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Redução da carga horária de Sociologia: entre ignorância e perversidade

Carga horária de sociologia

Redução da carga-horária de Sociologia: entre ignorância e perversidade

Por Cristiano Bodart

Cristiano Bodart é doutor em Sociologia (USP) e pesquisador do tema ensino de Sociologia.

Quando tomamos conhecimento de que os Secretários de Educação dos estados do Paraná e do Espírito Santo deram encaminhamento a um “projeto” de redução da carga horária de Sociologia (e outras disciplinas igualmente importantes), uma questão suscitamos: trata-se de ignorância ou de projeto político ideológico que visa minar qualquer ação progressista?

O secretário de Educação do Espírito Santo, Vitor Angelo, é graduado em História e doutor em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR). Já o secretário de Educação do Paraná, Renato Feder, é graduado em Administração pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e mestre em Economia pela Universidade de São Paulo (USP). As suas titulações deram-se em instituições reconhecidas pelo rigor científico. Contudo, vale lembrar que nem todos os(as) estudantes absorvem o que de melhor há nas instituições por onde passam. Talvez seja ocaso dos referidos secretários. Em outros termos: ou os secretários não se apropriaram do habitus academicus, ou estão sendo movidos pelos ventos ideológicos conservadores da extrema-direita. Ou, é uma questão de desconhecimento ou uma ação perversa contra espaços progressistas que visam um mundo mais justo aos menos favorecidos, ou que criam espaços de inclusão dos que historicamente não tiveram vez e voz.

Partindo da dúvida, recomendo aos secretários estaduais que estudem o tema, observando o que a academia vem produzindo sobre o ensino de Sociologia (isso vale para Artes e Filosofia). Reacendam o habitus academicus de vocês, ainda que seja, no momento, como pavios que fumegam. Administrem a Educação com a razão e não com o fígado.

Num contexto de ampliação da carga horária total do ensino médio, como justificar a redução de carga horária de Sociologia? Esperamos o oposto, que seja ampliada! Poderíamos citar algumas pesquisas que evidenciam a importância do ensino de Sociologia. Eu mesmo acabo de publicar uma pesquisa cujos dados apontam que os(as)estudantes vêm reconhecendo a importância da Sociologia para suas vidas cotidianas e para suas futuras vidas no mercado de trabalho. Ver artigo sobre isso AQUI

Qualquer pesquisador do tema ensino de Sociologia reitera a importância da disciplina no ensino básico, inclusive para alcançar os objetivos traçados pela pela LDB (1996) e pela BNCC (2018). Ver artigo sobre isso AQUI

Carga horária reduzida não só privará os estudantes e as estudantes do acesso ao conhecimento do mundo e de si mesmo, como também gerará impactos igualmente perversos sobre os professores e professoras. Ver sobre isso AQUI 

Deixo registrado aqui um apelo: pautem suas escolhas e ações na ciência. Busquem conhecer os debates no interior dos campos educacional e sociológico, assim compreenderão que reduzir a carga horária de Sociologia é desperdiçar um potencial colaborativo que a disciplina vem demonstrando nos últimos anos, ainda que em meio à todos os problemas existentes nas escolas públicas e na educação brasileira em geral.

Negacionismo vindo de um doutor em Ciências Sociais e de um mestre em Economia é algo que não esperávamos.

Não deixe o pavio que fumega (se é que ainda fumega) apagar. Não optem por ficar na escuridão da ignorância. De outra forma, apagar-se-ão seus nomes da história da Educação do Espírito Santo e do Paraná, pois certamente teremos vergonha deles ao olhar no retrovisor da história (e da História). Ao menos, Vitor Angelo deve saber que a História é implacável.

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