Achille Mbembe ocupa hoje um lugar central nos debates sobre poder, violência e colonialidade. Nascido em 1957 em Otélé, Camarões, e formado em história e ciência política em Paris, ele construiu uma trajetória que atravessa a filosofia política, a teoria pós-colonial e a crítica da modernidade. Seus conceitos circulam em cursos de sociologia, em programas de direitos humanos e em análises sobre racismo e soberania. Este artigo apresenta as principais ideias de Achille Mbembe, com atenção ao contexto africano e às leituras possíveis no Brasil. Se você já ouviu falar em necropolítica, é quase certo que o nome dele aparece logo em seguida.
Vamos entender quem é esse autor, o que sua obra propõe e por que ela importa para professores, estudantes e pesquisadores das ciências humanas.

Quem é Achille Mbembe?
Mbembe nasceu em Otélé, região central de Camarões, em 1957. Parte da infância foi vivida nas proximidades de uma missão católica e de uma escola colonial francesa, experiência que ele viria a analisar décadas depois como um dispositivo de dominação. Formou-se em história na Sorbonne e concluiu doutorado em ciência política em Paris. Lecionou em universidades dos Estados Unidos, como Columbia, e na África do Sul, na Universidade de Witwatersrand, onde dirigiu o Wits Institute for Social and Economic Research (WISER). Atualmente é professor pesquisador na Universidade Duke e pesquisador do Instituto de Estudos Avançados de Stellenbosch, na África do Sul.
A produção intelectual de Mbembe dialoga com Frantz Fanon, Michel Foucault, Georges Bataille e Édouard Glissant. De Fanon, herda a preocupação com a violência colonial e a formação do sujeito racializado. De Foucault, retoma a noção de biopoder para radicalizá-la em contextos onde a vida é sistematicamente exposta à morte. Com Glissant, compartilha a ideia de crioulização e de identidades em movimento. Mbembe não é um autor fácil: seus textos misturam ensaio, filosofia e crítica cultural. A dificuldade, porém, não é gratuita. Ela responde à complexidade dos processos que o autor tenta nomear.
Trajetória e formação
A formação de Mbembe coincide com o fim dos impérios coloniais e o surgimento de Estados africanos independentes. Esse contexto marca toda a sua obra. Ele não escreve a partir de um gabinete europeu, mas de uma posição que combina o Sul global e as metrópoles acadêmicas. Em 1985, publicou seu primeiro livro, resultado de pesquisa etnográfica sobre jovens em situação de rua na Costa do Marfim. O trabalho já revelava interesse pelas margens, pelos excluídos e pelas formas de sobrevivência fora das instituições.
Na década de 1990, ganhou reconhecimento com La naissance du maquis dans le Sud-Cameroun (1996), estudo sobre a guerrilha anticolonial em Camarões. A obra discute como o movimento de resistência produziu novas formas de sociabilidade e de política. Mbembe argumenta que a luta armada foi também cultural: ela criou imaginários, memórias e subjetividades que sobreviveram à derrota militar. Esse interesse pelas formas de vida que resistem à dominação aparece em toda a produção posterior do autor.
Obras principais e reconhecimento
Entre os livros mais citados de Achille Mbembe estão On the Postcolony (2000), Necropolítica (2003, publicado inicialmente como artigo na revista Public Culture), Sortir de la grande nuit (2010) e Crítica da razão negra (2013). O primeiro reúne ensaios sobre poder, violência e estética na África pós-colonial. O segundo se tornou um dos textos mais influentes das últimas duas décadas. O terceiro discute a descolonização como processo inacabado. O quarto propõe uma crítica da razão negra, conceito que articula racismo, capitalismo e história.
Mbembe recebeu o Prêmio Ernst Bloch em 2015 e o Prêmio Holberg em 2024, considerado o Nobel das humanidades. Necropolítica foi traduzida para mais de vinte idiomas e inspira pesquisas em sociologia, direito, saúde coletiva e estudos urbanos. No Brasil, autores como Jaime Amparo Alves e Ana Luiza Flauzina utilizam seu arcabouço para analisar a violência policial e o encarceramento em massa. O conceito de necropolítica aparece em relatórios de direitos humanos e em decisões judiciais, mostrando uma circulação que vai muito além da academia.
