Ilustração conceitual de favelização: casas simples empilhadas em um morro, com a cidade formal ao fundo, representando segregação socioespacial.
A favelização revela a segregação residencial que marca as cidades brasileiras.

Favelização: Conceito, Causas e Consequências no Brasil

A favelização é um processo social que produz formas precárias de moradia nas cidades brasileiras. Ela envolve especulação imobiliária, ausência de políticas habitacionais e desigualdade estrutural que atravessa gerações. Este post examina o conceito de favelização, suas raízes históricas e os desdobramentos contemporâneos no Brasil.

O que é favelização?

Favelização designa o crescimento e a consolidação de assentamentos informais nas cidades, conhecidos como favelas. Esses espaços se caracterizam por habitação precária, ausência de infraestrutura básica e insegurança jurídica da posse da terra. O fenômeno descreve um histórico de exclusão urbana que empurra parcelas da população para áreas desvalorizadas, de risco ambiental ou distantes dos centros.

No Brasil, a palavra “favela” surge no final do século XIX, associada ao Morro da Providência, no Rio de Janeiro, onde soldados da Guerra de Canudos se instalaram após o retorno ao litoral. A partir daí, o fenômeno se espalhou por todas as grandes cidades.

O geógrafo Milton Santos argumentou que a urbanização brasileira foi marcada por uma modernização excludente: criou periferias e vazios urbanos ao mesmo tempo em que concentrava riqueza em áreas servidas por infraestrutura pública. Crescimento urbano e desigualdade caminharam juntos.

Para a sociologia, favelização significa segregação residencial. A cidade se organiza de modo a manter certos grupos em áreas específicas, com menos serviços e maior vulnerabilidade a desastres. O processo combina fatores econômicos, políticos e raciais que não podem ser separados sem perder a compreensão do fenômeno como um todo.

Compreender a favelização exige, portanto, sair do senso comum que a trata como simples falta de planejamento. Trata-se de um resultado de escolhas históricas e estruturas econômicas que produziram e reproduzem a desigualdade urbana no país. O direito à cidade, discutido desde Henri Lefebvre nos anos 1960, permanece como uma pauta aberta e urgente para milhões de brasileiros.

favelização no Brasil: mapa conceitual mostrando favela ao lado de bairro nobre em cidade brasileira
Favelização no Brasil: a segregação urbana coloca riqueza e pobreza extrema lado a lado nas grandes cidades. .

O que o IBGE chama de aglomerado subnormal

O IBGE classifica favelas e comunidades similares como aglomerados subnormais, ou, no Censo 2022, como “Favelas e Comunidades Urbanas”. O termo engloba assentamentos com pelo menos 51 unidades habitacionais em ocupação irregular, carentes de serviços públicos e localizados em áreas de risco ou de preservação ambiental.

O Censo de 2022 contabilizou 16,39 milhões de pessoas vivendo nesses espaços no Brasil, distribuídas em 12.348 favelas e comunidades urbanas presentes em 656 municípios do país. Esse número representa 8,07% da população total. Não é um fenômeno residual. É estrutural.

Para fins comparativos, o Censo de 2010 havia registrado 11,4 milhões de moradores em assentamentos desse tipo, o que representa um crescimento absoluto de cerca de 5 milhões de pessoas em doze anos. O dado desfaz qualquer narrativa de que o problema está sendo resolvido de forma consistente.

Favelização e periferização: conceitos distintos

A confusão entre os dois termos é comum, mas eles descrevem processos distintos. A periferização envolve a expansão das cidades para áreas distantes, muitas vezes com moradias regulares, ainda que precárias. A favelização ocorre dentro ou próximo às áreas centrais, em terrenos irregulares, frequentemente sem titulação.

Ambas resultam da exclusão urbana, mas a favelização torna a segregação residencial mais visível: coloca lado a lado riqueza e pobreza extrema, como nos morros cariocas vizinhos de bairros nobres da Zona Sul do Rio de Janeiro.

A socióloga Teresa Caldeira, em seu trabalho sobre os “enclaves fortificados” nas cidades brasileiras, mostrou como a segregação contemporânea funciona de modo diferente da segregação clássica: os grupos não se separam apenas por bairros, mas constroem muros físicos e simbólicos que fragmentam o espaço urbano de maneira mais sofisticada. Condomínios fechados ao lado de favelas são a expressão mais clara desse padrão.

