Aporofobia: figura humana estilizada sendo evitada por outras pessoas, representando a aversão aos pobres
Aporofobia é a aversão a pessoas pobres, distinta do racismo e da xenofobia, segundo a filósofa Adela Cortina

Aporofobia: O Que É, Diferença da Xenofobia e 4 Exemplos

Aporofobia: figura humana estilizada sendo evitada por outras pessoas, representando a aversão aos pobres
Aporofobia é a aversão a pessoas pobres, distinta do racismo e da xenofobia, segundo a filósofa Adela Cortina.

Um turista estrangeiro rico é recebido com sorrisos, hospedagem de luxo e tapete vermelho. Um imigrante pobre, vindo do mesmo país, enfrenta desconfiança, fronteiras fechadas e discurso público hostil. Se o problema fosse simplesmente a nacionalidade estrangeira, os dois seriam tratados da mesma forma. Não são. Essa diferença de tratamento, que se repete em incontáveis situações do cotidiano, levou a filósofa espanhola Adela Cortina a cunhar um termo específico para nomeá-la: aporofobia, a aversão não ao estrangeiro, não ao diferente, mas especificamente ao pobre.

Eleita palavra do ano em 2017 pela Fundéu (Fundação do Espanhol Urgente) e hoje registrada no dicionário da Real Academia Espanhola, essa aversão aos pobres descreve um tipo de preconceito que atravessa e, segundo Cortina, frequentemente se disfarça de outros preconceitos mais conhecidos, como o racismo e a xenofobia.

Este post explica a origem do termo com Adela Cortina, sua diferença em relação à xenofobia e ao racismo, exemplos concretos no Brasil, incluindo a chamada arquitetura hostil, dados de pesquisas recentes, críticas ao conceito e orientações para uso em redações e trabalhos acadêmicos.

Este guia foi organizado para professores, estudantes, licenciandos e candidatos a concursos que precisam de um repertório sociocultural completo e atualizado sobre um dos conceitos mais citados em redações e debates recentes sobre desigualdade social.

O que é aporofobia?

Aporofobia é a aversão, o medo, a rejeição ou o desprezo dirigidos especificamente a pessoas em situação de pobreza, pela condição de pobreza em si, e não por outros marcadores de identidade como nacionalidade, etnia ou religião. O termo vem do grego “áporos” (sem recursos, pobre) e “phóbos” (medo, aversão).

Diferente de preconceitos que miram características de nascimento ou identidade cultural, esse tipo de aversão mira uma condição econômica, o que, segundo Cortina, a torna paradoxalmente mais “aceitável” socialmente: poucas pessoas se assumiriam publicamente racistas ou xenófobas, mas é comum ouvir, sem maior constrangimento social, comentários hostis sobre “mendigos”, “moradores de rua” ou “vagabundos”, frequentemente sem que isso seja reconhecido como forma de preconceito estrutural.

No Brasil, também conhecida informalmente como “pobrefobia”, essa aversão se manifesta em contextos que vão desde o desconforto individual diante de uma pessoa em situação de rua até políticas públicas inteiras desenhadas para tornar a pobreza invisível ou removê-la fisicamente de determinados espaços urbanos, sem necessariamente resolver suas causas estruturais.

Adela Cortina e a origem do conceito

Adela Cortina, professora catedrática de Ética e Filosofia Política da Universidade de Valência, na Espanha, cunhou o termo pela primeira vez em um artigo publicado no jornal ABC Cultural em 1995. O conceito ganhou projeção internacional em 2017, quando foi eleito palavra do ano pela Fundéu, e novamente com a publicação do livro Aporofobia, o Rechaço ao Pobre: Um Desafio para a Democracia, no mesmo ano.

Cortina já ocupou a Real Academia de Ciências Morais e Políticas da Espanha e recebeu diversos doutorados honoris causa ao longo da carreira. Sua motivação para cunhar o termo, segundo ela mesma relata, foi observar que sociedades que se autodeclaram tolerantes com estrangeiros e diferentes culturas, na prática, discriminam sistematicamente apenas os estrangeiros e diferentes que também são pobres.

