O que são as religiões de matriz africana?
As religiões de matriz africana reúnem um conjunto de tradições espirituais trazidas pelos povos escravizados da África para o Brasil entre os séculos XVI e XIX. Não se trata de uma religião única, mas de um campo religioso diverso, formado por práticas, cosmologias e rituais com origem em diferentes povos e regiões do continente africano.
Candomblé, umbanda, tambor de mina, xangô, batuque e catimbó são algumas das expressões mais conhecidas desse universo.
Para a Sociologia, essas tradições não são apenas fenômenos religiosos. São, antes de tudo, formas de organização social, sistemas de conhecimento e estratégias coletivas de resistência cultural. Roger Bastide, em sua obra clássica As Religiões Africanas no Brasil (1971), já identificava nos terreiros espaços onde valores, línguas e cosmovisões africanas foram preservados apesar da violência do sistema escravocrata.
Este artigo explora o que são as religiões de matriz africana, suas principais expressões no Brasil, sua importância sociológica, o quadro legal que as protege e o cenário atual de intolerância religiosa que ainda as assola. É um texto para professores, estudantes e pesquisadores que buscam compreender esse tema com profundidade e rigor.
Origens históricas: diáspora africana e formação religiosa no Brasil
Estima-se que cerca de 4,9 milhões de africanos foram trazidos forçadamente para o Brasil entre os séculos XVI e XIX. Esse movimento constituiu o maior fluxo compulsório de populações africanas para as Américas. Os povos escravizados vinham de diferentes regiões e culturas: iorubás (nagôs), fon-jejes, bantus, minas, hauçás, entre outros.
Cada grupo carregava consigo uma cosmovisão, um sistema de divindades, uma língua e um conjunto de práticas rituais. No contexto brasileiro, essas tradições precisaram se adaptar, se reorganizar e se reinventar diante da proibição, da perseguição e da violência. O resultado foi um processo criativo de síntese cultural que gerou religiões novas, com raízes africanas profundas e elementos incorporados do catolicismo popular e, em alguns casos, de tradições indígenas.
Esse processo é o que os estudiosos chamam de sincretismo religioso. No entanto, é preciso cautela com esse conceito. Para muitos pesquisadores e lideranças religiosas afro-brasileiras, a adoção de santos católicos como “disfarce” para os orixás foi antes uma estratégia de sobrevivência do que uma fusão espontânea. O sincretismo, nesse sentido, preservou o núcleo das religiões de matriz africana ao mesmo tempo que garantiu sua continuidade num contexto de opressão.
As nações do candomblé e suas origens
O candomblé não é uma religião monolítica. Ele se organiza em diferentes “nações”, que correspondem às origens étnicas e geográficas dos povos africanos que as fundaram. As principais são:
| Nação | Origem africana | Divindades principais |
|---|---|---|
| Ketu (Nagô) | Povo iorubá (Nigéria e Benin) | Orixás (Oxalá, Ogum, Iemanjá, Xangô, etc.) |
| Jeje | Povo fon (Benin) | Voduns |
| Angola | Povos bantu (Angola e Congo) | Inquices |
| Tambor de Mina | Maranhão (raízes jejes e nagôs) | Voduns e encantados |
Principais expressões no Brasil
As religiões de matriz africana apresentam uma diversidade significativa no território brasileiro. Cada uma tem características próprias, embora compartilhem raízes históricas comuns.
Candomblé
O candomblé surgiu na Bahia no século XIX, a partir da reorganização religiosa dos povos iorubás escravizados. Centraliza-se no culto aos orixás, divindades que representam forças da natureza e aspectos da experiência humana. Ogum é o orixá dos caminhos e da guerra; Oxum, das águas doces e do amor; Xangô, do trovão e da justiça. Cada praticante tem um orixá regente, identificado por rituais específicos.
Os rituais acontecem nos terreiros, espaços sagrados que funcionam também como comunidades. O terreiro é, ao mesmo tempo, templo, escola, rede de proteção social e espaço de transmissão oral de saberes ancestrais. O papel da mãe de santo (ialorixa) ou do pai de santo (babalorixá) é central na hierarquia ritual e na coesão do grupo.
Umbanda
A umbanda é uma religião genuinamente brasileira, surgida nas primeiras décadas do século XX, especialmente na região do Rio de Janeiro. Resulta de uma síntese criativa entre o candomblé, o espiritismo kardecista e o catolicismo popular. Cultuam-se entidades como pretos-velhos, caboclos, exus, pombagiras e crianças, cada uma com funções específicas no universo ritual.
