Análise da música Roda Viva

Análise da música Roda Viva

Música “Roda Viva” – Chico Buarque

Por Roniel Sampaio Silva

A músicas são uma oportunidade incrível de aprender e contextualizar conceitos e analises sociológicas. Estudos de Larry Cahill e James McGaugh, da Universidade da Califórnia indicaram uma estreita relação entre afetividade e memória. De acordo com os pesquisadores o processo de aprendizado está diretamente relacionado à afetividade. Neste sentido, o uso didático de músicas potencializa o aprendizado; não apenas de Sociologia, como de qualquer outra disciplina. Vamos buscar sentidos na música Roda Viva de Chico Buarque de Holanda.

 

Aspectos conceituais fundamentais: Marx e a luta de classes

O modelo explicativo da realidade de Marx é pautado na análise crítica das relações sociais oriundas das relações de produção. Ou seja, a forma como nos organizamos socialmente é reflexo da maneira como a sociedade organiza a sua produção.

Em termos objetivo, tomemos o caso venezuelano (2017-2018). A crise do petróleo (da forma de produção) levou o país a uma crise social (da forma de sociabilidade) que só acabará com o fim de tal crise ou após uma reorganização das relações de produção, de comércio e de consumo, o que levará a sociedade a uma reorganização de sociabilidade.

Outro ponto destacado por Marx está no fato das classes sociais possuírem interesses antagônicos (contraditórios) e suas relações são conflituosas (o que chamou de lutas de classe), velando a  ciclos históricos de transformação no padrão de dominação. Para Marx, o motor da história são as lutas de classes.

A canção

Por retratar um contexto social e político conturbado do país, a canção “Roda Viva”, de Chico Buarque, é uma das mais importantes do repertório da MPB.

A música foi apresentada no “III Festival da Música Popular Brasileira”, organizado pela TV Record, conhecido também como “Festival da canção de 1967” . Na ocasião a música foi a vencedora do festival. A pedido de Chico, a música “Disparada”, de autoria de Vandré e interpretada por Jair Rodrigues, recebeu o prêmio de melhor canção juntamente com essa música.

Propomos o uso da música “Roda Viva” como recurso didático para ensinar o conceito de dialética de Marx. Nesse contexto, a expressão “Roda viva” pode ser interpretada como o motor da história, os ciclos históricos proporcionados pelas lutas de classe. A partir desse ponto podemos problematizar o contexto histórico da música, como forma de exemplificar o movimento dialético da história.

No início da década de 1960, por meio do governo Jango, o Brasil indicava levar a cabo reformas progressistas, as quais iam de encontro aos interesses das classes dominantes e em benefício do proletariado. Frente a essa ameaça aos interesses da classe dominante, a história é redirecionada –  eis a roda viva – por meio da Ditadura Civil-militar de 1964, dando novo rumo à história; pende-se a “balança” da luta de classe para o lado dos dominantes, e consequentemente, em prejuízos à classe trabalhadora.

Mas eis que chega a roda-viva

E carrega o destino pra lá

Por conta da luta de classes há ciclos históricos reconfigurados pelas condições materiais. O conflito pode ampliar a situação de exploração ou criar um cenário mais justo. O fato é que a história está sempre em movimento; é a roda da vida.

Para Marx a transformação da realidade social é constituída por meio do processo histórico, no qual as contradições criam situações de tensão em que as classes sociais menos favorecida precisam se organizar em seu favor.

No trecho da canção “A mais linda roseira que há” pode ser entendida como uma alusão ao projeto de socialismo, cujo símbolo, autoria do francês Didier Motchane, é uma um punho segurando uma roseira. O regime militar sublimou o projeto de trabalhismo, cuja inspiração era o socialismo.

Na volta do barco é que sente

O quanto deixou de cumprir

A roda viva representada na canção não deve ser entendida apenas como alusão ao golpe militar, mas também ao sentimento – constante possibilidade – de mudança desejada pelos setores progressistas da sociedade brasileira. A organização da classe trabalhadora também se dá em “rodas” de conversa, de samba, da dança que podem objetivar mover a história, dar dinamismo a “roda viva”. A final, a roda é viva. A história não para.

A roda da saia, a mulata

Não quer mais rodar, não senhor

Não posso fazer serenata

 

 

 

Roniel Sampaio Silva

Mestre em Educação e Graduado em Ciências Sociais. Professor do Programa do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Piauí – Campus Floriano. Dedica-se a pesquisas sobre condições de trabalho docente e desenvolve projetos relacionados ao desenvolvimento de tecnologias.

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  1. Walter53
    outubro 12, 20:07 Walter53

    Disparada ficou empatada com a música A Banda e não Roda Viva

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  2. Labaredo
    novembro 16, 12:01 Labaredo

    Ao que Walter53 já disse, eu gostaria de acrescentar que: ‘Roda Viva’ não só não ganhou o festival de que participou (ficou em 3o), não empatou com ‘Disparada’ (a ‘Banda’ empatou com ela em outro festival), assim como a afirmação de que Chico teria tido participação (?) na escolha de ‘Disparada’ como melhor canção, soa pura alucinação do articulista.
    Embora não tenha espaço ou tempo para questionar os conceitos marxistas apresentados, acredito que seria bom esclarecer no artigo, que esta é uma interpretação pessoal do poema que o articulista faz se valendo de conceitos marxistas, para evitar que seus leitores entendessem erradamente que tais teriam sido as reais intenções do compositor. Por respeito, deixemos para ele tais ‘revelações’.

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