O conceito de necropolítica
Necropolítica é o conceito mais conhecido de Mbembe. A ideia central é que o poder moderno não se limita a gerir a vida, como sugeria Foucault com o biopoder. Em muitas situações, o poder age diretamente sobre a morte, definindo quem pode viver e quem deve morrer. Não se trata de uma exceção histórica: a necropolítica é uma tecnologia de governo que se torna regra em certos territórios e para certas populações.
Mbembe define necropoder como o conjunto de mecanismos que permitem exercer o direito de matar. Não fala apenas de assassinato direto, mas de exposição à morte, de condições que tornam a vida precária e de políticas que deixam morrer. Os exemplos incluem campos de refugiados, zonas de guerra, ocupações militares, favelas e prisões. O autor argumenta que a soberania moderna se constitui, em parte, pela capacidade de decidir sobre a vida e a morte, e que essa capacidade não é distribuída igualmente. Ela recai, historicamente, sobre corpos racializados, pobres e migrantes.

Biopoder e necropoder
Foucault descreveu o biopoder como o poder de fazer viver e deixar morrer. Mbembe radicaliza a fórmula: em contextos coloniais e pós-coloniais, o poder de matar é parte constitutiva da soberania. Não nega Foucault, mas mostra os limites de uma análise centrada na experiência europeia. Nas colônias, a vida não era protegida pelas mesmas instituições que na metrópole. O direito de matar era exercido com relativa impunidade. A necropolítica, nesse sentido, recoloca a violência colonial no centro da teoria política.
O conceito dialoga com a noção de estado de exceção, de Giorgio Agamben. Mbembe vai além: mostra que a exceção pode ser permanente para certos grupos. A democracia liberal convive com zonas onde a morte é rotina. No Brasil, o genocídio da população negra e a violência policial são exemplos frequentemente citados. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que pessoas negras representam mais de 70% das vítimas de intervenções policiais letais no país. A necropolítica ajuda a interpretar esses números como parte de uma lógica histórica, não como desvio individual ou acidente.
Aplicações contemporâneas
Pesquisadores usam a necropolítica para analisar conflitos armados, políticas migratórias e crises sanitárias. Durante a pandemia de covid-19, Mbembe publicou artigos criticando a gestão diferencial da vida e da morte. Argumentou que alguns países trataram certas populações como descartáveis. No Brasil, a demora na compra de vacinas e a propagação do vírus em comunidades vulneráveis foram lidas por vários cientistas sociais como expressão concreta de necropolítica. O conceito também aparece em estudos sobre a Amazônia, sobre povos indígenas e sobre a população em situação de rua.
A noção de necropolítica não é uma teoria geral da violência. É uma ferramenta para descrever como o poder organiza a morte em contextos específicos. Isso exige atenção às particularidades históricas. O colonialismo português no Brasil não é idêntico ao colonialismo francês na Argélia, mas ambos produziram formas de soberania que combinam exploração e extermínio. A comparação é válida, desde que feita com cuidado analítico. Para o professor em sala de aula, o conceito pode ser introduzido a partir de casos concretos, como dados da segurança pública ou notícias sobre violência policial nas periferias brasileiras.
Críticas e limites do conceito
Alguns autores criticam o uso muito ampliado da necropolítica. O risco é transformar o conceito em sinônimo de qualquer violência, perdendo densidade analítica. Mbembe responde que a necropolítica não substitui outras categorias, como racismo estrutural ou genocídio: ela se articula com elas. Outra crítica aponta que o foco excessivo na morte deixa pouco espaço para a resistência. O autor não ignora o tema, mas é verdade que a denúncia ocupa mais espaço em sua obra do que a sistematização de estratégias de enfrentamento.
No campo empírico, o conceito apresenta dificuldades de operacionalização. Ele é filosófico e ensaístico por natureza. Isso não o invalida, mas exige mediação metodológica. O pesquisador precisa mostrar como o necropoder se materializa em práticas concretas: orçamentos, leis, decisões judiciais, ações policiais. Sem essa tradução, o conceito vira metáfora. O que Mbembe oferece é um horizonte crítico, não um manual. Cabe aos pesquisadores transformá-lo em indicadores e análises situadas.
