Terceiro setor: voluntários e organizações da sociedade civil atuando entre o Estado e o mercado em flat design
O terceiro setor fica entre o Estado e o mercado: organizações da sociedade civil que atuam pelo bem comum, sem fins lucrativos

Terceiro Setor: o Que É, Características e 5 Exemplos

Quando uma tragédia acontece, quem chega primeiro nem sempre é o Estado ou uma empresa. Muitas vezes são voluntários, associações de bairro e organizações não governamentais que arregaçam as mangas para ajudar. Essas iniciativas, que não pertencem nem ao governo nem ao mercado, formam um campo próprio da vida social com nome específico: o terceiro setor. Ele reúne milhares de organizações que atuam em nome do interesse público, sem buscar lucro, e cumpre um papel que nenhuma outra esfera consegue substituir por completo.

Neste guia você vai entender o que é o terceiro setor, quais são suas características, como ele se diferencia do Estado e do mercado, que tipos de organizações o compõem no Brasil e qual é o marco legal que o regula. O texto também apresenta as principais críticas ao conceito, num panorama pensado para estudantes de ciências sociais, professores, gestores de organizações, pesquisadores e candidatos a concursos.

Terceiro setor: ilustração flat design de voluntários e organizações da sociedade civil atuando em projetos sociais
O terceiro setor reúne organizações sem fins lucrativos que atuam pelo interesse público, entre o Estado e o mercado.

O que é terceiro setor?

O terceiro setor é o conjunto de organizações privadas, sem fins lucrativos, que atuam em favor do interesse público. Ele reúne associações, fundações, organizações não governamentais e outras entidades que nascem da iniciativa da sociedade civil, sem pertencer ao aparelho do Estado nem visar ao lucro que caracteriza as empresas. Seu objetivo não é enriquecer sócios, mas atender causas coletivas, da assistência social à cultura, do meio ambiente à educação.

A expressão fica mais clara quando lembramos que existem três grandes esferas na vida social. O primeiro setor é o Estado, responsável pelo que é público. O segundo setor é o mercado, movido pelo lucro privado. Já a terceira esfera ocupa um lugar peculiar: é privado na origem, porque não é estatal, mas público na finalidade, porque serve ao bem comum. Por isso, alguns autores o descrevem como “privado, porém público”.

Esse caráter híbrido é justamente o que torna o tema interessante para a sociologia. As organizações desse campo mostram que a solidariedade e a ação coletiva não dependem apenas do governo. Cidadãos podem se organizar por conta própria para resolver problemas, pressionar autoridades e criar alternativas onde o Estado falha e o mercado não tem interesse. É a sociedade civil se fazendo protagonista.

Um bom exemplo ilustra essa autonomia. Quando moradores de um bairro sem creche se unem, fundam uma associação e organizam um espaço para as crianças enquanto pressionam a prefeitura, eles não estão esperando ordens de ninguém. Estão exercendo, na prática, a capacidade de agir coletivamente diante de um problema comum. Esse tipo de mobilização é o que dá vida ao conceito e o distingue de uma simples prestação de serviços.

Os três setores da sociedade

Para entender bem o conceito, vale visualizar como cada setor se define por sua origem e sua finalidade. A tabela abaixo resume as diferenças fundamentais.

SetorQuem éFinalidadeExemplos
Primeiro setorEstado (público)Interesse público, financiado por impostosPrefeituras, ministérios, escolas públicas
Segundo setorMercado (privado)Lucro privadoEmpresas, bancos, comércio
Terceiro setorSociedade civil (privado)Interesse público, sem fins lucrativosONGs, associações, fundações
Comparação entre os três setores da sociedade quanto à origem e à finalidade.

Note que a divisão cruza dois critérios: público ou privado, com lucro ou sem lucro. O Estado é público. O mercado é privado e busca lucro. Esse campo combina as duas colunas de um jeito próprio, sendo privado como as empresas, mas voltado ao bem comum como o Estado. Essa posição intermediária explica muitas de suas potências e também de seus dilemas.

Características do terceiro setor

Pesquisadores da Universidade Johns Hopkins, liderados por Lester Salamon e Helmut Anheier, propuseram no início dos anos 1990 um conjunto de critérios que ajuda a identificar as organizações desse campo em qualquer país. São cinco traços estruturais que aparecem de forma recorrente.

  1. Estrutura formal, com alguma organização e continuidade, ainda que não exija registro complexo.
  2. Natureza privada, ou seja, separada institucionalmente do governo.
  3. Ausência de distribuição de lucros, já que eventuais excedentes são reinvestidos na causa.
  4. Autogestão, com capacidade de controlar as próprias atividades.
  5. Presença de trabalho voluntário, ao menos em parte de suas atividades.