Em entrevista concedida ao Instituto Humanitas Unisinos em 2023, por ocasião do primeiro Congresso Internacional sobre Aporofobia, realizado em Barcelona, Cortina reforçou que dar nome ao fenômeno é o primeiro passo necessário para combatê-lo: fenômenos sociais que não têm nome tendem a permanecer invisíveis, inclusive para quem os pratica.

Diferença entre aporofobia, xenofobia e racismo

Um dos pontos centrais da tese de Cortina é justamente separar conceitualmente esses três fenômenos, frequentemente confundidos no debate público.

ConceitoAlvo da rejeição
XenofobiaRejeição ao estrangeiro, pela condição de ser de fora
RacismoRejeição baseada em raça ou etnia
AporofobiaRejeição especificamente à condição de pobreza, independentemente de nacionalidade ou raça

Cortina argumenta que grande parte do que se rotula como xenofobia é, na verdade, aporofobia disfarçada: sociedades europeias, por exemplo, recebem com entusiasmo turistas estrangeiros ricos, investidores e celebridades de outros países, mas erguem barreiras físicas e simbólicas contra imigrantes e refugiados pobres da mesma origem nacional. A distinção não nega a existência do racismo e da xenofobia como fenômenos reais e distintos, mas chama atenção para uma camada de discriminação, a econômica, que frequentemente passa despercebida por trás de outros rótulos.

Exemplo direto de Cortina: um mesmo país pode demonstrar “xenofilia” (simpatia pelo estrangeiro) diante de um jogador de futebol famoso ou investidor internacional, e “aporofobia” diante de um refugiado sem recursos, mesmo vindo do mesmo lugar. A nacionalidade estrangeira não muda; o que muda é a condição econômica.

Arquitetura hostil: a aversão aos pobres em concreto e metal

Uma das manifestações mais visíveis e debatidas dessa forma de discriminação no Brasil é a chamada “arquitetura hostil”: instalação deliberada de grades, pedras, espigões de metal, bancos com divisórias e outros elementos urbanos com o único propósito de impedir que pessoas em situação de rua se abriguem ou descansem em determinados espaços públicos e privados.

O caso mais conhecido no país envolveu o padre Julio Lancellotti, da Pastoral do Povo de Rua, em São Paulo, que ganhou grande repercussão nacional ao denunciar publicamente, e literalmente quebrar com uma marreta, pedras instaladas sob um viaduto na capital paulista especificamente para impedir que pessoas em situação de rua se deitassem ali. O episódio tornou o termo consideravelmente mais conhecido no país e o debate sobre arquitetura hostil mais presente no noticiário nacional.

Outros exemplos frequentes desse tipo de estratégia incluem espigões de metal instalados sob marquises e em beirais de prédios, aspersores de água programados para ligar em horários noturnos em praças públicas, e bancos públicos com divisórias centrais que impedem qualquer pessoa de se deitar completamente, ainda que reduzam também o conforto de uso para toda a população, não apenas para pessoas em situação de rua.

Exemplos de discriminação de classe no cotidiano

Discurso público sobre pobreza urbana

Falas que associam automaticamente pessoas em situação de rua à criminalidade, à “sujeira” urbana ou a um “problema estético” a ser removido das áreas centrais das cidades, sem discutir as causas estruturais da pobreza, refletem diretamente a lógica aporofóbica descrita por Cortina.

Políticas de “limpeza urbana”

Ações municipais que removem pessoas em situação de rua de determinadas áreas, especialmente antes de eventos públicos ou turísticos, sem oferecer alternativas efetivas de moradia e assistência, tratam a pobreza como problema de estética urbana, e não como questão de direitos humanos.

Diferença de tratamento em serviços

Atendimento visivelmente distinto oferecido a clientes conforme sinais visíveis de classe social, como roupas ou forma de falar, em bancos, lojas e até serviços públicos, ilustra como a aporofobia opera em microinterações cotidianas, além de políticas públicas mais amplas.

Criminalização da pobreza na mídia

Coberturas jornalísticas que associam automaticamente pobreza a periculosidade, sem contextualizar causas sociais e econômicas, reforçam estereótipos que sustentam a aversão sistemática discutida neste artigo.