Pós-colonialismo e crítica da modernidade
Mbembe é frequentemente classificado como pensador pós-colonial. A etiqueta é útil, mas incompleta. O pós-colonialismo não é uma escola única; reúne autores como Edward Said, Gayatri Spivak, Homi Bhabha e Stuart Hall. Mbembe compartilha com eles a crítica ao eurocentrismo e a atenção às culturas colonizadas. Sua obra, no entanto, tem marcas próprias: a centralidade da África, o diálogo com a filosofia africana contemporânea e a recusa de tratar o continente como objeto passivo da história. Para ele, a África produziu pensamento, não apenas sofrimento.
Em On the Postcolony, Mbembe analisa a estética do poder em regimes africanos pós-coloniais. Descreve como o Estado se apresenta por meio de rituais, símbolos e excessos. O poder não se limita à repressão: ele também seduz, provoca e organiza a vida cotidiana. A noção de pós-colônia não indica ausência de colonialismo, mas uma condição histórica marcada por heranças e continuidades. O autor critica tanto os discursos nacionalistas que glorificam o Estado quanto as análises que reduzem a África à imagem da miséria.
Para aprofundar a discussão sobre colonialidade no Brasil, veja nosso artigo sobre colonialidade do poder em Aníbal Quijano e também nossa análise sobre racismo estrutural.
Crítica ao eurocentrismo
Mbembe argumenta que a modernidade europeia se construiu em relação dialética com o colonialismo. Não há modernidade sem escravidão, sem extração e sem racismo. Essa tese se aproxima da formulação de Aimé Césaire em Discurso sobre o colonialismo (1950) e de Fanon em Pele negra, máscaras brancas (1952). Mbembe lê esses clássicos e os atualiza. Não propõe abandonar a razão ocidental, mas deslocá-la. A crítica consiste em mostrar que a razão tem cor, tem história e tem geografia.
No campo da sociologia, essa crítica encontra eco em autores como Boaventura de Sousa Santos e sua noção de ecologia de saberes. Mbembe vai na mesma direção ao recusar hierarquias entre formas de conhecimento. Valoriza a oralidade, a performance e a memória como fontes legítimas de saber. Isso tem implicações diretas para o ensino: ao trabalhar o autor em sala de aula, o professor pode incluir narrativas africanas e afro-brasileiras que não passam exclusivamente pelo texto escrito europeu.
A África como sujeito de pensamento
Mbembe insiste que a África não é apenas tema, mas sujeito de pensamento. Sua obra dialoga com a filosofia africana contemporânea, como a de Kwame Gyekye e Henry Odera Oruka. Ele não adota uma postura essencialista: não existe uma essência africana única. Existem tradições plurais, em conflito e em transformação. A crítica da razão negra mostra como a categoria “negro” foi inventada pelo racismo e como ela pode ser ressignificada politicamente.
Essa perspectiva tem impacto nos estudos sobre religião e cultura afro-brasileira. Ao tratar a África como produtora de sentido, Mbembe abre caminho para análises que não reduzem o continente ao exotismo. No Brasil, pesquisadores ligados aos estudos das religiões de matriz africana encontram em sua obra ferramentas para discutir intolerância, memória e resistência. O conceito de crioulização, formulado por Glissant e retomado por Mbembe, ajuda a pensar identidades híbridas sem apagar as violências que as produziram.
Filosofia africana e descolonização do saber
A filosofia africana, para Mbembe, não é apêndice da filosofia europeia. Ela tem problemas próprios e métodos próprios. O autor recusa a ideia de que o pensamento africano seja apenas etnofilosofia, um conjunto de crenças tradicionais sem valor conceitual. Dialoga com Paulin Hountondji, que defendeu a filosofia africana como prática crítica, e acrescenta a dimensão da violência colonial. A descolonização do saber não é exercício retórico: envolve mudanças em currículos, bibliografias e práticas pedagógicas concretas.
No ensino brasileiro, a Lei 10.639/2003 tornou obrigatório o estudo de história e cultura afro-brasileira e africana. A obra de Mbembe fornece base teórica consistente para cumprir esse dispositivo legal. Professores podem usar seus conceitos para discutir racismo, colonialidade e resistência com profundidade. A filosofia africana, nesse contexto, deixa de ser curiosidade exótica e passa a integrar o currículo de forma substantiva.