Raízes históricas da favelização no Brasil

A favelização brasileira tem raízes no fim da escravidão. A Lei Áurea de 1888 libertou a população negra sem oferecer terra, moradia ou qualquer política de integração. Sem alternativa, ex-escravizados e seus descendentes foram para os morros, os cortiços e as áreas de risco que ninguém mais queria. Esse ponto de partida importa. Quem entende a favelização sem passar pela escravidão está olhando para o meio da história.

A industrialização acelerada, a partir dos anos 1940, intensificou o processo. As fábricas precisavam de trabalhadores, e esses trabalhadores precisavam morar perto do emprego. Mas a política habitacional não acompanhou o ritmo. O resultado foi a formação de favelas ao redor das zonas industriais de São Paulo, do Rio de Janeiro e de Belo Horizonte.

O golpe de 1964 e a ditadura militar aprofundaram a exclusão. O regime investiu em grandes obras viárias e promoveu remoções de favelas, transferindo moradores para conjuntos habitacionais distantes. No Rio de Janeiro, essa política foi aplicada com intensidade nas décadas de 1960 e 1970, com violência e sem participação dos moradores.

Com a redemocratização, a Constituição de 1988 reconheceu o direito à moradia. A implementação, porém, foi lenta e desigual. A favelização continuou crescendo, agora em novas áreas, como as periferias metropolitanas.

Entender esse percurso histórico é indispensável para quem trabalha com o conceito de segregação na sociologia urbana. O fenômeno não nasce da pobreza isolada de certas famílias, mas de decisões políticas que organizaram o espaço de modo a excluir parte da população da cidade formal.

Êxodo rural e a cidade sem planejamento

Entre 1950 e 1980, a população urbana brasileira saltou de 36% para 67%. Esse êxodo rural não foi acompanhado de investimento consistente em habitação popular nas cidades de destino. Foi a cidade crescendo sobre si mesma, sem planejamento.

Em São Paulo, a favela de Heliópolis começou a se formar nos anos 1970, em área de várzea sujeita a enchentes. Hoje abriga cerca de 200 mil moradores, segundo estimativas da prefeitura paulistana. O caso ilustra como a favelização avançou na ausência de política habitacional à altura da demanda.

O processo não foi exclusivo das grandes metrópoles. Cidades médias também foram afetadas pela chegada de trabalhadores rurais sem condições de acessar o mercado formal de terra. A favelização chegou, em menor escala, a municípios com 100 mil a 500 mil habitantes.

A intensificação ocorreu a partir dos anos 1990. Pesquisa recente publicada na Revista de Arquitetura IMED (2025) aponta que favelas estão presentes em cerca de 80% das cidades brasileiras de médio porte.

Remoções forçadas e seus efeitos duradouros

As remoções forçadas, frequentes durante a ditadura, deixaram marcas que ainda se sentem. No Rio de Janeiro, a remoção da Favela da Catacumba, em 1970, transferiu moradores para o conjunto habitacional de Santa Cruz, a 60 km de distância do local de origem.

Pesquisas posteriores confirmaram o que os moradores já sabiam: remoções rompem laços comunitários, afastam as pessoas do emprego e agravam a pobreza. Não há urbanização justa que comece pela expulsão.

Esse padrão se repetiu em diferentes contextos. Por ocasião dos megaeventos realizados no Rio de Janeiro nos anos 2010, novas remoções foram documentadas por pesquisadores e organizações de direitos humanos. O Relatório Nacional de Direito Humano à Moradia Adequada, publicado pela Plataforma Dhesca Brasil, registrou casos em que famílias foram transferidas sem qualquer consulta prévia, para áreas sem acesso a transporte ou equipamentos públicos.

favelização ilustração flat design mostrando contraste entre moradia precária e edifícios modernos em cidade brasileira
Ilustração flat design representando a favelização e o contraste urbano nas cidades brasileiras. Café com Sociologia.

