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Proposta pedagógica: Colonialidade e o pensamento decolonial

decolonialidade

Colonialidade e o pensamento decolonial

Walace Ferreira[1]

Juliana Dias Lima[2]

João Matias da Silva[3]

Versão em PDF AQUI

Conteúdo: apoio didático

Público: estudantes do ensino médio

Competências Gerais/BNCC: 1, 6 e 7

Competências Específicas de C.H.S: 1, 5 e 6

Habilidades: EM13CHS101, EM13CHS102, EM13CHS104, EM13CHS105, EM13CHS502 e EM13CHS601.

DecolonialidadeIntrodução

A chegada dos colonizadores/exploradores portugueses no século XV destinou o Brasil a um rumo até então desconhecido pelos povos autóctones que aqui habitavam. Os processos de mudanças que ocorreram a partir deste momento foram chamados de colonização. Estes processos se caracterizam pela exploração de terras e mão-de-obra indígena, posteriormente africana, a implantação de um novo sistema econômico (conhecida como plantation) e a imposição de novas culturas e religião (no caso, a religião cristã católica).

Com isso, ao longo da história da formação da sociedade brasileira houve uma série de apagamentos de memórias indígenas, latino-americanas e afrodescendentes, favorecendo, assim, a visão eurocêntrica. O eurocentrismo, por sua vez, é uma visão de mundo centrada em valores europeus, onde a cultura europeia é vista como referência e modelo de sociedade.

Colonialidade

Trata-se de conceito introduzido pelo sociólogo peruano Anibal Quijano, no final da década de 1980 e início da década de 1990, que significa o desdobramento de civilizações a partir de uma perspectiva e práticas Ocidentais. Quando pensarmos em Ocidental, devemos ter em mente a civilização europeia que virou modelo de sociedade em termos culturais, sociais, econômicos e até tecnológicos, entre os séculos XVI e XIX no Brasil.

Porém, estas práticas não se difundiram de forma natural da Europa para outros continentes. Houve, na verdade, uma imposição delas com a justificativa de tornar os indivíduos civilizados e modernos. Acontece que, isto resultou em uma série de problemáticas que perpassam décadas e persistem até hoje. Analise a charge a seguir:

Charge sobre a colonização do Brasil

Toni D'Ágostinho

Fonte: Toni DÁgostinho. Disponível em: http://www.acaricaturadobrasil.com.br/2020/06/charge-colonizacao.html

 

Desafio aos estudantes: Levando em consideração o que foi lido até o momento e a charge, pode-se dizer que somente bens materiais foram retirados dos povos originários das terras brasileiras? E em quais problemáticas resultou a colonialidade? Discuta com seus colegas e apresente uma síntese de suas reflexões.

Pensamento decolonial

Agora que você já sabe o que é colonialidade, vamos te apresentar o termo decolonialidade ou pensamento decolonial. Este ainda não possui um conceito fechado, mas vem sendo estudado e analisado por diversos pensadores com o intuito de fortalecer a luta contra a violência exercida pela dominação de povos a partir de uma perspectiva etnocêntrica. O etnocentrismo, diga-se de passagem, foi um conceito criado pelo sociólogo norte-americano William Graham e diz respeito a um grupo étnico ou povo que considera apenas os valores de sua própria cultura ao analisar as demais.

Pode-se dizer, nesse sentido, que o pensamento decolonial é uma corrente teórica latino-americana e americanista que visa o rompimento da forma de dominação europeia com relação a outros povos. Nessa relação, apresentam-se alguns pressupostos para se entender o processo de colonização, que foi imposto pelos europeus a outras populações a partir do século XVI e permanece culturalmente até os dias atuais.

Os estudos do pensamento decolonial têm como precursor o sociólogo peruano Aníbal Quijano e é aprofundado pelo grupo de intelectuais que se ocupam sobre a M/C/D (modernidade, colonialidade e decolonialidade). De acordo com Quijano não há modernidade sem colonialidade, de onde decorre o processo de ocultação do controle econômico, da natureza e dos recursos naturais, do gênero e da sexualidade, da subjetividade e do conhecimento.

Outros pensadores que se destacam na teoria decolonial:

  • Walter Mignolo (Argentina / 1941-)
  • Claudia Miranda (Índia / 1942-)
  • Nilma Lino Gomez (Brasil / 1961-)

Desafio: Você já tinha ouvido falar sobre o pensamento decolonial? E sobre os autores citados acima? Discuta com seus colegas e pesquise mais sobre o trabalho destes pensadores.

Considerações finais

A decolonialidade tem o propósito de emancipação de todas as formas de opressão. Isto significa a liberdade das pessoas para optarem individualmente ou coletivamente por suas relações culturais, pela liberdade de produzir, criticar, trocar e obter interações culturais e sociais. Refere-se à libertação social de todo poder organizado alimentador da desigualdade, da discriminação, da exploração e da dominação.

Referências bibliográficas

CUNHA, Carlos Alberto Motta. Teologia decolonial e epistemologias do Sul Interações: Cultura e Comunidade, v. 13, n. 24, 2018.

MIGNOLO, Walter. Colonialidade: o lado mais escuro da modernidade. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 32, n. 94, jun, 2017.

SILVA, Paulo Robério Ferreira. Teoria decolonial: Horizontes epistemológicos a partir da periferia global pós-ocidental. In: VII Congresso em Desenvolvimento Social. Unimones, Montes Claros, 2020.

Como citar este texto:

FERREIRA, Walace; LIMA, Juliana Dias; SILVA, João Matias da. Colonialidade e o pensamento decolonial. Blog Café com Sociologia, mai. 2022.

Notas:

[1] Doutor em Sociologia (IESP/UERJ). Docente do Instituto de Aplicação Fernando Rodrigues da Silva (CAp-UERJ). E-mail: [email protected]

[2] Graduanda em Ciências Sociais na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). E-mail: [email protected]

[3] Graduando em Ciências Sociais na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). E-mail: [email protected]

 

 

 

 

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Cristiano Bodart

Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), professor do Centro de Educação e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Pesquisador do tema "ensino de Sociologia". Autor de livros e artigos científicos.

2 Comments

  1. Muito bacana! Seria interessante também trazer como referência a Silvia Rivera Cusicanqui, socióloga boliviana/aymara que na verdade traz inclusive críticas a Mignolo & cia. em relação a terem criado uma teoria decolonial com menor potência crítica e menor relação com movimentos sociais contestatórios – em outras palavras, uma forma de teoria que está bastante desgrudada de práticas de fato anticoloniais…

    Vale também dizer que havia intelectuais latino-americanos já falando sobre “colonialismo interno” (no sentido de colonialidade de poder) bem antes de Quijano. Cusicanqui cita especificamente um trabalho de Pablo González Casanovas, publicado em 1969 (!).

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