Esses cinco pontos ajudam a evitar confusões. Uma padaria de bairro é privada e se autogoverna, mas distribui lucro, então não pertence a esse campo. Um órgão público não é privado, logo também fica de fora. Já uma associação de moradores que organiza mutirões e não reparte lucro entre os membros se encaixa perfeitamente na definição.

Vale destacar a característica do não lucro, porque ela costuma gerar mal-entendidos. Organizações desse campo podem, sim, ter receita, cobrar por serviços e pagar salários a funcionários. O que não podem é distribuir os excedentes como lucro para donos ou acionistas. Todo o dinheiro que sobra deve voltar para a missão da entidade. Essa regra é o coração da lógica sem fins lucrativos.

A origem do conceito

A expressão “terceiro setor” é uma tradução do inglês third sector, difundida nos Estados Unidos ao longo do século XX. Um dos nomes associados à sua popularização é o do filantropo John D. Rockefeller III, que na década de 1970 usava o termo para designar o vasto universo de organizações sem fins lucrativos que não eram nem governo nem empresa.

No Brasil, o conceito ganhou força nos anos 1990, num contexto de redemocratização e de crescimento das organizações não governamentais. O sociólogo Rubem César Fernandes teve papel importante ao difundir a ideia de um espaço “público não estatal”, ajudando a nomear um fenômeno que já existia, mas ainda carecia de um vocabulário comum. Foi nesse período que o campo se consolidou como objeto de estudo e de política pública.

Convém lembrar que as práticas do terceiro setor são muito mais antigas que o termo. A tradição associativa, as irmandades religiosas, as sociedades de ajuda mútua e o mutualismo operário existem há séculos. O conceito é recente, mas nomeia uma forma de organização social que acompanha a humanidade desde que as pessoas descobriram que juntas resolvem o que sozinhas não conseguiriam. Essa raiz histórica se conecta ao estudo dos movimentos sociais.

Tipos de organizações no Brasil

No Brasil, o setor abriga uma variedade de formatos jurídicos e títulos, o que costuma confundir quem estuda o tema. Vale distinguir a natureza jurídica, que é a forma legal da organização, dos títulos e qualificações, que são selos concedidos pelo poder público. A tabela abaixo organiza os principais tipos.

TipoO que é
AssociaçãoUnião de pessoas em torno de um objetivo comum, sem fins lucrativos
FundaçãoPatrimônio destinado a uma finalidade social, instituído por um doador
ONGTermo genérico para organização não governamental, geralmente associação ou fundação
OSCIPQualificação concedida pelo governo federal a organizações de interesse público
OSOrganização Social, que pode firmar contrato de gestão com o Estado
Principais tipos de organizações do terceiro setor no Brasil.

Um ponto essencial: “ONG” não é uma categoria jurídica. Do ponto de vista legal, toda organização é uma associação ou uma fundação. ONG é apenas um nome popular para entidades não governamentais de atuação social. Já OSCIP e OS não são tipos de organização, e sim qualificações que uma associação ou fundação pode obter para firmar parcerias com o poder público, cada uma regida por sua própria lei.

Essa distinção importa na prática. Uma mesma entidade pode ser, ao mesmo tempo, uma associação por natureza jurídica e uma OSCIP por qualificação. Entender essa arquitetura ajuda gestores a escolher o formato certo e evita erros comuns em provas de concurso, que costumam explorar justamente essas diferenças.

Durante muito tempo, as parcerias entre o poder público e as organizações da sociedade civil careciam de regras claras, o que abria espaço para insegurança e para desvios. Esse cenário mudou com a Lei 13.019, de 2014, conhecida como Marco Regulatório das Organizações da Sociedade Civil, ou simplesmente MROSC.

A nova legislação criou instrumentos específicos de parceria, como o termo de fomento e o termo de colaboração, e estabeleceu regras de transparência, prestação de contas e chamamento público para a seleção de projetos. O objetivo foi profissionalizar a relação entre Estado e sociedade civil, dando mais segurança tanto para o governo quanto para as organizações. O marco também consagrou a expressão “organização da sociedade civil”, ou OSC, como termo guarda-chuva.

Além do MROSC, existem outros títulos e certificações relevantes, como o Certificado de Entidade Beneficente de Assistência Social, o CEBAS, que garante isenções a entidades das áreas de saúde, educação e assistência. Conhecer esse arcabouço é fundamental para quem atua no setor, pois dele dependem o acesso a recursos públicos e os benefícios fiscais que sustentam boa parte das organizações.

