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Meritocracia, racismo e conhecimento sociológico

Meritocracia, racismo e conhecimento sociológico

Cristiano das Neves Bodart

 

Você acredita que as desigualdades sociais são resultantes de diferenças de capacidades intelectuais ou biológicas entre a espécie humana? Talvez afirme que não. Mas, por que acreditar no discurso da meritocracia? Saiba que em muitos casos esse discurso está sustentado no racismo.

Em diversos momentos, o discurso da meritocracia se ancora na ideia de que algumas pessoas têm maior capacidade intrínseca de realizações do que outras. Muitas vezes entendido como capacidades natas, o que é comumente chamado de “dom”. Neste texto, pretendo demonstrar o que as Ciências Sociais têm produzido sobre essa questão.

Racismo histórico

No século XIX, algumas características físicas eram usadas para justificar condições sociais de exploração. Por exemplo, os indígenas eram vistos como sendo preguiçosos, assim como se afirmava que negros que tinham canelas grossas eram malandros. Essas afirmações eram instrumentos de criação de ideologias garantidoras da exploração e da validação das desigualdades sociais e criadora de narrativas que visavam culpabilizar os que se negavam à subjugação e à condição de escravos.

De outros modos, a noção de meritocracia também tende a justificar situações que são originárias das estruturas materiais e simbólicas da sociedade capitalista, tais como, a pobreza, o estado de situação de rua, o desemprego, o alento, o analfabetismo e a exclusão educacional. Como essas estruturas sociais afetam negativamente alguns e beneficiam outros, é comum vermos, por exemplo, associações entre pobreza e negros, e criminalidade e pobres. Trata-se de discursos ideológicos e compreensões equivocadas; e os estudos científicos dos fenômenos sociais comprovam isso.

Contribuição das Ciências Sociais para pensar o tema

As desigualdades sociais são fenômenos sociais complexos e historicamente construído, e têm sido objeto de estudo da Sociologia desde seu “nascimento”. Diversos teóricos contribuíram para a compreensão das causas dessas desigualdades, destacando fatores econômicos, estruturais e culturais como principais motores por trás desse problema. Houve um momento, no final do século retrasado e no início do século passado, em que uma pseudociência apresentava argumentos racistas que visam justificar as desigualdades sociais. Na época, estava presente o mesmo discurso da meritocracia.

Mas talvez você não saiba que esses discursos foram superados pela ciência. Diversas pesquisas teóricas e empíricas foram desenvolvidas e trouxeram comprovações de que as estruturas sociais materiais e simbólicas são as causadoras das desigualdades sociais. Para ficar em alguns exemplos, Karl Marx (1818-1883), um dos pensadores mais influentes na Sociologia, evidenciou como as relações de classe geram as desigualdades sociais. No capitalismo, a propriedade dos meios de produção historicamente concentrada nas mãos de poucos deixa a classe trabalhadora em uma posição de desvantagem econômica.

Max Weber (1864-1920), por sua vez, demonstrou como o status e o poder são componentes cruciais das desigualdades. Weber demonstrou que a estratificação social é resultado de múltiplos fatores socialmente construídos, incluindo a posse de bens, o prestígio social e o controle sobre instituições.

Mais recentemente, Pierre Bourdieu (1930-2002), sociólogo francês, demonstrou que a cultura desempenha um papel fundamental na reprodução das desigualdades, pois as pessoas com acesso a recursos culturais, como educação e conhecimento, têm uma vantagem significativa na competição social.

Pesquisas mais recentes

Além desses teóricos, outros pesquisadores têm destacado a discriminação racial, de gênero e étnica como produtores e reprodutores das desigualdades sociais. Teóricas como Patricia Hill Collins (1948- ) e Kimberlé Crenshaw (1959- ) apontam que diferentes formas de opressão se sobrepõem e interagem (o que chamamos de interseccionalidade), aprofundando ainda mais as desigualdades de acesso e, consequentemente, ampliando o fosso social existente entre dominantes e dominados, entre ricos e pobres, entre brancos e não brancos.

Contribuição das Ciências Sociais brasileiras

No Brasil, as pesquisas sobre os impactos do racismo sobre as conformações da estratificação social são diversas. Podemos citar Florestan Fernandes (1920-1995), Lélia Gonzalez (1935-1994), Arthur Ramos (1903-1949), Sueli Carneiro (1950- ) e Silvio Almeida (1976- ), que problematizam, aos seus modos, a exclusão do negro e da negra na sociedade brasileira.

