sociologia do marcelo rodolfo lobato

Sociologia do Marcelo, marmelo, martelo

O convite para realizar a recepção das calouras e calouros do curso de Ciências Sociais da UFPR veio com um desafio: tentar explicar “o que é a sociologia”, em vinte minutos.  No dia em que recebi o pedido, minha filha, Clara, me pediu para ler “Marcelo, marmelo, martelo”, da Ruth Rocha (2011) – e a coincidência foi obra do destino.

Texto de Rodolfo Lobato[*]

 

Poucas pessoas sabem, mas Ruth Rocha é socióloga, ex-aluna de Sérgio Buarque de Holanda. Arrisco dizer que, talvez, seja a cientista social brasileira mais lida. Mas permanece num limbo daqueles que resolveram fazer ciências sociais tal como São Francisco de Assis, que pregou a palavra de Deus para os animais. Ela fez sociologia para as crianças. De início espero que isso sirva de lição, a sociologia é um artesanato, que está nos artigos científicos, podcasts, blogs, teses, assessoria aos movimentos sociais ou em livros infantis.

No livro de Ruth Rocha podemos perceber a importância das perguntas e da dúvida. De início, o protagonista indaga por que se chama Marcelo, e não martelo ou marmelo? Ele pensa: “Eu acho que as coisas deviam ter nome mais apropriado. Cadeira, por exemplo. Devia chamar sentador…” (p. 13).  No dia seguinte, no café da manhã, ele pede aos pais para passar o “mexedorzinho” e o “suco de vaca” – ou seja, a colherinha e o leite, respectivamente.

Um primeiro ponto importantíssimo para um sociólogo em formação: o desprendimento do pensamento sobrenatural, a indagação racional, o emprego sistemático da observação, ou seja, um método científico. O Marcelo empregou a razão, que se diferencia do argumento teológico da “revelação” como uma atitude intelectual, ou seja: a realidade não “é” simplesmente, mas passa por filtros de interpretação. Essa é uma herança da Revolução Francesa e do iluminismo.

Voltemos à Ruth Rocha, quando o pai reage: “Marcelo, todas as coisas têm nome. E todo mundo tem que chamar pelo mesmo nome, porque, senão, ninguém se entende. (…) Deixe de dizer bobagens, menino!” (p. 16-17). Vocês verão durante a graduação como há nessa mensagem do pai uma corrente do pensamento social que interpreta as regras sociais como coercitivas, sem espaço para a individualidade, o “vetor epistemológico” subordinaria o individual ao coletivo.

Um dos primeiros dilemas da sociologia é a tensão entre a negação e a afirmação da realidade, o conservadorismo/estabilidade e o progresso/mudança. Ao não aceitar as convenções sociais, Marcelo começou a provocar vergonha nos pais quando recebiam visitas. Assim como no dilema doméstico, desde a Revolução Industrial começamos a colocar as transformações da sociedade como um “problema” a ser investigado, não é à toa que, em grego, a tradução mais correta para “regras da casa” é “oikonomia”, ou, economia.

sociologia martelo marcelo“Marcelo” é único, carrega consigo uma complexidade em sua trajetória, particularidades históricas nem sempre dedutíveis de fórmulas gerais. Então, podemos falar do indivíduo também como “objeto” da sociologia, seus valores, o que orienta sua ação. Ruth Rocha nos apresenta outro “vetor epistemológico”, que é do indivíduo para o social, do nosso poder de construir novas regras, novas nomenclaturas.

A história continua, quando Marcelo grita em desespero: “Papai, papai, embrasou a moradeira do Latildo!” (p.22) – ou seja, estava pegando fogo a casinha de cachorro do Godofredo. O pai demorou a entender a mensagem, e o filho, triste percebeu que: “Gente grande não entende nada de nada, mesmo!” (p.23).

Assim como na história onde as palavras se misturam e se transformam, na Sociologia nós nos deparamos com a complexidade do mundo social, um verdadeiro emaranhado de relações, ideias e conceitos. Importante esse detalhe para refletirmos o quanto os jovens estudantes são introduzidos a uma nova gramática, um novo vocabulário, que é o acadêmico.