A transparência virou palavra de ordem depois do marco. Hoje se espera que as organizações publiquem relatórios, prestem contas dos recursos recebidos e demonstrem resultados concretos. Essa exigência responde a um problema antigo: a existência de entidades de fachada, criadas apenas para captar verbas sem entregar serviço. Ao separar o joio do trigo, as regras de prestação de contas protegem tanto o dinheiro público quanto a reputação das milhares de organizações sérias que fazem um trabalho honesto e são prejudicadas quando um escândalo mancha o campo inteiro.

“O terceiro setor é privado na forma, mas público no propósito. Ele existe onde a solidariedade organizada encontra a vontade de transformar realidades que nem o Estado nem o mercado alcançam sozinhos.”

Importância social e econômica

O peso desse campo costuma ser subestimado. No Brasil, existem centenas de milhares de organizações da sociedade civil atuando em praticamente todos os municípios, em áreas como assistência social, saúde, educação, cultura, esporte, defesa de direitos e meio ambiente. Juntas, elas empregam milhões de pessoas e mobilizam um número ainda maior de voluntários.

Do ponto de vista social, essas organizações cumprem funções que o poder público muitas vezes não consegue alcançar, seja pela falta de recursos, seja pela distância em relação às comunidades. Uma pequena associação local conhece de perto os problemas do seu território e responde a eles com uma agilidade que a burocracia estatal raramente tem. Nesse sentido, o campo fortalece a cidadania e a participação social.

Há também uma dimensão econômica relevante. O setor movimenta recursos, gera empregos e presta serviços que, somados, representam uma fatia significativa da economia. Mais do que isso, ele produz um bem difícil de medir em números: o capital social, aquela teia de confiança e cooperação que torna a vida coletiva mais rica e resiliente. Uma sociedade com muitas associações ativas tende a ser mais democrática e participativa.

Pense em exemplos concretos. Bancos de alimentos que combatem a fome, projetos que oferecem reforço escolar em comunidades pobres, entidades que defendem os direitos de pessoas com deficiência, coletivos ambientais que protegem nascentes, hospitais filantrópicos que atendem quem não tem plano de saúde. Cada uma dessas iniciativas responde a uma necessidade real e o faz com uma proximidade que raramente se encontra em estruturas maiores. Multiplicadas por milhares, elas formam uma malha de proteção social que se soma à ação do poder público, sem substituí-la.

Críticas ao terceiro setor

Apesar de sua importância, o conceito não escapa de críticas relevantes, e ignorá-las seria pintar um retrato incompleto. A objeção mais forte vem de autores que veem no seu crescimento um risco de o Estado se desobrigar de suas responsabilidades sociais. Se organizações privadas passam a cuidar da saúde e da educação, o governo poderia usar isso como desculpa para reduzir seus próprios investimentos, transferindo à sociedade civil um dever que deveria ser público.

Outra crítica aponta para a precarização do trabalho. Em nome da flexibilidade e da economia de custos, algumas parcerias podem substituir servidores concursados por vínculos mais frágeis, driblando concursos e licitações. Juristas como Tarso Cabral Violin alertam para o risco de o modelo servir como atalho para escapar das exigências do regime público, e não como genuína ampliação da cidadania.

Há ainda quem critique a dependência de recursos externos, que pode comprometer a autonomia das organizações. Uma entidade que sobrevive de editais ou de doações de grandes financiadores corre o risco de moldar sua agenda conforme os interesses de quem paga, e não conforme as necessidades reais das comunidades. Essas críticas não anulam o valor do setor, mas exigem um olhar atento para que a promessa de solidariedade não se converta em terceirização barata de direitos.

Terceiro setor e responsabilidade social das empresas

Uma confusão comum é misturar o setor com as ações sociais das empresas. São coisas distintas. Quando uma companhia patrocina um projeto cultural ou faz doações, ela pratica o que se chama de responsabilidade social empresarial. Essa iniciativa é louvável, mas parte do segundo setor, o mercado, e costuma estar ligada à estratégia de imagem e de negócios da empresa.

As organizações da sociedade civil, por outro lado, existem primariamente para a causa, e não como braço social de uma marca. A distinção não é apenas técnica. Ela envolve questões de autonomia e de motivação: uma fundação empresarial responde, no fim das contas, aos interesses de quem a mantém, enquanto uma associação comunitária responde aos seus próprios membros e beneficiários. Reconhecer essa diferença ajuda a avaliar com clareza quem faz o quê no campo social.

Na prática, os dois mundos se cruzam o tempo todo. Empresas financiam projetos executados por organizações da sociedade civil, e muitas causas dependem justamente dessa cooperação. O importante é não apagar as fronteiras: a filantropia empresarial é uma ponte entre mercado e sociedade civil, não um substituto para a ação autônoma dos cidadãos organizados.

