Os livros escolares e a história do ensino de Sociologia no Brasil

Os livros escolares e a história do ensino de Sociologia no Brasil

Cristiano das Neves Bodart [1]

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Tive o prazer de discutir, sistematizar e escrever com o professor Welkson Pires uma proposta de percursos metodológicos para os estudos do processo de institucionalização da Sociologia no Brasil tomando os textos escolares como fonte de pesquisa. O resultado foi publicado em forma de artigo científico intitulado “Compreensão do processo de institucionalização da Sociologia escolar a partir de manuais escolares: um percurso metodológico em manualística” (2021). A discussão e sistematização da proposta é resultando de pesquisas que venho realizando com manuais de Sociologia da primeira metade do século XX.

Os manuais escolares vêm sendo tomado como objeto de estudos da História do ensino de Sociologia por um conjunto de pesquisadores(as) brasileiros(as). Dentre os pesquisadores(as) estão Amurabi de Oliveira (UFSC), Cilmara Ferrari Perez (Colégio Presbiteriano Mackenzie), Cristiano das Neves Bodart (UFAL), Flávio Marcos Silva Sarandy (UFF), Fernando Roberto Campos (Unifaccamp), Jefferson da Costa Soares (PUC-Rio), Marcelo Pinheiro Cigales (Unb), Maria Auxiliadora Cavazotti (UFPR), Maria das Dores Daros (UFSC), Silvia Helena Andrade Brito (UFMS), Simone Meucci (UFPR) e Wanirley Pedroso Guelfi (UFPR). Se estiver desejando iniciar uma pesquisa ou estudos aprofundados sobre o tema, recomendo iniciar a leitura pelas obras dos referidos pesquisadores e pesquisadoras.

A despeito de observarmos um certo esforço no desenvolvimento de pesquisas que se utilizam de textos escolares para entender a institucionalização das Ciências Sociais (Sociologia, Antropologia e Ciência Política) no Brasil, esse quantum de trabalhos é ainda diminuto.

No artigo que publiquei com Pires (2021), identificamos ao menos cinco abordagens, sendo elas:

1) a que o entende como um currículo editado, sendo resultado de um esforço de tradução e operacionalização do currículo oficial por parte de autores e editores;

2) a que contempla o manual escolar como reflexo da sociedade de seu tempo, dos valores, dos estereótipos, das atitudes e das ideologias dominantes na sociedade que o produz e o consome;

3) a que vê o livro escolar de uma perspectiva instrumental como um manual da prática docente, que traz métodos e procedimentos para as atividades escolares de ensino-aprendizagem;

4) a que o compreende como uma forma indireta de alcançar o perfil do sujeito para o qual foi destinado e também o tipo de indivíduo que se busca formar através dos processos educacionais; e, por fim,

5) a que se volta ao manual escolar pelo seu caráter documental, buscando alcançar e apreender suas marcas históricas.

No artigo que publicamos, apontamos que os manuais escolares precisam ser considerados pelos pesquisadores a partir de duas dimensões analíticas: a interna e a externa.

Denominamos análise interna aquela voltada para “dentro” do manual e que está focada, por exemplo, em seus conteúdos teóricos e temáticos, recursos didáticos, orientações didático-pedagógicas, discursos, estrutura editorial, etc. Esses aspectos podem revelar mais diretamente o modo como está configurada, em termos escolares, a disciplina Sociologia. Por análise externa, referimo-nos àquela que orienta seu olhar para “fora” do manual, atentando para os contextos político, econômico, cultural, editorial, educacional, legislativo, etc., que dão sentido aos manuais escolares justamente porque determinam seus processos de produção, circulação e recepção (BODART; PIRES, 2021).

Grosso modo, no artigo publicado, demonstramos que os manuais escolares de Sociologia podem nos permitir compreender:

        •  os interesses em jogo que impulsionaram a inserção da Sociologia na educação básica e, nesse contexto, as possíveis disputas aí existentes quanto ao sentido dessa disciplina em nível escolar;
        •  as configurações curriculares da sociologia escolar, aí incluídos aspectos relacionados ao estabelecimento do seu público alvo, a definição dos objetivos educacionais a serem atingidos, a composição de seu conteúdo programático, de suas metodologias de ensino, de aprendizagem e de avaliação;
        • os aportes estruturais que dão sustentação e legitimidade para essa disciplina, o que envolve desde a estrutura normativa posta, passando pelo mercado editorial até as redes sociais e acadêmicas que configuraram e configuram a sociologia escolar.

Se estiver interessado em tomar livros didáticos de Sociologia para entender o processo de institucionalização das Ciências Sociais, recomendo que leia nosso artigo. Pode ser que ele lhe ajude a definir os caminhos metodológicos para sua pesquisa ou estudo. Caso deseje observar como algumas pesquisas vem se apropriando de manuais de Sociologia para compreender a História do ensino de Sociologia no Brasil, recomendo a leitura dos seguintes textos:

Quadro 1 – Algumas das produções acadêmicas sobre a História do ensino de Sociologia que se utilizaram de manuais escolares

TítuloAutoriaAno
A institucionalização da sociologia no Brasil: os primeiros manuais e cursos.Simone Meucci2000
Sociologia como disciplina escolar no ensino secundário brasileiro: 1925-1942.GUELFI, W. P2001
Dilemas da sociologia no Brasil: análise sobre os manuais escolares de Amaral Fontoura e Fernando de Azevedo.CIGALES, Marcelo.2014
Raymond Murray e a Sociologia Católica no Brasil: notas sobre um manual da década de 1940.CIGALES, Marcelo.2015
Os manuais de Sociologia Educacional nos anos de 1940: contexto de produção, autores, estruturas didáticas e perspectivas teóricas.BODART, Cristiano das Neves; SOUZA, Ewerton Diego.2019
A Sociologia Católica no Brasil:

análise sobre os manuais escolares (1920-1940).

