Capital Social

Por Cristiano Bodart
Embora o conceito “Capital Social” não seja novo, tomou notoriedade apenas a partir da obra de Robert Putnam, publicado em 1993: Making Democracy Work: Civic Tradition in Modern Italy (D’ARAUJO, 2003).
Inicialmente, com Hanifan (1916) o conceito havia sido definido como “um conjunto de relações sociais marcadas pela boa vontade, camaradagem e simpatia, atributos muito próximos do goodwill utilizado para definir as relações públicas na sua origem” (HANIFAN, 1916 Apud MATOS, 2009, p. 35-36).
A partir de seu paper “Le capital social: notes provisoires”, Pierre Bourdieu, em 1980, sistematizou o conceito no campo da Sociologia. Bourdieu definiu o conceito de capital social como “o conjunto de recursos atuais e potenciais que estão ligados à posse de uma rede durável de relações mais ou menos institucionalizadas de inter conhecimento e inter reconhecimento” (MATOS, 2009, p. 35).
Para Putnam (1996) o conceito de capital social “diz respeito a
características da organização social, como confiança, normas e sistemas, que contribuam para aumentar a eficiência da sociedade, facilitando as ações coordenadas” (PUTNAM, 1996, p.177). Para este autor o capital social é uma herança histórica, ou seja, é produzida e ampliada conforme as experiências dos grupos. Trata-se de um capital que quanto mais utilizado mais a comunidade cívica a possuirá, ou seja, quanto mais se usa o capital social, mais se adquire. Desta forma, a confiança é geradora de confiança, sendo base para a cooperação.
Putnam (1996) afirma que o capital social possibilita a existência de laços comunitários fortes capazes de garantir a ação coletiva, levando as pessoas a participarem ativamente do processo de construção da democracia por via de mecanismos não convencionais de envolvimento político (BAQUERO; SOUZA; SCHERER, 2009).  Uma vez adquirido capital social, o indivíduo racional não desejará perder a confiança adquirida. A regra de reciprocidade está relacionada, segundo Putnam, com o que dizia Cícero, no tempo de César: “nenhum dever é mais importante do que retribuir um favor”.
Na concepção de Fukuyama (1996), o capital social é produto espontâneo dos jogos repetitivos do dilema do prisioneiro. A repetição do jogo proporciona um cenário menos duvidoso e a simples estratégia de pagar na mesma moeda (cooperação por cooperação, traição por traição) conduzirá os jogadores racionais a um resultado de cooperação, produzindo assim o capital social, uma vez que os indivíduos tenderão a apostar em sua reputação de honestidade e de integridade.
O conceito de capital social, para Fukuyama (1996, p. 41), está diretamente ligado à “capacidade que decorre da prevalência de confiança numa sociedade ou em certas partes dessa sociedade”. Para este autor, o capital social pode estar incorporado no menor grupo social (a família), bem como no maior de todos os grupos, a nação, assim como nos grupos intermediários (FUKUYAMA, 1996).
As contribuições de Bourdieu (1980), de Putnam (1993; 1996) e de Fukuyama (2000) em torno do conceito de capital social, não são consideradas pelos autores deste trabalho como contraditórias, mas complementares, fornecendo uma visão ampla do conceito. Furlanetto, afirma que o conceito de capital social pode ser agrupado em duas correntes:
[…] a primeira, comum entre os sociólogos, reforça a idéia de que as ações individuais podem ser fortalecidas por meio da participação dos mesmos em redes sociais, em interações diretas e indiretas com os outros atores da rede, e a relacionam aos recursos e benefícios potenciais que um ator detém, por possuir ou participar de uma rede sólida e durável de relações pessoais (BOURDIEU, 1985; COLEMAN, 1988; PORTES, 1998); na segunda corrente, a da preferência dos cientistas políticos, o capital social é visto como uma parte significativa das relações e laços internos que caracterizam as bases da ação coletiva e garantem-lhe a coesão necessária para atingir os resultados esperados (PUTNAM, 1993, p. 179; FUKUYAMA, 1995, p. 377; LOCKE, 1995, p. 3; WOOLCOCK, 1998) (FURLANETTO, 2008, p. 62).
De acordo com Pontes (2000 apud HIGGINS, 2005, p. 31) alguns autores colocam o conceito de capital social sob uma perspectiva instrumental, “pois estaria baseada no proveito que os indivíduos obtêm ao participarem em estruturas sociais”.
Referências
BOURDIEU, Pierre. Le capital social: notes provisoires. Actes de la Recherche em Sciences Sociales, n. 31, p. 2-3, 1980. Disponível em: Acesso em: 10 de abr. 2010.
________________ Razões práticas: sobre a teoria da ação. Trad. Mariza Corrêa. Papirus: Campinas, SP, 1996.
COLEMAN, James Samuel (1990). Foundations of social theory. Harvard University Press, 1994.
D’ARAUJO, Maria Celina. Capital Social. Coleção Ciências Sociais: Passa-a-passo.Jorge Zahar Editor: Rio de Janeiro, 2003.
FUKUYAMA, Francis. Confiança: as virtudes sociais e a criação da prosperidade. Tradução de: Alberto Lopes. Rocco: Rio de Janeiro, 1996.
HIGGINS, Silvio Salej. Fundamentos Teóricos do Capital Social. Argos: Chapecó, 2005.

MATOS, Heloiza. Capital Social e Comunicação: Interfaces e articulações. Summus: São Paulo, 2009.

PUTNAM, Robert D. Comunidade e Democracia: a experiência da Itália moderna. Trad. Luiz Alberto Monjardim. Rio de Janeiro. Editora Fundação Getúlio Vargas, 1996.
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Cristiano Bodart Bodart

Graduado em Ciências Sociais, doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo/USP.

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