A Sociologia, um bar, o equilibrista, uma beata e a Darleny: tudo a ver!

A Sociologia, um bar, o equilibrista, uma beata e a Darleny: tudo a ver!

O texto a seguir busca apresentar a  sociologia como uma ciência que tem seu objeto de estudo no cotidiano. Trata-se de um texto livre publicado na primeira edição da Revista Café com Sociologia , disponível em https://revistacafecomsociologia.com. Segue o texto:

Cristiano das Neves Bodart
Roniel Sampaio da Silva
Diferentemente da Astronomia e de outras ciências,
temas sociológicos são assuntos de bar. Sabia?Os
temas discutidos são quase sempre sociológicos,
mas a forma de discuti-los quase sempre não o são.
Como assim? Você deve estar se perguntado! É
isso mesmo. Podemos falar de assuntos de Sociologia sem pensar sociologicamente, assim como podemos falar de problemas
sociais e não sociológicos. Os problemas ou os temas sociais discutidos no bar só
passam a ser sociológicos quando apresentam, em sua análise, um rigor científico
próprio da Sociologia.
É comum todos acharem que sabem explicar um determinado fenômeno social,
como, a prostituição, o desemprego, a moda, a pobreza, entre outros assuntos. Cada
pessoa tenta explicar à seu modo. Algumas explicações são até bem lógicas, outras
sem o menor sentido. Algumas buscam explicações na religião, no acaso ou no
fenômeno em si.
É comum ouvir a expressão “olhe, a questão é a seguinte…”. Certamente, quem
usa esta frase quer ganhar o direito de estar certo. Quem, também, não ouviu a famosa
frase vinda dos mais velhos: “desde que me entendo por gente é assim…” Ou ainda:
“na minha época era assim…”. Estas frases são usadas para impor uma suposta
explicação verdadeira ou, no caso da última, apresentar uma explicação na defensiva,
buscando deixar claro que é assim, e que se não for é por que mudou de uns tempos
pra cá. A verdade é que a vida é como o futebol, todos se acham técnicos, capazes de
explicar as regras do jogo. O certo é que os fenômenos que acontecem em nossa volta nos instigam a buscar compreendê-los.

Mas o que tem a Sociologia com isso? A Sociologia se alimenta do cotidiano e ao mesmo tempo procura iluminá-lo. Em outras palavras, é do cotidiano que o
Sociólogo “pega” o fenômeno que irá estudar. Assim acaba tratando da mesma coisa
que o cidadão comum. O que muda é a forma de explicar as coisas. Isso nos lembra
um episódio que nos ocorreu, no ano de 2004, em um bar na cidade de Guaribas,
localizada no interior do Piauí.

A noite estava quente e resolvemos,
depois de um congresso, ir a um bar. Não
sabíamos

que uma cidade tão pequena nos
proporcionaria tanta reflexão, e olha que não foi
nas palestras. Quando chegamos no local, havia
uma roda de pessoas discutindo e apontando
para uma mulher que estava sentada em uma
mesa ao lado. Devido a curiosidade,
perguntamos qual era o assunto.

Um bêbado, conhecido como Equilibrista
(entendi na hora o porquê do apelido), nos disse:
Nois tamu suntano a Darleny.
–  Quem é Darleny? Perguntamos.
–  É que o Antoin disse que ela é quenga porque quer. Disse Equilibrista.
–  É pura safadeza dela! Gritou Antônio, por detrás do balcão do bar.
Nessa hora, Equilibrista subiu na cadeira, ou melhor, tentou se equilibrar nela, e antes de se espatifar no chão gritou:
– Ela é quenga por semvergonhonhice. Ela gosta é da bufunfa. Num quer

trabaiar!

Ele gritou tão alto que uma beata, que passava na frente do bar, ouvindo aquilo

gritou em resposta, sem olhar para o ambiente: é coisa do demo! Ela tá encapetada!
De repente um silêncio. Parecia que a discussão havia acabado. Após alguns
segundos alguém gritou: pergunte prus cabras da cidade o porquê Darleny é quenga.
Percebemos que estavam falando de nós. Ficamos sem reação. Como nada dissemos,
Equilibrista sugeriu para que alguém perguntasse a própria Darleny. Foto que não
acorreu. Todos, exceto nós que nada dissemos, concordaram, acreditando que só a
Darleny saberia responder essa questão.
Nós então dissemos que éramos sociólogos e que poderíamos ajudar. Logo veio
duas “pergunta afirmativas”, enfáticas e bombásticas: e daí? Estamos falando da
Darleny e vocês vêm com essa religião? Equilibrista, depois de entornar mais uma dose
de pinga, disse: se nois caricesse de tirar o capeta dos côro da cutruvia, nós chamava a
beata que passou indagorinha por aqui. Nois tudim é católico!
–  Eu sou discrenti – gritou mais uma vez Antônio por de traz do balcão.
–  Te discunjuro Antoin. Diabeisso? Tá duvidano de Deus?Perguntou
equilibrista.
Fomos explicar o que era ser Sociólogo. Todos se interessaram pela explicação,
prestando atenção no que estávamos a falar, até que afirmamos que havíamos
estudado justamente para explicar a situação da Darleny. Nesse momento gritaram
para a Darleny: Eita cunhã que tu tá famosa na capital!É a primeira vez que vejo universidade estudar quenga!