Vale notar que o preconceito de classe frequentemente se cruza com outras formas de discriminação já mais estudadas pela sociologia brasileira, como o racismo estrutural e a construção social do preconceito. Como a pobreza no Brasil tem cor, majoritariamente concentrada entre a população negra, é comum que discursos aparentemente apenas classistas carreguem, na prática, um componente racial explícito, ainda que não verbalizado.

Aporofobia nos serviços de saúde

Um estudo publicado nos Cadernos de Saúde Pública, com pesquisadores das universidades de Fortaleza e Federal do Rio Grande do Sul, investigou percepções de profissionais da Estratégia Saúde da Família sobre a pobrefobia. A pesquisa, com 96 profissionais, encontrou associação estatisticamente significativa entre atitudes aporofóbicas e cor da pele e vínculo empregatício dos próprios profissionais entrevistados, revelando como esse preconceito pode comprometer a qualidade e a equidade do atendimento oferecido a pacientes em situação de pobreza, mesmo dentro de um sistema de saúde formalmente universal como o SUS.

O estudo identificou tanto práticas humanizadas quanto atitudes de desconforto e distanciamento por parte de profissionais diante de pacientes em situação de rua ou extrema pobreza, reforçando que essa forma de discriminação não é apenas um fenômeno discursivo ou simbólico, mas pode se traduzir em barreiras concretas de acesso a direitos básicos, como a saúde.

Entre os achados qualitativos, a pesquisa identificou quatro categorias principais de discurso entre os profissionais entrevistados: causas percebidas para a pobreza, manifestações concretas do preconceito e estereótipos associados, dificuldades de garantir atendimento integral a grupos vulneráveis, e estratégias de humanização e adaptação adotadas no dia a dia do atendimento.

A explicação de Cortina: a lógica da reciprocidade

Para explicar por que a aversão aos pobres é tão disseminada, Cortina recorre a uma leitura antropológica: seres humanos organizam boa parte de suas relações sociais em torno da reciprocidade, da troca de favores, bens e reconhecimento. Pessoas em situação de pobreza extrema, aos olhos de quem discrimina, “não têm nada a oferecer em troca”, o que as tornaria, inconscientemente, menos interessantes de se manter por perto ou incluir socialmente.

Cortina argumenta que essa predisposição, embora tenha raízes evolutivas relacionadas à troca social, não é destino inevitável: pode e deve ser combatida por meio de educação, redução de desigualdades estruturais e fortalecimento de instituições democráticas que garantam inclusão independentemente da capacidade de retribuição econômica de cada pessoa.

A filósofa defende, em particular, que a ética deveria ser incluída de forma mais sistemática nos currículos escolares, justamente para que crianças e adolescentes desenvolvam desde cedo a capacidade de reconhecer e questionar esses preconceitos automáticos, antes que se consolidem como padrões de comportamento adulto naturalizados.

Críticas e limites do conceito

Sobreposição com outros conceitos já consolidados

Alguns pesquisadores questionam até que ponto a aporofobia representa um fenômeno verdadeiramente distinto de conceitos sociológicos já bem estabelecidos, como preconceito de classe ou classismo, ou se funciona principalmente como reformulação linguística que ajuda a popularizar um debate já existente nas ciências sociais.

Risco de individualizar um problema estrutural

Tratar a pobrefobia predominantemente como atitude psicológica individual, um “preconceito no cérebro” de cada pessoa, pode desviar atenção das causas estruturais da pobreza e da desigualdade, que exigem resposta de política pública, e não apenas mudança de atitude individual.

Ainda pouco estudado no Brasil

Pesquisadores brasileiros observam que o conceito segue relativamente pouco explorado na produção acadêmica nacional, em parte pela ausência, por muitos anos, de tradução completa da obra de Cortina para o português.

Vídeo sobre o tema

Para complementar a leitura, veja esta análise do psicanalista e professor da USP Christian Dunker sobre a aporofobia e suas raízes psicossociais:

Ilustração flat design de banco público com divisórias de metal impedindo pessoas de deitar, representando a arquitetura hostil
A arquitetura hostil, como espigões e divisórias em bancos públicos, é uma das manifestações mais visíveis da aversão aos pobres.

