Seis dicas para enfrentar provocações preconceituosas, intolerantes e/ou racistas suscitadas por alunos em sala de aula

Seis dicas para enfrentar provocações preconceituosas, intolerantes e/ou racistas suscitadas por alunos em sala de aula

provocações preconceituosas

Por Cristiano das Neves Bodart

Cristiano das Neves Bodart é doutor em Sociologia (USP) e professor do Centro de Educação da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Editor do Blog Café com Sociologia.

Cresce no Brasil adeptos de posturas preconceituosas, intolerantes, racistas e demais posicionamentos que ferem a dignidade da pessoa humana. Geralmente são sujeitos orgulhosos e sem vergonha de expor suas posições. Sim, temos uma “extrema direita sem vergonha” no Brasil. A escola e a sala de aula não estão livres desse fenômeno. De um lado, essas manifestações tornam-se rotina em sala de aula, por outro, o professor cada vez mais vigiado e acusado de “impor” sobre os alunos sua “ideologia”. Enfrentar provocações de alunos alinhados à pensamentos de inspiração fascista e/ou nazista tem sido um grande desafio para muitos educadores. Nesses momentos o que fazer? Nesse texto buscamos apresentar alguns caminhos úteis para: i) reduzir o confronto e; ii) clarificar a compreensão dos alunos sobre a questão suscitada, rompendo com o preconceito, a intolerância e o racismo.

 

Segue seis dicas ao professor:

1. Quanto for tratar de temas polêmicos/controversos amplie a vigilância em torno da racionalização/sistematização do que será abordado em sala, expondo dados concretos que fundamente a aula. Em outros termos, evite expor o conteúdo de forma a aparentar ser uma posição/interpretação pessoal. Mostre aos alunos o que pensa a comunidade acadêmica (ou maior parte dela) sobre o tema. As aulas precisam estar baseadas na(s) ciência(s) e uma maior vigilância é necessária ao tratar de temas controversos ou polêmicos;

2. Ocorrendo na aula provocações preconceituosas, intolerantes e/ou racistas suscitadas por um ou mais alunos que fogem do tema da aula planejada, demonstre-os que se interessa pela questão, mas que a mesma será tratada em aula futura, de acordo com o plano de disciplina e no interior de um dado tema (explicite qual o tema). Inclusive, peça-os para o recordar quando essa aula ocorrer; isso os levará a entender que você os respeita e os valoriza. Por que abordar em aula específica? Justamente para que possa atender a indicação do item 1, mantendo o caráter científico da aula. Improvisos geraram mais confusão do que esclarecimentos. Inclusive, explique-os a importância de ter elementos científicos obtidos em fontes confiáveis para tratar de uma questão tão séria e importante.

3. Sensibilize os alunos antes de tratar de temas sensíveis. Prepare um ambiente para isso. Por exemplo, antes de abordar o racismo, apresente um pequeno vídeo que seja capaz de criar uma “atmosfera de seriedade” na sala. Isso inibirá piadas, deboches ou posições extremistas.

4. Caso um aluno apresente uma posição extremista equivocada, não o ataque ou diga de forma direta que ele está errado. Leve-o a reproduzir as bases que sustentam sua posição. Pergunte por dados que comprove ou conduza às suas conclusões. Oriente-o na busca de racionalidades do argumento. Se a posição do aluno é equivocada ele, na reconstrução de seu argumento e exposição de suas bases, chegará a a conclusão de que está equivocado. Adote a maiêutica socrática. Fazendo isso você não será acusado de autoritário e demonstrará aos alunos respeito pela produção de seu conhecimento.

5. É muito comum os alunos apresentarem conclusões absurdas construídas a partir de casos isolados. Nessas ocorrências leve-os a fazer três exercícios de racionalização: i) compreender que as teorias buscam explicar o que é geral e que há fenômenos que fogem à regra, mas são minorias; ii) a pensar o papel da Ciência enquanto norteadora de políticas públicas e, portanto, deve ter as generalidades como ponto central; iii) a considerar outros casos, abarcando o maior número possível, e observar se é possível explicar, com as conclusões expostas, todos os casos ou, ao menos, a maior parte deles. Usando essa(s) estratégia(s) os alunos chegarão a conclusão de que se trata de uma especificidade e que não é generalizável.

6. Também é recorrente o uso de generalizações para anular especificidades. Nesses casos, conduza os alunos a checar se elas não são maléficas ou incompletas para explicar a completude e variabilidade dos fenômenos ou situações.

 

Os desafios expostos não se resumem aos 6 itens, contudo, acreditamos que sejam pontos de partida na redução de conflitos em sala de aula entre alunos e professores envolvendo temas controversos e/ou polêmicos. Servem também, em certa medida, como estratégia de resguardar o professor de falsas acusações de inculcação ideológica; risco cada vez mais presente na vida dos docentes brasileiros.

Cristiano Bodart

Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), professor do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Docente do Centro de Educação da Ufal.

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  1. Radamés
    setembro 17, 12:54 Radamés

    Cristiano, só posso dizer duas coisas: 1. Parabéns pela argúcia e sensibilidade de trazer esse tema à luz em um momento tão necessário; 2. Que orgulho de tê-lo como parceiro de trabalho. Vamos à luta, com racionalidade, equilíbrio e força.

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  2. Pedro
    setembro 17, 14:38 Pedro

    Bom post, parabéns!

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