Tentamos dizer a eles que existiam várias “Darlenys” no Brasil, quando alguém nos interrompeu dizendo: Darleny Danadinha de Guaribas (assim ela era chamada na
região) só tem uma!
Tentamos então explicar que existiam mais coisas para além da Darleny –
Danadinha de Guaribas. Buscamos argumentar que existem fatores que influenciam as
escolhas e o comportamento das pessoas. Foi aí que Equilibrista falou algo que nos fez
entender que a forma de enxergar o mundo não é só questão de aprendizagem,mas
também como “você está no mundo e ele em você”. Ele nos interrompeu e disse: seus
cabras sociólugus, entendo o que tão dizeno. Entonce é o como o caso da cachaça que
mexe comigo, num é? Nessa hora ficamos decepcionados com o resultado de nossa explicação. Quando ele prosseguiu: no caso eu
sou como a Darleny; o baré a porcaria da
sociedade, cheia de tipus de bibidas; a beata
amoralidadi e; a cana é aquilo que bebemos
dessa sociedadi, que leva nois a fazer coisas
por querer e sem querer, pra além de nossa
vontadi. Acho que é isso que estão querendo
dizer… Essa reflexão nos animava, até que ele
continuou…mas ainda acho que é por dinheiro,
né não Antoin? – Claro que não homi, é por servengonheza! Respondeu ele. Desistimos de explicar e voltamos para a pousada
onde estávamos alojados.
Essa experiência nos serviu para refletir sobre o pensamento sociológico, o
pensamento religioso, o senso comum e nossa posição no mundo.
A beata apresentou uma explicação baseada na religião, não possuindo
nenhuma racionalidade, antes apoiando-se em suas crenças, o que chamamos de mito.
Mito são todas as explicações baseadas em deus ou deuses. Já Antônio e o Equilibrista
se apropriam do senso comum para explicar o caso de forma isolado do mundo, como
simples escolha autônoma de Darleny. Suas interpretações estavam influenciadas
pelas suas posições no mundo, assim como pela influencia deste em sua vidas.
Gostaríamos que eles entendessem a colaboração da Sociologia para
compreender a questão da prostituição, sendo ela parte de uma estrutura, um conjunto
de fenômenos interligados que de certa forma levou a Darleny àquela profissão. Assim,
o caso desta mulher não era um caso isolado, como se tivesse em uma redoma de
vidro. Antes, trata-se de um fenômeno fruto de nossa história, da pobreza, da falta de
escolaridade, da corrupção e tantos outros fenômenos interligados direta ou
indiretamente.O mais provável é que Darleny era prostituta devido sua história, a qual
se entrelaça com a história do país, especialmente do interior do nordeste. Órfã desde
os 6 anos de idade, criada pela tia como empregada, não teve condições de estudar, foi
obrigada pela tia a casar muito cedo, tendo três filhos e logo ficando viúva. Darleny
residia em uma das cidades mais pobres do Brasil,com pouco mais de 4 mil
habitantes.Guaribas era marcada pelo trabalho de subsistência no campo e pelo preço
elevado dos bens de consumo (devido ao difícil acesso à cidade). Parece que para ela,
que não tinha terra para plantar o sustento de sua família, não havia muitas escolhas e
nem condições de ter uma visão do mundo diferente. Parece que não lhe restou nada
além de ter que deitar-se com estranhos para garantir o seu sustento e de seus três
filhos.
Buscado ser críticos, no sentido de duvidarmos de tudo o que nos veem aos
olhos e ouvidos, estaremos nos aproximando do pensamento sociológico. Se assim
fizessem o balconista, o Equilibrista e a beata, talvez entenderiam que não era bem
uma escolha, ou por “sem-vergonhice”, ou ainda por que o “diabo” a teria tomada.
Antes, compreenderiam que o contexto social a qual Darleny viveu a influenciou
fortemente para essa escolha. Claro que o raciocínio não para por aí. São necessários
métodos científicos para compreender como o fenômeno da prostituição atua e se situa
na estrutura social, bem como buscar identificar regras gerais capazes de explicá-lo.
Alguns temas oriundos de conversas corriqueiras de bar, embora não tenham rigor
científico, pode ser dotado de uma certa lógica racional, o que é o primeiro passo em
direção ao conhecimento sociológico.
Embora o senso comum e a Sociologia pareçam distantes, não são. Naquele bar
de Guaribas, poderia ocorrer uma discussão de caráter sociológico, desde que se
atentasse para o método típico desta ciência. Poderíamos encerar esse texto dizendo:
Veja como a Sociologia é útil! Mas optamos em terminar afirmando que o bar, o
Equilibrista, a beata e a Darleny era um cenário de pura Sociologia, apenas eles não
sabiam. E você, sabe? Talvez veio a seguinte frase à cabeça: “Eu nunca tinha pensado
desta forma”. Se isso ocorreu, fomos mais aptos do que naquele dia… naquele bar de
Guaribas. 
Fonte: BODART, Cristiano das N. SILVA, Roniel Sampaio. A Sociologia, um bar, o equilibrista, uma beata e a Darleny: tudo a ver! Revista Café com Sociologia, v.1, Nº 1, Dez. 2012. Disponível em:<https://revistacafecomsociologia.com/revista/index.php/revista/issue/view/Vol.1%2C%20Número1%2C%20ano%202012%2C%201ª%20edição/showToc>
Cristiano Bodart

Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), professor do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Docente do Centro de Educação da Ufal.

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  1. Anônimo
    abril 14, 20:14 Anônimo

    Entre a explicação do bêbado e a dos sociólogus, eu fico com a do bêbado, mesmo sendo sociólogo também.

    reply Reply this comment
  2. J. Matias
    abril 14, 21:40 J. Matias

    Este texto, infelizmente, além de algo preconceituoso com o linguajar dos chamados "populares", apresenta incoerências um tanto graves com a sociologia, inclusive com a sociologia clássica. A explicação sobre a racionalidade, a beata, o mito e o intelectual orgânico travestido de sociólogo pareceu-me enviesada na concepção como foi feita. Embora a intenção tenha sido boa, o texto passa a imagem de um sociólogo tautológico/orgânico que, mesmo achando-se "superior" por entender certos conceitos, prostra o "objeto" analisado em uma condição subalterna, extraindo somente aquilo que for de interesse do autor. Uma posição, portanto, egóica, invasiva e mesmo desrespeitosa:

    "A beata apresentou uma explicação baseada na religião, não possuindo nenhuma racionalidade, antes apoiando-se em suas crenças, o que chamamos de mito. Mito são todas as explicações baseadas em deus ou deuses. Já Antônio e o Equilibrista se apropriam do senso comum para explicar o caso de forma isolado do mundo, como simples escolha autônoma de Darleny. Suas interpretações estavam influenciadas pelas suas posições no mundo, assim como pela influencia deste em sua vidas."

    (1) Dizer que a beata não tem nenhuma racionalidade não é apenas preconceito, mas uma falta de conhecimento um pouco grave para a atenção que a sociologia deu ao conceito de racionalidade ao longo do tempo, particularmente partindo de Max Weber. (2) O mito pode vir a ser muito mais do que "explicações baseadas em deuses". (3) Explicações influenciadas pelas posições do mundo são, sobretudo, comum também entre sociólogos.

    Estas posições, entre beata, sociólogo, populares, prostituta e equilibrista estão tão enviesadamente marcadas que pode-se mesmo extrair preconceito da "análise" sociológica da prostituta. Há prostituição no Brasil inteiro, não sendo Guaribas uma cidade mais "especial" por ser do interior do nordeste.

    Aprovo as boas intenções, mas reduzir as pessoas somente àquilo que o autor do texto e (muito mais grave) o que o sociólogo queira extrair como fator de avaliação, além da forma como o fez (inclusive estilística), mereceria uma boa revisão antes de ser publicada. Sei que não houve aqui pretensão científica, mas talvez seja bom atentar para como o uso de algumas palavras, estilos, passagens e apropriações de tema podem, de repente, prestar um "desserviço" ao modo como outros vêem a sociologia.

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  3. Anônimo
    abril 15, 17:02 Anônimo

    Acompanho o que vem sendo postado nesse blo a algum tempo. Gostaria de aproveitar para parabenizar os idealizadores.
    Lendo o comentário injusto do Matias resolvi colocar algumas coisas ao Matias:

    Matias, sua avaliação é um tanto desfocada ao texto, não? Vamos lá…

    1º Não existe preconceito contra o "linguajar" dos populares. O que foi feito foi utilizar girias próprias daquela cidade (as quais são riquíssimas).

    2º Dizer que o autor não usou nenhuma racionalidade com a fala da Beata ("é coisa do demo! Ela tá encapetada!") não é um ero. O erro está na sua leitura de querer enquadrar todas as beatas e todas as falas possíveis de uma beata como irracionais. Isso não foi feito pelo autor, veja no texto. Nota-se que a Beata falou apenas uma vez e foi sim uma fala de cunho mitológico (é coisa do demo).
    3º quem disse que prostituição só existe na cidade em questão? Não vi isso no texto. Você sabe o que é uma crônica? Parece que não.
    4º Como crônica, a abordagem estará focada em atores singulares e em caso específico. O que parece difícil para você entender.
    5º Desserviço a sociologia é pegar crônicas pontuais, localizadas no tempo e no espaço, peculiares e fazer uma leitura generalista. Se continuar a buscar explicações universais em crônicas estará contribuindo para uma má ciência que não compreende as singularidades.
    6º antes de julgar um texto e querer ser um bom crítica, seja um bom leitor.

    Pronto! Valei.

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