Por que a favelização persiste hoje

A favelização persiste porque os mecanismos que a produziram não foram desativados. A especulação imobiliária continua valorizando áreas centrais e expulsando moradores tradicionais. O déficit habitacional no Brasil gira em torno de 6 milhões de moradias, segundo a Fundação João Pinheiro.

Políticas como o Minha Casa Minha Vida criaram unidades populares em quantidade, mas a maioria foi construída em periferias distantes, longe do trabalho, das escolas e dos postos de saúde. A política resolveu um problema de teto e criou outro de exclusão.

A informalidade urbana alimenta o ciclo. Sem título de propriedade, moradores não conseguem regularizar seus imóveis, não acessam crédito e ficam sujeitos a despejos. A violência policial e o estigma social reforçam a segregação e limitam as possibilidades de mobilidade.

As favelas também são territórios de resistência cultural intensa: o funk, o samba e o hip hop nasceram ou ganharam força nesses espaços. Isso não cancela a precariedade, mas diz algo sobre a capacidade de organização de quem foi sistematicamente excluído do planejamento urbano.

O geógrafo David Harvey argumenta que a luta por moradia é, no fundo, uma luta por justiça social. No Brasil, o MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto) tem ocupado imóveis vazios especulativos e pressionado o poder público com uma agenda clara: a função social da propriedade, prevista na Constituição de 1988, precisa ser aplicada de forma concreta.

Para quem estuda estratificação social, a favelização é um dos exemplos mais contundentes de como as estruturas de classe se materializam no espaço. A localização na cidade não é neutra: ela distribui oportunidades, riscos e recursos de modo profundamente desigual.

Especulação imobiliária e terra ociosa

Um dos mecanismos mais perversos da segregação urbana brasileira é a manutenção de terrenos vazios em áreas servidas por infraestrutura pública. O proprietário espera a valorização, não constrói, não paga IPTU progressivo e não tem custo real por deixar a área improdutiva. Enquanto isso, famílias sem renda para pagar aluguel no mercado formal ocupam morros, margens de rios e áreas de risco ambiental.

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) documentou que a segregação racial é mais intensa nas grandes cidades: negros e pardos são maioria nas favelas e periferias de todas as capitais brasileiras. A terra ociosa com infraestrutura disponível, portanto, não é um acidente. É um resultado de políticas fundiárias que historicamente favorecem proprietários e penalizam os mais pobres.

Políticas habitacionais: o que funcionou e o que falhou

O Minha Casa Minha Vida, lançado em 2009, contratou mais de 5 milhões de unidades em dez anos. Os números impressionam. Mas a localização das moradias reproduziu a lógica da exclusão: muitos conjuntos foram erguidos em áreas sem transporte, sem escola e sem posto de saúde. A política privilegiou a faixa de renda que o mercado imobiliário consegue atender com subsídio, não os mais pobres, que continuaram nas favelas.

Em 2019, o programa foi substituído pelo Casa Verde e Amarela, com corte de subsídios para as famílias de menor renda. Em 2023, o Minha Casa Minha Vida foi relançado, com correções em algumas distorções. O desafio de localização, porém, permanece sem solução estrutural. Construir casa barata em lugar ruim resolve o problema do teto e cria o problema do isolamento.

Uma alternativa que tem ganhado atenção é a regularização fundiária de assentamentos já consolidados, por meio da Lei de Regularização Fundiária Urbana (Lei 13.465/2017). A proposta é dar título de propriedade a quem já mora em áreas ocupadas há anos, garantindo segurança jurídica sem a necessidade de remoção. Os resultados, porém, têm sido desiguais e dependem da vontade política dos municípios.

Consequências sociais da favelização

A favelização produz efeitos concretos e mensuráveis na vida das pessoas. A falta de saneamento básico aumenta a incidência de doenças infecciosas. A insegurança da posse impede que moradores invistam na própria moradia. A violência policial e o tráfico de drogas criam um ambiente de insegurança permanente. O deslocamento até o emprego consome horas que trabalhadores de renda mais alta gastam em lazer ou descanso.

O racismo ambiental é uma dimensão que não pode ser ignorada. A população negra é a mais atingida por enchentes, deslizamentos e falta de serviços básicos. O Censo 2022 confirmou: a maioria dos moradores de favelas se autodeclara preta ou parda.