No fim, Ruth Rocha nos apresenta mais um vetor epistemológico, mais complexo, dialético, que é a tensão permanente entre o indivíduo e a sociedade. Diante da tristeza do filho, o pai de Marcelo diz que fará uma nova “moradeira” para o “latildo” – reconhecendo as expressões do filho, e a família passou a tentar entendê-lo. Não se incomodavam mais com o que as visitas pensam, ou seja, a mudança é possível.

Escrevendo esse texto pensei em até que ponto, a autora não tentou fazer alusão, metaforicamente, aos teóricos clássicos da sociologia. Apesar de “Marmelo” ser uma fruta, passa a ideia de um doce, marmelada, e relembra Émile Durkheim quando falava sobre coesão social, de uma consciência coletiva. Weber nos lembrava que cada “Marcelo” carrega consigo uma complexidade única, a diversidade dentro da particularidade. E, Marx, que nos convidou a explorar as dinâmicas da luta de classes, pode ser um verdadeiro “Martelo”, para a mudança social.

Como as ferramentas que transformam materiais brutos em obras de arte, a Sociologia nos capacita a desvendar as camadas mais profundas da sociedade. E se hoje vocês, jovens estudantes, se interessam pelas Ciências Sociais, algo os incomodou e alguma coisa não está fazendo sentido. Peço que guardem a ideia de que a sociologia vem a ser uma resposta intelectual diante da profundidade das transformações em curso, seja no século XVIII, XIX ou XXI. Lembrem-se sempre de que vocês são únicos e tem um papel vital na construção do conhecimento sociológico. Voltando à pergunta que mobilizou esse pensamento (“o que é a sociologia?”), eu diria que é a arte de aprender a ser “Marcelo, marmelo, martelo”.

Referência:

ROCHA, Ruth. Marcelo, marmelo, martelo. São Paulo: Moderna, 2011.

Rodolfo Lobato

Departamento de Sociologia

Universidade Federal do Paraná

Roniel Sampaio Silva

Doutorando em Educação, Mestre em Educação e Graduado em Ciências Sociais e Pedagogia. Professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Piauí – Campus Teresina Zona Sul.

Deixe uma resposta

Categorias

História do Café com Sociologia

O Site foi criado por Cristiano Bodart em 27 de fevereiro de 2009. Inicialmente, funcionava como um espaço virtual destinado ao armazenamento e compartilhamento de materiais utilizados em suas aulas, quando lecionava na rede pública de ensino do Estado do Espírito Santo. Em 2012, Roniel Sampaio Silva, por ocasião de seu ingresso no Instituto Federal, passou a integrar a administração do blog. Desde então, o projeto é desenvolvido e mantido em parceria pelos dois pesquisadores.

Ao longo de sua trajetória, o blog consolidou-se como uma das principais referências nacionais na área de ensino de Sociologia, sendo amplamente consultado por professores, estudantes, pesquisadores e leitores de diferentes áreas do conhecimento. O portal reúne uma extensa coleção de materiais didáticos, incluindo artigos, planos de aula, avaliações, dinâmicas pedagógicas, podcasts, vídeos, indicações de filmes e diversos outros recursos voltados à educação.

Em 2019, o blog ultrapassou a marca de 9 milhões de acessos, evidenciando seu alcance e relevância no cenário educacional brasileiro.

O trabalho desenvolvido pelo blog foi reconhecido nacionalmente, tendo sido premiado na 7ª edição do Prêmio Professores do Brasil. Atualmente, o projeto reúne centenas de milhares de seguidores nas redes sociais e mantém uma comunidade de leitores que acompanha regularmente suas publicações.

Seguimos comprometidos com a missão de produzir e divulgar conteúdos de qualidade, contribuindo para tornar os conhecimentos das Ciências Sociais cada vez mais acessíveis, relevantes e úteis para a formação crítica de estudantes, educadores e da sociedade em geral.

Direitos autorais

Atribuição-SemDerivações
CC BY-ND
Você pode reproduzir nossos textos de forma não-comercial desde que sejam citados os créditos.
® Café com Sociologia é nossa marca registrada no INPI. Não utilize sem autorização dos editores.

era efemero
Post Anterior

A Era do Conteúdo Efêmero: Como Baixar Vídeos do YouTube para Análise e Estudo

capcut promo video
Próximo post

Como Animar Imagem com IA e Diminuir Tamanho do Vídeo para Criar Conteúdos Digitais Mais Leves e Criativos

Latest from Discussões sobre a realidade social

Ir para oTopo