CIGALES, Marcelo.2019
Preocupações didáticas em compêndios de Sociologia dos anos de 1930.BODART, Cristiano das Neves; SILVA, Elizandra. Cristina R.2020
Fragmentos da história do ensino de sociologia no Brasil: Figueiredo e seu manual escolar de Sociologia de 1917. BODART, Cristiano das Neves; MARCHIORI, Cassiane da C. Ramos.2021

Fonte: Elaboração própria.

Quanto a base teórica do campo sociológico que vem sendo mobilizado, destaca-se a teoria disposicionalista de Pierre Bourdieu. Sobre a presenças de Bourdieu dos estudos do processo de institucionalização das Ciências Sociais no Brasil, publiquei um outro artigo, com a colaboração de Caio Tavares, intitulado “A história do ensino de Sociologia no Brasil sob as apropriações da Teoria Disposicionalista” (2021). Um pesquisador que vem se destacando na apropriação dessa teoria para pensar a institucionalização da Sociologia a partir de análises de manuais de Sociologia é Marcelo Cigales (UnB), sendo sua tese de doutoramento produção exemplar (e de leitura obrigatória) em se tratando do tema em questão.

Temos notado um avanço qualitativo das pesquisas sobre a História do ensino de Sociologia no Brasil, o que vem sendo observado nos principais congressos especializados no ensino das Ciências Sociais, tais como o ENESEB, o Congresso Nacional da ABECS, cujos Grupos de Trabalhos (GTs) tenho coordenado nos últimos anos em parceria com Marcelo Cigales (UnB) e Antonio Alberto Brunetta (UFSC).

 

Referências bibliográficas

BODART, Cristiano das Neves; SILVA, Elizandra Cristina R. da. Preocupações didáticas em compêndios de Sociologia dos anos de 1930. In: BODART, Cristiano das Neves (Org.). Sociologia e Educação: debates necessários. 2. ed. Maceió: Editora Café com Sociologia. 2020.v. 1. p. 117-150.

BODART, Cristiano das Neves; TAVARES, Caio dos Santos. A história do ensino de Sociologia no Brasil sob as apropriações da Teoria Disposicionalista. Cadernos da Associação Brasileira de Ensino de Ciências Sociais, v.5, n.1, p. 44-66, jan./jul. 2021.

BODART, Cristiano das Neves; SOUZA, Ewerton Diego. Os manuais de Sociologia Educacional nos anos de 1940: contexto de produção, autores, estruturas didáticas e perspectivas teóricas. Em Tese, Florianópolis, v. 16, n. 1, p. 40-67, jan./jun. 2019.

BODART, Cristiano das Neves; MARCHIORI, Cassiane da C. Ramos. Fragmentos da história do ensino de sociologia no Brasil: Figueiredo e seu manual escolar de Sociologia de 1917. Revista Brasileira De História Da Educação, v. 21 n. 1, 2021.

BODART, Cristiano das Neves; PIRES, Welkson. Compreensão do processo de institucionalização da Sociologia escolar a partir de manuais escolares: um percurso metodológico em manualística. Revista Em Aberto, v. 34, n.111, mai./ago., 2021.

CIGALES, Marcelo. Dilemas da sociologia no Brasil: análise sobre os manuais escolares de Amaral Fontoura e Fernando de Azevedo. Alabastro: revista eletrônica dos alunos da Escola de Sociologia e Política de São Paulo, São Paulo, ano 2, v. 2, n. 4, p. 65-78, 2014.

CIGALES, Marcelo. Raymond Murray e a Sociologia Católica no Brasil: notas sobre um manual da década de 1940. Revista Café com Sociologia, Maceió, v. 4, n. 3, p. 110-122, dez. 2015.

CIGALES, Marcelo. A Sociologia Católica no Brasil: análise sobre os manuais escolares (1920-1940). 2019. 313 fls. Tese (doutorado em Sociologia Política). Universidade Federal de Santa Catarina, 2019.

GUELFI, W. P. A Sociologia como disciplina escolar no ensino secundário brasileiro: 1925-1942. 2001. 205 f. Dissertação (Mestrado em Educação) –Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2001.

MEUCCI, S. A institucionalização da sociologia no Brasil: os primeiros manuais e cursos. 2000. 158 f. Dissertação (Mestrado em Sociologia) – Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2000.

Como citar este texto:

BODART, Cristiano das Neves. Os livros escolares e a história do ensino de Sociologia no Brasil. Blog Café com Sociologia. set. 2021. Disponível em: <cafecomsociologia.com/livros-escolares-e-historia-do-ensino-de-sociologia-no-brasil>.

 

Nota:

[1] Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP). Docente do Centro de Educação e do programa de pós-graduação em Sociologia da Universidade Federal de Alagoas (UFAL). Vice-presidente da Associação Brasileiro de Ensino de Ciências Sociais (ABECS) e editor do Café com Sociologia. E-mail: [email protected]

Cristiano Bodart

Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), professor do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Docente do Centro de Educação da Ufal.

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