O sociólogo Silvio Almeida, em “Racismo Estrutural” (2019), mostra como as instituições reproduzem a desigualdade racial mesmo sem intenção explícita de discriminar. Isso não é coincidência. É o resultado acumulado de mais de um século de políticas que excluíram a população negra do acesso à cidade formal.

A exclusão urbana também pesa sobre a educação. Moradores de favelas enfrentam deslocamentos longos, discriminação na seleção de empregos e escolas com infraestrutura deficitária. Pesquisas do INEP mostram que os indicadores educacionais de escolas em áreas de favela são sistematicamente piores que a média nacional.

A mobilidade social existe, impulsionada por cotas, programas de renda e acesso ao ensino superior público. O peso da origem territorial não desaparece com um diploma, mas pode ser amenizado com políticas de transferência de renda e democratização do acesso à educação de qualidade.

A compreensão dessas consequências passa também pelo estudo das classes sociais e luta de classes em Marx, que oferece ferramentas teóricas para entender como a posição econômica determina, em larga medida, o lugar que cada pessoa ocupa no espaço urbano.

Saneamento e saúde pública

Segundo o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), parcela significativa dos moradores de favelas ainda não tem acesso a coleta de esgoto. Esse dado se traduz em doenças evitáveis: leptospirose, hepatite A e diarreia infantil têm incidência muito maior em áreas sem saneamento.

O Brasil gastaria menos com saúde pública se investisse mais em esgoto. A equação é direta. A prioridade, porém, raramente seguiu essa lógica nas últimas décadas.

A pandemia de Covid-19, entre 2020 e 2022, tornou essa vulnerabilidade ainda mais visível. Favelas sem água encanada regular, com moradias superlotadas e sem condições de isolamento social, foram atingidas de forma desproporcional pela doença. Pesquisas da Universidade Federal do Rio de Janeiro e do Instituto Todos pela Saúde documentaram as maiores taxas de mortalidade por Covid em regiões de maior concentração de favelas nas capitais.

Estigma, mídia e resistência cultural

O estigma associado à favela é alimentado por décadas de cobertura midiática que reduz esses territórios à violência. A imagem da favela como zona de perigo ignora o comércio local, as igrejas, as escolas de samba, os coletivos culturais e toda a vida cotidiana que acontece ali.

O funk e o rap produzidos nas favelas denunciam a opressão e constroem identidade. O coletivo Nós do Morro, no Rio, e a Cooperifa, em São Paulo, são exemplos de produção artística gerada nesses territórios com perspectiva própria, sem concessão ao olhar externo que criminaliza seus habitantes.

O estigma territorial também afeta quem busca emprego. Pesquisadores da FGV documentaram que moradores de áreas com má reputação têm menor taxa de retorno de candidaturas a vagas de trabalho, mesmo com qualificações equivalentes às de candidatos de outros bairros. A discriminação pelo CEP é uma forma de exclusão silenciosa, mas com efeitos concretos na vida das pessoas.

Favelização e racismo estrutural

Não é possível discutir favelização no Brasil sem discutir raça. Os dados do Censo 2022 mostram que pretos e pardos representam a maioria dos moradores de favelas e comunidades urbanas em todas as regiões do país. Esse padrão não é acidental: é o resultado de um processo histórico iniciado com a abolição sem reparação e continuado por décadas de políticas habitacionais que não priorizaram as populações mais pobres, majoritariamente negras.

O conceito de racismo estrutural, desenvolvido por Silvio Almeida e discutido por Djamila Ribeiro entre outros autores, ajuda a entender por que a favelização não é apenas uma questão de renda. É também uma questão de raça.

Quando as políticas de remoção durante a ditadura escolheram quais favelas seriam demolidas e quais receberiam urbanização, a lógica racial não estava ausente. Ela operava de modo mais ou menos explícito, determinando quais corpos ocupavam quais espaços na cidade.

Reconhecer esse componente racial não significa ignorar a dimensão econômica da favelização. Significa entender que classe e raça se articulam no Brasil de maneira específica, produzindo uma sobreposição de vulnerabilidades que nenhuma política resolve de forma isolada.