Diálogo com Fanon e Foucault
Fanon é presença constante na obra de Mbembe. Ambos pensam a violência colonial como constitutiva da subjetividade. Fanon descreve a experiência do negro na metrópole e a necessidade de desalienação. Mbembe amplia a análise para o continente africano e para as diásporas, sem repetir Fanon, mas atualizando suas intuições para um mundo marcado por globalização, guerras e migrações em massa. Foucault entra pela via do biopoder, mas Mbembe demonstra que o poder sobre a vida não se separa do poder sobre a morte.
Essa combinação de referências não é ecletismo sem critério. Ela responde a uma exigência teórica real: compreender o presente sem perder a dimensão histórica. Mbembe escreve sobre o século XXI sem abandonar o século XIX, quando a África foi partilhada pelas potências europeias na Conferência de Berlim (1884-1885). O passado colonial não passou, como ele costuma insistir. Ele se reconfigura em novas formas de controle, como muros de fronteira, campos de refugiados e tecnologias de vigilância em massa.
Para entender melhor o pensamento de Foucault que embasou Mbembe, veja nosso artigo sobre Michel Foucault e o biopoder.
Descolonização como processo inacabado
Em Sortir de la grande nuit, Mbembe discute a descolonização como processo que permanece em aberto. A independência política não eliminou a dependência econômica, o racismo nem a hierarquia dos saberes. A grande noite é a noite colonial, da qual a África ainda tenta sair. O autor não propõe uma ruptura total com a Europa, mas uma reconfiguração das relações. Fala de uma comunidade futura, aberta e plural, que não repita os erros do nacionalismo excludente.
Essa perspectiva dialoga com o pensamento decolonial latino-americano, como o de Aníbal Quijano e Walter Mignolo. Há diferenças de ênfase: Mbembe está mais atento à experiência africana e à questão racial. Mas o diálogo é produtivo. No Brasil, a descolonização do saber envolve reconhecer a presença africana na formação social e cultural do país. Não se trata de importar teorias prontas, mas de usá-las com criticidade e adaptação ao contexto.
Mbembe e o Brasil
A recepção de Mbembe no Brasil ganhou força na última década. Sua obra é lida em cursos de ciências sociais, direito, saúde coletiva e educação. O conceito de necropolítica tornou-se quase obrigatório em discussões sobre violência urbana e encarceramento em massa. Autores como Jaime Amparo Alves, em The Anti-Black City (2018), e Ana Luiza Flauzina, em Corpo negro caído no chão (2008), utilizam suas ferramentas para analisar o racismo brasileiro. Mbembe oferece um vocabulário que conecta o local ao global sem perder a especificidade histórica.
Em 2020, durante a pandemia, o nome de Mbembe circulou amplamente na imprensa brasileira. Artigos e entrevistas discutiam a necropolítica da covid-19. Ele participou de lives e concedeu entrevistas a veículos como El País e Folha de S.Paulo. O interesse não era apenas acadêmico: movimentos sociais e coletivos negros usaram o conceito para denunciar a ausência de políticas públicas de proteção. A necropolítica se tornou parte da linguagem de reivindicação política nas ruas e nas redes.
Aplicações em pesquisas brasileiras
Pesquisas sobre segurança pública, saúde e territórios periféricos recorrem regularmente à necropolítica. Um exemplo é o estudo da letalidade policial no Rio de Janeiro e em São Paulo. Os dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública mostram que a polícia mata mais de seis mil pessoas por ano no Brasil, a maioria negra e jovem. A necropolítica ajuda a interpretar esses números como parte de uma política de Estado estruturada historicamente, não como desvio ou acidente policial isolado.
Na área da saúde, a necropolítica ilumina a distribuição desigual de recursos e a exposição diferencial de certos grupos a riscos evitáveis. Durante a pandemia, a mortalidade entre negros e pobres foi proporcionalmente maior. Mbembe argumenta que a raça opera como um instrumento de distribuição diferencial da morte. No Brasil, essa tese encontra confirmação empírica em dados produzidos por institutos como o IBGE e pela Fundação Oswaldo Cruz.