O pesquisador Reginaldo Prandi distingue o candomblé da umbanda ao apontar que esta última passou por um processo de síntese cultural que incorporou elementos de diversas tradições, aproximando-se de uma religião de caráter mais universalista. Ainda assim, a umbanda carrega uma herança africana profunda e é, junto com o candomblé, uma das principais vítimas de intolerância religiosa no país.
Tambor de Mina, Xangô e Batuque
O tambor de mina é a expressão mais tradicional das religiões de matriz africana no Maranhão e no Pará. Com raízes nas tradições jejes e nagôs, cultua voduns e encantados, e mantém traços que muitos pesquisadores consideram mais próximos das religiões africanas originais, com menor influência do sincretismo católico.
O xangô é a denominação utilizada em Pernambuco e Alagoas para o candomblé de matriz nagô. O batuque, predominante no Rio Grande do Sul, também se organiza em torno dos orixás, com ritmos e práticas rituais próprias da região.

A dimensão sociológica: resistência, identidade e ancestralidade
Para a Sociologia, as religiões de matriz africana são muito mais do que sistemas de crença. São estruturas sociais que cumpriram, e seguem cumprindo, funções fundamentais para as comunidades negras no Brasil.
O terreiro como espaço de resistência
Desde o período colonial, o terreiro foi um espaço de resistência. Em um contexto em que a cultura africana era sistematicamente suprimida, os terreiros guardaram línguas sagradas, modos de culinária ritual, músicas, danças e formas de organizar a vida coletiva.
Abdias Nascimento, em sua obra sobre o quilombismo, reconhecia nas religiões afro-brasileiras formas de organização simbólica, ética e comunitária que estruturam a visão de mundo e a identidade coletiva dos povos negros.
Essa função de preservação cultural não é um fenômeno do passado. Hoje, os terreiros continuam sendo redes de proteção social, especialmente nas periferias urbanas, oferecendo apoio comunitário, cuidado com saúde mental, formação de identidade e pertencimento para populações historicamente marginalizadas.
Ancestralidade como categoria sociológica
A noção de ancestralidade ocupa posição central nas religiões de matriz africana. Ela conecta os praticantes aos seus antepassados, à terra de origem e à cadeia de transmissão cultural que atravessa gerações. Como aponta Nogueira (2012), as religiões de matriz africana, como o candomblé e a umbanda, mantêm viva a memória dos povos africanos trazidos à força para o país.
Na perspectiva sociológica, a ancestralidade funciona como um contra-discurso à narrativa colonial que apagou histórias e identidades africanas. Afirmar a ancestralidade é afirmar que a cultura africana não começou com a escravidão, que ela tem profundidade histórica, produção intelectual e sofisticação filosófica próprias.
No Brasil, a riqueza das tradições afro-diaspóricas se manifesta em sistemas rituais diversos, como o Tambor de Mina, marcado pelo culto a voduns, orixás e entidades encantadas conhecidas como gentis ou caboclos; o Xangô tradicional, de matriz iorubá/nagô, com toques, cantigas e dinâmicas comunitárias particulares; e o Batuque, que preserva as nações Ijexá, Oyó, Cabinda e Jeje com ritmos percussivos e assentamentos próprios.
Somam-se a esse panorama o Terecô (ou Encantaria de Mata), centrado no transe com caboclos e mestres ao som de tambores inteiriços de tronco e maracás; o Babaçuê, que articula voduns e orixás a seres das florestas e rios em diálogo com a pajelança; a Jurema Sagrada (ou Catimbó-Jurema), que une o uso ritual vegetal a fortes trocas com a espiritualidade afro-brasileira acolhendo mestres e pretos-velhos; e a Quimbanda, vertente autônoma de matriz congo-angola dedicada ao trabalho direto com Exus e Pombagiras e à manipulação de energias terrenas e ancestrais.
Identidade e pertencimento
O candomblé, a umbanda e outras expressões afro-brasileiras são, para milhões de brasileiros, uma forma concreta de construção de identidade. A iniciação religiosa, a relação com o orixá tutelar, a vida comunitária no terreiro e os ritos de passagem marcam trajetórias individuais e coletivas. Eles criam o que Émile Durkheim chamaria de solidariedade orgânica: laços baseados em interdependências rituais e reconhecimento mútuo.
Para a intelectual Lélia Gonzalez, a religiosidade afro-brasileira é parte de uma “matriz cultural amefricana”, presente na língua, na culinária e nos modos de organização social de países da América marcados pela diáspora africana. Ignorar as religiões de matriz africana é, portanto, ignorar uma parte estruturante da formação cultural e social do Brasil.
