sua utilidade para esses indivíduos? Eis as duas questões que pretendo aqui abordar, ainda que introdutoriamente.

Sociologia para não-cientistas sociais e qual sua utilidade para esses indivíduos?

É sintomático o processo de desumanização da sociedade, especialmente a brasileira. O extremismo político e religioso tem fomentando a intolerância, a indiferença, ao ódio e à violência psicológica e física. É indiscutível que precisamos humanizar a humanidade.

A educação há muito tempo é apontada como colaborativa nesse intento. Contudo, o culto ao individualismo e ao utilitarismo, induz o desprezo às Ciências Humanas, provocando um processo de “desumanização” do currículo.

A escola é uma das instituições de maior impacto sobre a socialização dos indivíduos e seu processo civilizatório. Assim, para humanizar a sociedade, é necessário humanizar o currículo escolar. De nada adianta saber ler e somar, se não há reconhecimento e valorização de si e do outro e não compreender as muitas faces das figurações sociais. A Sociologia, em particular, tem o potencial de contribuir para essa humanização ao promover o reconhecimento de si e do outro. A promoção da percepção das figurações sociais marcadas historicamente por relações dialéticas de poder é parte importante de sua colaboração para a nossa vida cotidiana.

O contato com a Sociologia escolar e a Sociologia Pública contribui para aquisição de uma competência particular: a percepção das figurações do mundo social.

Por ‘percepção figuracional da realidade social’, entendemos como a competência de: a) refletir os fenômenos sociais de forma historicizada, considerando os conflitos e as acomodações que se dão a partir de correlações de poder que conformam cada objeto em estudo; b) pensar as relações de interdependência entre indivíduo e Sociedade, assim como indivíduo e estrutura; c) olhar as estruturas e relações sociais como resultados de movimentos históricos dialéticos sempre inacabados e; d) considerar o papel dos constrangimentos exteriores’ para moldar as ‘estruturas interiores’ dos indivíduos e esses às estruturas sociais, o que se dá dialeticamente (BODART, 2021, p. 148).

O acesso aos conhecimentos sociológicos propicia condições para historicizarmos os fenômenos sociais, entender as redes de interdependências entre actantes (atores humanos e não humanos) e as estruturas sociais mais amplas (LATOUR, 2012), desvelando as relações de poder e o inacabamento das conformações sociais que estão sempre em movimento dialético de (re)composição das estruturas objetivas e subjetivas.

A Sociologia escolar pode contribuir em três esferas de nossas vidas: a) esfera política; b) esfera terapêutica e c) esfera cognitiva (LAHIRE, 2014). Na esfera política nos capacita a atuar como cidadãos de direitos e deveres, compreendendo as relações sociais como marcadas pelo poder (muitas vezes simbólico), munindo os dominados e excluídos de ferramentas intelectuais de resistências que podem ser mobilizados em ações de resistência.

Na esfera terapêutica nos permite controlar nossas frustrações ao reconhecermos as limitações impostas pelas estruturas sociais e a lidar com elas. Por meio da compreensão de que estamos envolvidos em uma rede de interdependência, entendemos que muitos de “nossos” fracassos são resultantes das estruturas e relações sociais que se constituem ao nosso redor, independente de nossas escolhas, as quais fogem de nosso controle e responsabilidade. Estamos imersos em uma figuração social e compreendê-la nos ajuda a entender melhor nossa vida e os rumos que ela tomou e tomará.

Na esfera cognitiva, a Sociologia nos instrui ao conhecimento racional, nos permitindo superar as visões dramáticas da vida social, bem como romper com o senso comum que nos impede interpretar o mundo que nos rodeia, o que nos auxilia a melhor atuar sobre ele.

 

O desenvolvimento da percepção figuracional deve ser acessível a todos e todas, de modo que tenhamos uma sociedade mais bem informada e capacitada para lhe dar com o mundo social no qual está inserido; incitando o hábito intelectual de contextualizar e comparar fenômenos, historicizar fatos, problematizar o banal e explicar e o encoberto. Se desejarmos uma sociedade mais humanizada, precisamos valorizar as Ciências Humanas, especialmente no interior dos currículos escolares por seu papel central na formação intelectual e moral (guiado pelos valores democráticos) das gerações de hoje e de amanhã. Sociologia não deve ficar trancafiada nas universidade e institutos de pesquisas, deve estar à serviço e a mão de todos e todas que desejarem melhor compreender seus mundos, os outros e a si mesmo.

Referências

BODART, Cristiano das Neves. O ensino de Sociologia para além do estranhamento e da desnaturalização: por uma percepção figuracional da realidade social. Latitude, v.15, 139–160, 2021.

LAHIRE, Bernard. Viver e interpretar o mundo social: para que serve o ensino da Sociologia? Revista de Ciências Sociais, Fortaleza, v, 45, n. 1, pp. 45-61, 2014.

LATOUR, Bruno. Reagregando o social: uma introdução à Teoria do Ator-Rede. Salvador: EDUFBA, 2012.

 

Como citar este texto:

BODART, Cristiano das Neves. A Sociologia e a vida cotidiana de não-cientistas sociais. Blog Café com Sociologia, nov. 2022.

 

Nota:

[1] Doutor em Sociologia (USP). Docente do Centro de Educação e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). E-mail: [email protected]

Cristiano Bodart

Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), professor do Centro de Educação e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Pesquisador do tema "ensino de Sociologia". Autor de livros e artigos científicos.

3 Comments

  1. Texto maravilhoso, Bodart. Eu também sou “sociólogo público” (e “militante profissional” assim como a Janja), e procuro sempre levar Sociologia onde posso. Eu levo junto com o amigo Vitor Almado o Ciências Sociais Brasil (linktr.ee/cienciassociaisbrasil) e sei muito bem como que é estar nesta posição. Por mais Ciências Sociais e Sociologia já nesse país. Sucessos!

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