Debates sobre racismo e violência
Mbembe dialoga diretamente com o debate brasileiro sobre racismo estrutural, formulado por autores como Silvio Almeida e Sueli Carneiro. A necropolítica acrescenta a dimensão da soberania e do direito de matar. Não se trata apenas de discriminação individual ou de preconceito: trata-se de um poder que decide, institucionalmente, quem vive e quem morre. Essa perspectiva radicaliza a análise e exige respostas políticas à altura.
O conceito também ajuda a pensar a violência contra as religiões de matriz africana e os conflitos fundiários que atingem populações quilombolas. A intolerância religiosa e os conflitos no campo, envolvendo reforma agrária e demarcação de territórios, podem ser lidos como expressões concretas de necropolítica. Quem tem direito à terra, à memória e à vida? A pergunta de Mbembe ecoa com força em contextos rurais e urbanos brasileiros.
Para um aprofundamento sobre as relações étnico-raciais no Brasil, consulte também nosso artigo sobre relações étnico-raciais e educação.
Críticas e controvérsias
A obra de Mbembe não está livre de críticas. Alguns autores consideram que o conceito de necropolítica é amplo demais e perde precisão analítica quando aplicado a contextos muito distintos. Outros apontam o risco de uma leitura vitimista da África, que deixa pouco espaço para a agência histórica dos povos africanos. Há também controvérsias políticas: em 2020, o governo alemão cancelou um convite para que Mbembe participasse de um festival cultural, após acusações de antissemitismo ligadas a um texto sobre a Palestina. A controvérsia gerou debate internacional sobre liberdade acadêmica e sobre as tensões entre memórias do colonialismo e do Holocausto. Mbembe negou as acusações e recebeu apoio de intelectuais como Judith Butler.
No campo teórico, a crítica mais frequente é a dificuldade de operacionalizar empiricamente a necropolítica. O pesquisador precisa mostrar como o necropoder se manifesta em práticas concretas. Sem essa mediação, o conceito perde força explicativa. A proposta de Mbembe não é substituir Foucault: é complementá-lo, ampliá-lo a partir de uma posição não europeia. O diálogo entre os dois autores é mais produtivo do que a escolha de apenas um deles como referência única.
Recepção e polêmicas
A polêmica na Alemanha em 2020 expôs tensões entre a memória do Holocausto e a memória do colonialismo. O episódio mostra como o debate sobre o passado permanece vivo e como as feridas coloniais ainda não estão cicatrizadas. A recepção de Mbembe varia conforme o contexto nacional: na França, é lido com interesse e reserva; na África do Sul, é referência obrigatória; no Brasil, sua obra chegou principalmente pelas traduções de Necropolítica e Crítica da razão negra, publicadas pela editora n-1.
Essas controvérsias não diminuem a relevância do autor. Indicam que sua obra toca em pontos sensíveis da política contemporânea. O pensamento crítico não busca consenso fácil, mas clareza sobre processos que tendem a ser naturalizados. O professor pode usar essas polêmicas como material didático, desde que contextualize cada debate e evite simplificações que deformem as posições dos envolvidos.
Perguntas frequentes sobre Mbembe
Quem é Mbembe e qual sua importância?
Mbembe é um filósofo e cientista político camaronês, nascido em 1957. Professor pesquisador na Universidade Duke e no Instituto de Estudos Avançados de Stellenbosch, ele é um dos principais pensadores pós-coloniais em atividade. Sua importância vem da formulação de conceitos como necropolítica e crítica da razão negra, que ajudam a analisar racismo, violência e poder no mundo contemporâneo. Sua obra influencia a sociologia, o direito, os estudos culturais e os movimentos sociais.
O que é necropolítica?
Necropolítica é um conceito criado por Mbembe para descrever o poder de decidir quem pode viver e quem deve morrer. Diferente do biopoder de Foucault, que enfatiza a gestão da vida, a necropolítica destaca a exposição à morte de populações racializadas e subalternizadas. Ela se manifesta em guerras, campos de refugiados, periferias urbanas e prisões. O conceito é usado para analisar violência policial, genocídio e políticas de Estado.
Qual a diferença entre necropolítica e biopoder?