Marco legal: Lei 10.639/2003 e a proteção jurídica
O ordenamento jurídico brasileiro inclui um conjunto de normas que reconhecem e protegem essas tradições religiosas. Conhecê-las é fundamental para professores e estudantes, especialmente na perspectiva da educação para as relações étnico-raciais.
Lei 10.639/2003
Promulgada em 9 de janeiro de 2003, a Lei 10.639 tornou obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana em todas as escolas públicas e privadas do ensino fundamental e médio. Essa lei reconhece que a educação brasileira historicamente negligenciou as contribuições dos povos africanos e afro-brasileiros para a formação do país.
A lei não impõe a prática religiosa. Ela determina que o currículo escolar inclua o conhecimento sobre as culturas africanas, entre as quais as religiões de matriz africana têm papel central. Apesar de sua importância, pesquisas acadêmicas mostram que, quase vinte anos após a promulgação, o ensino sobre essas tradições espirituais permanece sistematicamente invisibilizado na escola básica.
Lei 14.519/2023 e o Dia Nacional
Em 2023, o presidente Lula promulgou a Lei 14.519, que instituiu o Dia Nacional das Tradições das Raízes de Matrizes Africanas e Nações do Candomblé, celebrado em 21 de janeiro. Essa lei representa um reconhecimento formal do Estado brasileiro sobre a importância dessas tradições para a identidade nacional.
A Constituição Federal e a liberdade religiosa
O artigo 5º da Constituição Federal de 1988 garante a inviolabilidade da liberdade de consciência e de crença, assegurando o livre exercício dos cultos religiosos. O artigo 215 estabelece que o Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais, com proteção especial às manifestações das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras.
| Norma | Ano | Conteúdo principal |
|---|---|---|
| Constituição Federal, art. 5º | 1988 | Liberdade de consciência e de crença |
| Constituição Federal, art. 215 | 1988 | Proteção às manifestações culturais afro-brasileiras |
| Lei 10.639 | 2003 | Obrigatoriedade do ensino de história e cultura afro-brasileira |
| Lei 14.519 | 2023 | Dia Nacional das Tradições das Raízes de Matrizes Africanas |
Intolerância religiosa: dados e análise estrutural
Apesar da proteção legal, as religiões de matriz africana são as principais vítimas de intolerância religiosa no Brasil. Os dados mais recentes são alarmantes e exigem uma leitura sociológica cuidadosa.
O que dizem os números
Segundo o Disque Direitos Humanos (Disque 100), canal de denúncias do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, entre 2023 e 2024 as denúncias de violações de liberdade de crença ou culto aumentaram 66,8%, saltando de 1.481 registros para 2.472. Entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026, foram registradas 2.774 denúncias.
As religiões de matriz africana concentram a maior parte dessas denúncias. No período 2025-2026, a umbanda reuniu 228 registros e o candomblé, 161. Quando somados os registros específicos de umbanda, candomblé e outras tradições afro-brasileiras, eles representam 71% dos casos em que a religião da vítima foi identificada.
Esse dado é ainda mais grave quando confrontado com os números do Censo IBGE de 2022: os adeptos dessas tradições correspondem a apenas cerca de 1% da população brasileira. Eles formam uma minoria demográfica que absorve uma proporção desproporcional da violência religiosa do país.
A estrutura histórica do racismo religioso
A intolerância contra as religiões de matriz africana não nasce do nada. Ela tem raízes históricas profundas. No período colonial e imperial, as práticas religiosas africanas eram criminalizadas. O Código Penal de 1890, promulgado logo após a abolição da escravidão, punia o “curandeirismo” e a “magia”, categorias que funcionavam na prática como instrumentos de perseguição às religiões afro-brasileiras.
A demonização das divindades afro-brasileiras, como Exu, é parte desse processo histórico. Atributos negativos atribuídos a essa divindade refletem heranças da moralidade europeia medieval que foram instrumentalizadas para desqualificar as culturas africanas. O que hoje aparece como “preconceito religioso” é, em muitos casos, a continuação de um processo estrutural de racismo que data do período colonial.
O Instituto Ibase aponta que a intolerância religiosa raramente se limita à violação do direito à liberdade de crença. Ela frequentemente vem acompanhada de outras formas de violência, como ataques físicos a terreiros, destruição de imagens e objetos rituais, e ameaças a lideranças religiosas.