As políticas públicas também desempenham um papel crucial na perpetuação ou redução das desigualdades sociais. Eu mesmo, durante o mestrado, demonstrei como a alocação espacial de recursos públicos reproduz as desigualdades intraurbanas. Alguns espaços sociais recebem recorrentemente investimentos públicos, ampliando, por exemplo, os valores dos imóveis do local, e reduzindo custos diversos, como o acesso aos equipamentos culturais e de saúde (Bodart, 2009). Repito o que eu havia constatado e afirmado, “o Estado pode ou não reforçar a segregação espacial, aumentando ou diminuindo a distância social entre os pobres e ricos através da provisão diferenciada de serviços e equipamentos públicos” (Bodart, 2009, p. 26).

Nessa direção, afirmou Myrdal (1968) haver uma “causação circular” de reforço das desigualdades socioespaciais, afetando diretamente as condições desiguais de vida. Para ele, o processo social tende a tornar-se acumulativa e, muitas vezes, a aumentar, aceleradamente, sua velocidade” (Myrdal, 1968, p.33-34). Outras pesquisas empíricas evidenciaram a existência dessa causação circular no Brasil, tais como as pesquisas desenvolvidas por Vetter, Massena e Rodrigues (1979), Vetter e Massena (1981), e de Terra (2007).

Teóricos como Thomas Piketty (1971- ) demonstram como a concentração de riqueza pode ser exacerbada quando as políticas fiscais e econômicas beneficiam desproporcionalmente os mais ricos; o que é comum por essas bandas.

As desigualdades sociais resultam de uma interação complexa de fatores econômicos, estruturais e culturais, e nada tem a ver com esforço individual ou diferenças biológicas. Explicações que apontam diferenças intrínsecas de grupos são baseadas em concepção racista e não científica. Os conhecimentos sociológicos produzidos evidenciam e denunciam uma estrutura social que se torna base para as desigualdades.

 

Referências

BODART, Cristiano das Neves. Alocação socioespacial dos recursos públicos por meio do orçamento participativo de Serra/ES. 142fls. 2009. Dissertação (Mestrado). Programa de Pós-Graduação em Planejamento Regional e Gestão de Cidades. Universidade Candido Mendes. 2009.

MYRDAL, Gunnar. Teoria econômica e regiões subdesenvolvidas. Tradução de Palhano. Rio de Janeiro: Editora Saga, 1968.

TERRA, Denise Cunha Tavares. Uma leitura espacial da apropriação desigual das rendas petrolíferas em Campos dos Goytacazes. 2007. Tese (doutorado). Rio de janeiro: ufrj/ppgg, 2007.

VETTER, David Michael; MASSENA, Rosa Maria. Quem se apropria dos Benefícios Líquidos dos investimentos do Estado em Infra-estrutura Urbana? Uma teoria da causação circular. In: SILVA, L.A. Machado (org). Solo Urbano: tópicos sobre o uso da terra. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1981.

VETTER, David Michael; MASSENA, Rosa Maria; RODRIGUES, Elza Freire. Espaço, valor da terra e eqüidade dos investimentos em infra-estrutura do município do Rio de Janeiro. Revista Brasileira de Geografia, v 41, nº 1-2. Rio de Janeiro, p. 32-71, jan./jun. 1979.

 

Dicas de leitura

ALMEIDA, Silvio. Racismo estrutural. São Paulo: Pólen, 2019.

CARNEIRO, Sueli. Racismo, sexismo, e desigualdades no Brasil. São Paulo: Selo Negro, 2011.

FERNANDES, Florestan. A integração do negro na sociedade de classes (1º vol.). São Paulo: Globo, 2008.

GONZÁLEZ, Lélia. Por um feminismo afro-latino-americano: ensaios, intervenções, diálogos. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.

RAMOS, Arthur. O Negro Brasileiro. São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1940.

 

Como citar este texto:

BODART, Cristiano das Neves. A meritocracia e os conhecimentos sociológicos. Blog Café com Sociologia. set. 2023. Disponível em:

 

Nota:

[1] Doutor em Sociologia (USP). Docente do Centro de Educação e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Site: https://cristianobodart.com/

 

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Cristiano Bodart

Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), professor do Centro de Educação e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Pesquisador do tema "ensino de Sociologia". Autor de livros e artigos científicos.

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