Biopoder, segundo Foucault, é o poder de fazer viver e deixar morrer. Necropoder, segundo Mbembe, é o poder de matar ativamente e de expor populações à morte. Enquanto Foucault pensou principalmente a partir da experiência europeia, Mbembe parte das colônias e pós-colônias. A necropolítica não nega o biopoder: radicaliza-o, mostrando que a soberania moderna inclui o direito de matar certos grupos com relativa impunidade.
Como a obra de Mbembe se relaciona com o Brasil?
A obra de Mbembe é amplamente utilizada no Brasil para analisar racismo, violência urbana e desigualdade. Pesquisadores e movimentos sociais recorrem à necropolítica para denunciar a letalidade policial e o genocídio da população negra. O conceito dialoga com noções como racismo estrutural e apartheid social. A recepção brasileira é uma das mais férteis da América Latina, com textos publicados em sociologia, direito e saúde coletiva.
Quais são as principais obras de Mbembe disponíveis em português?
As obras mais acessíveis em português são Necropolítica: biopoder, soberania, estado de exceção, política da morte (n-1 edições, 2018) e Crítica da razão negra (n-1 edições, 2018). Necropolítica é o texto mais traduzido e citado. Crítica da razão negra discute a invenção da categoria “negro” pelo racismo moderno. Ambas estão disponíveis no Brasil e são utilizadas em cursos de graduação e pós-graduação.
Por que a obra de Mbembe é importante para professores de sociologia?
A obra de Mbembe oferece ferramentas conceituais para trabalhar temas como racismo estrutural, violência de Estado, colonialismo e desigualdade em sala de aula. O conceito de necropolítica pode ser introduzido a partir de dados concretos da realidade brasileira, tornando o debate mais próximo da experiência dos estudantes. Além disso, a produção de Mbembe cumpre a exigência da Lei 10.639/2003, que determina o ensino de história e cultura africana na educação básica.
Considerações finais
Mbembe oferece um arcabouço teórico denso e atualíssimo para pensar o poder, a violência e a resistência. Sua obra não se esgota na necropolítica. Inclui reflexões sobre estética, memória, crioulização e futuro. Para professores da educação básica, o autor pode ser trabalhado a partir de casos concretos e de uma mediação cuidadosa. O objetivo não é transformar a aula em seminário avançado de teoria social, mas apresentar conceitos que ajudem os estudantes a interpretar a realidade que os cerca. A necropolítica, por exemplo, pode ser discutida a partir de dados do Anuário de Segurança Pública ou de notícias sobre violência nas periferias.
Para licenciandos e graduandos, a leitura direta dos textos de Mbembe é recomendável. Mbembe exige paciência e repertório teórico. Começar por Necropolítica, que é um texto relativamente curto, pode ser uma boa porta de entrada. Depois, avançar para Crítica da razão negra e On the Postcolony. O diálogo com autores brasileiros e latino-americanos enriquece a compreensão e evita a mera importação acrítica de conceitos. A teoria não é um fim em si mesma: ela serve para fazer perguntas melhores sobre a realidade. Mbembe ensina que o passado colonial não passou e que a luta por vida digna continua. Sua obra é um convite permanente à crítica e à ação transformadora.
Referências
ALVES, Jaime Amparo. The Anti-Black City: Police Terror and Black Urban Life in Brazil. University of Minnesota Press, 2018.
FLAUZINA, Ana Luiza Pinheiro. Corpo negro caído no chão: o sistema penal e o projeto genocida do Estado brasileiro. Contraponto, 2008.
FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Disponível em: forumseguranca.org.br.
MBEMBE, Achille. Necropolítica: biopoder, soberania, estado de exceção, política da morte. Trad. Renata Santini. São Paulo: n-1 edições, 2018.
MBEMBE, Achille. Crítica da razão negra. Trad. Sebastião Nascimento. São Paulo: n-1 edições, 2018.
MBEMBE, Achille. On the Postcolony. University of California Press, 2001.
MBEMBE, Achille. Sortir de la grande nuit: essai sur l’Afrique décolonisée. La Découverte, 2010.
FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Salvador: EDUFBA, 2008.
FOUCAULT, Michel. Em defesa da sociedade. São Paulo: Martins Fontes, 1999.