A onda conservadora e o papel das mídias sociais
Pesquisadores e organizações como o Centro Nacional de Africanidade e Resistência Afro-Brasileira (Cenarab) identificam que os ataques a terreiros e lideranças afro-brasileiras intensificaram-se no contexto de ascensão de movimentos conservadores religiosos. As redes sociais tornaram-se espaços de disseminação de discursos de ódio contra terreiros e suas lideranças, com consequências diretas no aumento das denúncias registradas pelo Disque 100.

Religiões de matriz africana na escola
A escola é um dos espaços mais importantes para o combate à intolerância religiosa e para a construção de uma sociedade que respeite a diversidade cultural. No entanto, é também um espaço onde o preconceito contra essas tradições se manifesta com frequência.
A escola como espaço de reprodução e de superação do preconceito
Pesquisas acadêmicas que analisam a implementação da Lei 10.639/2003 mostram que o ensino sobre o candomblé, a umbanda e outras tradições afro-brasileiras permanece invisibilizado. Professores relatam insegurança para abordar o tema, seja por falta de formação, seja pelo risco de reação negativa por parte de alunos ou famílias.
Essa invisibilização não é neutra. Ela reproduz, dentro da escola, a hierarquia social que coloca as culturas europeias e cristãs como referência universal, enquanto as tradições africanas aparecem como “exóticas”, “primitivas” ou, pior, como ameaças morais. A escola, nesse sentido, pode ser tanto um lugar de reprodução do racismo religioso quanto um espaço de sua superação.
Como trabalhar as religiões de matriz africana em sala de aula
O tema pode ser abordado em diversas disciplinas, não apenas na Sociologia. Algumas estratégias já testadas por professores incluem:
- Pesquisa histórica sobre as nações africanas que formaram a diáspora brasileira;
- Análise de manifestações culturais afro-brasileiras (capoeira, samba, culinária, linguagem);
- Leitura e debate de textos literários de autores afro-brasileiros;
- Visita virtual ou presencial a museus e espaços culturais afro-brasileiros;
- Análise crítica de notícias sobre intolerância religiosa com base nos dados do Disque 100;
- Estudo do marco legal: Constituição, Lei 10.639/2003 e Lei 14.519/2023.
O objetivo não é converter, nem mesmo fazer apologia de qualquer religião. É garantir que os estudantes compreendam a diversidade religiosa brasileira com respeito, rigor histórico e sensibilidade para as desigualdades que ainda persistem.
O papel do professor de Sociologia
O professor de Sociologia tem um papel estratégico. As diretrizes curriculares nacionais para o ensino de Sociologia incluem explicitamente o estudo das religiões como tema sociológico, com especial atenção à diversidade religiosa brasileira e à relação entre religião, cultura e identidade.
Para aprofundar o debate em sala de aula, o professor pode articular conceitos clássicos da Sociologia com o estudo das religiões de matriz africana. Durkheim ajuda a analisar a função social dos rituais e a coesão comunitária nos terreiros. Weber ilumina a relação entre religião e ética.
Fanon e Mbembe, por sua vez, oferecem ferramentas para pensar a colonialidade do saber e o racismo religioso na perspectiva da diáspora africana.
Para acessar outras discussões sobre diversidade e relações étnico-raciais no contexto escolar, leia também o artigo Quilombismo: Abdias Nascimento contra o racismo e o artigo sobre Feminismo Negro: conceito, história e autoras essenciais. Para uma discussão sobre ancestralidade e identidade, veja também Ancestralidade: identidade e pertencimento.
Para ir além: assista
O vídeo abaixo do canal ATUALIZE.se oferece uma introdução aprofundada às religiões de matriz africana, com participação do pesquisador Rogério Athayde. É um bom ponto de partida para professores e estudantes:
Perguntas Frequentes (FAQ)
O que são as religiões de matriz africana?
As religiões de matriz africana são tradições espirituais trazidas pelos povos escravizados da África para o Brasil entre os séculos XVI e XIX. Incluem o candomblé, a umbanda, o tambor de mina, o xangô, o batuque e outras expressões que se desenvolveram no território brasileiro a partir de cosmovisões, rituais e divindades de origem africana.
Quais são as principais religiões de matriz africana no Brasil?
As mais conhecidas são o candomblé e a umbanda. O candomblé se organiza em torno do culto aos orixás, voduns ou inquices, dependendo da nação. A umbanda é uma síntese criativa entre o candomblé, o espiritismo kardecista e o catolicismo popular. Tambor de mina, xangô e batuque são outras expressões regionalmente importantes.
Qual a diferença entre candomblé e umbanda?