Como usar o tema em redações e concursos

Aporofobia é um dos repertórios socioculturais mais valorizados atualmente em redações do ENEM sobre desigualdade social, população em situação de rua e direitos humanos. Algumas orientações ajudam no uso correto do conceito:

  • Cite a autora corretamente: o termo é de Adela Cortina, filósofa espanhola, cunhado em 1995 e popularizado em 2017.
  • Diferencie de xenofobia e racismo: mostrar domínio dessa distinção conceitual fortalece significativamente o repertório da redação.
  • Use o exemplo da arquitetura hostil: é um exemplo concreto, visual e bem documentado, ideal para ilustrar o conceito em poucas linhas.
  • Proponha soluções estruturais: políticas habitacionais, fortalecimento da rede de assistência social e educação para a diversidade socioeconômica são propostas de intervenção bem avaliadas.

Perguntas frequentes sobre aporofobia

Quem criou o conceito de aporofobia?

A filósofa espanhola Adela Cortina, professora da Universidade de Valência, cunhou o termo em 1995 e o popularizou com o livro Aporofobia, o Rechaço ao Pobre, publicado em 2017.

Qual a diferença entre aporofobia e xenofobia?

Xenofobia é a rejeição ao estrangeiro pela condição de ser de fora. A pobrefobia é a rejeição especificamente à condição de pobreza, podendo atingir tanto estrangeiros quanto cidadãos do próprio país, desde que sejam pobres.

O que é arquitetura hostil?

É o uso deliberado de elementos urbanos, como grades, pedras e divisórias, para impedir que pessoas em situação de rua ocupem determinados espaços públicos ou privados, considerada uma das manifestações mais visíveis da aversão aos pobres.

Existe alguma lei brasileira sobre a discriminação contra pessoas pobres?

Já tramitaram no Congresso projetos de lei propondo agravantes penais para violência praticada contra pessoas em situação de pobreza, mas o Brasil ainda não possui legislação específica e consolidada que tipifique a pobrefobia como crime autônomo.

A aversão aos pobres é reconhecida oficialmente em dicionários?

Sim, o termo consta no Diccionario de la Lengua Española, da Real Academia Espanhola, desde 2017, quando também foi eleito palavra do ano pela Fundéu.

Quem é o padre Julio Lancellotti e qual sua relação com o tema?

Sacerdote católico coordenador da Pastoral do Povo de Rua em São Paulo, tornou-se figura pública nacional ao denunciar e combater ativamente a arquitetura hostil na cidade, episódio que popularizou o debate sobre o tema no Brasil.

Como o preconceito de classe se manifesta no sistema de saúde brasileiro?

Estudo publicado nos Cadernos de Saúde Pública em 2026 identificou tanto práticas humanizadas quanto atitudes de desconforto entre profissionais da Estratégia Saúde da Família diante de pacientes em extrema pobreza, associando essas atitudes a variáveis como cor da pele e vínculo empregatício dos próprios profissionais.

Considerações finais

Nomear a pobrefobia como fenômeno específico, distinto do racismo e da xenofobia, tem valor prático importante: torna visível uma forma de discriminação que, por mirar a condição econômica em vez de traços de identidade mais discutidos publicamente, muitas vezes passa despercebida ou é socialmente tolerada.

Como lembra Adela Cortina, aquilo que não tem nome tende a permanecer invisível, inclusive para quem o pratica. Nomear a aversão sistemática aos pobres é, portanto, mais do que um exercício semântico: é um primeiro passo concreto para que políticas públicas, currículos escolares e debates cotidianos consigam de fato enfrentar essa forma específica e persistente de exclusão social.

Para aprofundar a discussão sobre esse tema, vale explorar também os artigos sobre estereótipo, inclusão social e racismo como habitus, disponíveis no Café com Sociologia.

Roniel Sampaio Silva

Doutorando em Educação, Mestre em Educação e Graduado em Ciências Sociais e Pedagogia. Professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Piauí – Campus Teresina Zona Sul.

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