Como atuar no terceiro setor

O campo também é um espaço de trabalho e de formação profissional em expansão. Ao contrário da imagem de que tudo se resume ao voluntariado, muitas organizações contam com equipes remuneradas, exigem gestão profissional e abrem vagas em áreas como captação de recursos, comunicação, projetos, contabilidade e coordenação de programas. Saber elaborar projetos e prestar contas tornou-se uma competência valorizada.

Para quem deseja contribuir, os caminhos são variados. É possível atuar como voluntário, doar recursos, participar de conselhos, integrar o quadro de funcionários ou até fundar a própria organização. Cada forma de participação fortalece a teia de solidariedade que sustenta o setor. Estudantes de ciências sociais, serviço social, administração e direito encontram aqui um terreno fértil de estágio, pesquisa e carreira, muitas vezes conectado a movimentos sociais e a lutas por direitos.

Vale um alerta honesto. Trabalhar nesse campo é gratificante, mas também desafiador. Salários costumam ser mais baixos que no mercado, o financiamento é instável e a carga emocional de lidar com problemas sociais graves é real. Ainda assim, para muita gente, a sensação de contribuir para transformar realidades compensa as dificuldades, o que explica a dedicação de tantos profissionais e voluntários.

Vídeo: o terceiro setor explicado

Para complementar a leitura, assista a esta explicação em vídeo sobre o tema:

Vídeo explicativo sobre o que é o terceiro setor e como as organizações atuam.

Perguntas frequentes

O que é terceiro setor em poucas palavras?

É o conjunto de organizações privadas e sem fins lucrativos que atuam pelo interesse público, como associações, fundações e ONGs. Ele fica entre o Estado, que é o primeiro setor, e o mercado, que é o segundo.

Quais são os três setores da sociedade?

O primeiro setor é o Estado, responsável pelo público. O segundo setor é o mercado, movido pelo lucro. O terceiro setor, por fim, é a sociedade civil organizada, privada na forma, mas voltada ao bem comum e sem fins lucrativos.

ONG e terceiro setor são a mesma coisa?

Não exatamente. ONG é um dos tipos de organização desse campo, que é o conceito mais amplo. Além das ONGs, o setor inclui associações, fundações, organizações religiosas e outras entidades sem fins lucrativos.

Organização do terceiro setor pode ter lucro?

Pode ter receita e pagar salários, mas não pode distribuir lucro entre sócios ou dirigentes. Todo excedente financeiro precisa ser reinvestido na própria missão da organização, que é o que a define como sem fins lucrativos.

O que é o MROSC?

É o Marco Regulatório das Organizações da Sociedade Civil, a Lei 13.019 de 2014. Ela criou regras claras para as parcerias entre o poder público e as organizações, com instrumentos como o termo de fomento e o termo de colaboração.

Qual a diferença entre OSCIP e OS?

Ambas são qualificações concedidas pelo poder público, não tipos de organização. A OSCIP é regida pela Lei 9.790 de 1999, e a OS, ou Organização Social, pode firmar contrato de gestão com o Estado, conforme a Lei 9.637 de 1998.

Considerações finais

O terceiro setor ocupa um espaço singular na vida social, entre a máquina pública e a lógica do mercado. Nele, cidadãos se organizam para cuidar de causas que consideram importantes, provando que a solidariedade pode ser tão estruturada e eficaz quanto qualquer instituição formal. Compreender esse campo é entender uma parte essencial de como as sociedades modernas enfrentam seus problemas coletivos.

Ao mesmo tempo, olhar para o setor com maturidade exige reconhecer suas tensões. Ele não substitui o Estado nem resolve sozinho as desigualdades, e pode até ser mal utilizado quando serve de pretexto para o poder público abandonar deveres. A sociologia nos ajuda justamente a segurar as duas pontas: valorizar a força da ação coletiva organizada e, ao mesmo tempo, cobrar que ela amplie direitos em vez de encolhê-los. É nessa tensão produtiva que esse campo revela todo o seu significado para a vida democrática.

Gostou da análise? Explore também nossa resenha sobre a sociologia dos movimentos sociais e aprofunde seu olhar sobre participação e sociedade civil.


Fontes e leituras complementares: Ministério Público do Paraná, Terceiro Setor: perguntas frequentes; Revista Direitos Fundamentais & Democracia (UniBrasil), Um conceito forte de terceiro setor à luz da tradição associativa.

Roniel Sampaio Silva

Doutorando em Educação, Mestre em Educação e Graduado em Ciências Sociais e Pedagogia. Professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Piauí – Campus Teresina Zona Sul.

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