O candomblé tem raízes mais diretamente ligadas às tradições religiosas africanas, especialmente dos povos iorubás, fons e bantus. A umbanda surgiu no Brasil no início do século XX como uma síntese de diversas tradições. Enquanto o candomblé preserva línguas rituais africanas e uma hierarquia iniciática estruturada, a umbanda incorporou elementos do espiritismo e do catolicismo de forma mais intensa.
As religiões de matriz africana são protegidas por lei no Brasil?
Sim. A Constituição Federal de 1988 garante a liberdade de crença e o livre exercício dos cultos religiosos. A Lei 10.639/2003 obriga o ensino de história e cultura afro-brasileira nas escolas. A Lei 14.519/2023 instituiu o Dia Nacional das Tradições das Raízes de Matrizes Africanas. Apesar disso, a intolerância religiosa contra essas tradições continua crescendo.
O que é intolerância religiosa contra as religiões de matriz africana?
É qualquer forma de discriminação, preconceito, perseguição ou violência direcionada a praticantes ou espaços religiosos das tradições afro-brasileiras. Pode ir desde comentários depreciativos até ataques físicos a terreiros, destruição de objetos rituais e ameaças a lideranças. Os dados do Disque 100 mostram que essas tradições concentram a maior parte das denúncias de intolerância religiosa no Brasil.
Por que as religiões de matriz africana são importantes para a Sociologia?
Porque elas permitem analisar questões fundamentais como identidade cultural, resistência coletiva, racismo estrutural, sincretismo, diversidade religiosa e relações étnico-raciais. Os terreiros são espaços onde se cruzam dimensões religiosas, sociais, políticas e culturais que a Sociologia precisa compreender para analisar a sociedade brasileira em sua complexidade.
Como abordar as religiões de matriz africana em sala de aula?
O trabalho em sala de aula deve ser histórico, crítico e respeitoso. O professor pode partir da diáspora africana, passar pela formação das tradições afro-brasileiras, discutir o marco legal e analisar o contexto atual de intolerância religiosa. É importante evitar qualquer tratamento que exoticize ou hierarquize as religiões, colocando as tradições africanas como inferiores às europeias ou cristãs.
Considerações finais
As religiões de matriz africana são parte indissociável da formação cultural, social e histórica do Brasil. Compreendê-las não é apenas um exercício acadêmico. É uma exigência de qualquer projeto educativo que se pretenda comprometido com a igualdade, o respeito à diversidade e o enfrentamento do racismo.
Os dados do Disque 100 são um diagnóstico claro: o crescimento das denúncias de intolerância religiosa entre 2024 e 2026 mostra que as religiões de matriz africana seguem sendo perseguidas no Brasil contemporâneo. Essa perseguição não é um fenômeno isolado. É a continuação de um processo histórico que começa na escravidão e se atualiza em novas formas de violência simbólica e física.
A escola, e especialmente as aulas de Sociologia, têm papel decisivo nesse quadro. Quando um estudante aprende que o candomblé é uma tradição religiosa com séculos de história, que o terreiro é um espaço de resistência e comunidade, e que a intolerância religiosa é um problema de direitos humanos com dados mensuráveis, ele está construindo as bases para uma cidadania mais informada e mais justa.
Aprofundar o conhecimento sobre as religiões de matriz africana é também aprofundar o conhecimento sobre o Brasil. Sobre quem somos, de onde viemos e quais desigualdades ainda precisamos enfrentar.
Para continuar o debate, leia também o artigo sobre Dia da Consciência Negra e sua importância e explore o tema do ensino de Direitos Humanos e Sociologia. Se quiser trabalhar as relações étnico-raciais com mais profundidade, o artigo sobre Quilombismo e Abdias Nascimento é leitura essencial.
Referências
BASTIDE, Roger. As religiões africanas no Brasil. São Paulo: Pioneira, 1971.
PRANDI, Reginaldo. As religiões afro-brasileiras nas ciências sociais: uma conferência, uma bibliografia. BIB-ANPOCS, n. 63, 2007.
NASCIMENTO, Abdias. O quilombismo. Petrópolis: Vozes, 1980.
NOGUEIRA, Sidnei. Intolerância religiosa. São Paulo: Sueli Carneiro, 2020.
BRASIL. Ministério dos Direitos Humanos. Painel de Dados do Disque 100, 2026. Disponível em: gov.br/mdh.
IBASE. O crescimento da intolerância religiosa como desafio à democracia brasileira. Disponível em: ibase.br.
ECCOS Revista Científica. Educação e preconceito religioso: a invisibilidade das religiões de matriz africana no espaço escolar. Disponível em: periodicos.uninove.br.