Para aprofundar essa discussão, o artigo sobre quilombismo e resistência negra no Café com Sociologia oferece uma perspectiva complementar sobre como as populações negras responderam historicamente à exclusão.

A ONU-Habitat estimou, em 2025, que mais de 2,8 bilhões de pessoas no mundo enfrentam algum tipo de inadequação habitacional. O Brasil, com 16 milhões de moradores em favelas, concentra parcela relevante desse quadro global. Isso significa que a favelização não é exceção, mas norma em sistemas urbanos que não foram planejados para acomodar todos os seus habitantes com dignidade.

Perguntas Frequentes (FAQ)

O que é favelização, em termos simples?

Favelização é o processo pelo qual cresce o número de assentamentos informais nas cidades, caracterizados por moradia precária, falta de serviços básicos e ocupação irregular do solo. No Brasil, o fenômeno está ligado à exclusão histórica de parte da população do mercado formal de moradia e terra.

Qual a diferença entre favela e periferia?

Periferia se refere a áreas distantes do centro urbano, que podem ter ocupação regular ou irregular. Favela designa especificamente um assentamento informal, com habitação precária e ausência de infraestrutura, independentemente da localização. Uma favela pode estar no centro da cidade, como ocorre em vários casos no Rio de Janeiro.

Quais são as principais causas da favelização?

As causas centrais são: desigualdade social e de renda; especulação imobiliária que eleva o preço da terra nas áreas mais bem servidas; ausência de políticas habitacionais consistentes para a população mais pobre; êxodo rural sem planejamento habitacional nas cidades de destino; e o legado histórico da escravidão sem reparação, que deixou a população negra sem acesso à terra e à moradia formal.

A favelização tem solução?

Especialistas apontam que a combinação de regularização fundiária, urbanização dos assentamentos existentes, políticas habitacionais bem localizadas e combate à especulação imobiliária pode reduzir o fenômeno. Não existe solução única ou rápida, dado o acúmulo de décadas de exclusão. O que está claro é que remoções isoladas sem alternativa habitacional digna agravam o problema em vez de resolvê-lo.

Quantas pessoas vivem em favelas no Brasil?

Segundo o Censo Demográfico 2022 do IBGE, 16,39 milhões de pessoas residem em favelas e comunidades urbanas no Brasil, distribuídas em 12.348 assentamentos presentes em 656 municípios do país. Esse número representa 8,07% da população total brasileira.

Como a favelização se relaciona com o racismo?

A população negra é a maioria dos moradores de favelas no Brasil. Esse dado reflete o legado histórico da abolição sem reparação e de décadas de políticas urbanas que não priorizaram os mais pobres, entre os quais os negros sempre foram maioria. O racismo estrutural opera na produção do espaço urbano, determinando quem tem acesso à cidade formal e quem fica nas margens.

Conclusão

A favelização não é um defeito do sistema. É um dos seus resultados previsíveis quando o acesso à terra e à moradia é tratado como mercadoria, e não como direito.

O Brasil acumulou décadas de exclusão urbana que se expressam nos mais de 16 milhões de pessoas que vivem em assentamentos precários, sem saneamento adequado, sem segurança jurídica da posse e com acesso limitado ao emprego, à saúde e à educação.

Entender a favelização sociologicamente significa recusar as explicações que a reduzem a falhas individuais ou à pobreza como fato natural. Ela tem autores, tem história e tem beneficiários. A especulação imobiliária, a política fundiária excludente e o racismo estrutural são partes integrantes do problema.

As soluções precisam ser à altura da complexidade do fenômeno: regularização fundiária, urbanização com participação dos moradores, políticas habitacionais bem localizadas e reforma urbana que coloque a função social da propriedade no centro do debate.

Para professores e estudantes, o tema oferece uma entrada privilegiada para discutir desigualdade, racismo, movimentos sociais e políticas públicas de forma articulada. Para pesquisadores, a favelização permanece um campo de investigação fértil, onde dados quantitativos e estudos qualitativos se complementam na construção de um retrato mais preciso e justo da cidade brasileira.

Referências

  • ALMEIDA, Silvio. Racismo Estrutural. Belo Horizonte: Letramento, 2019.
  • CALDEIRA, Teresa Pires do Rio. Cidade de Muros: Crime, Segregação e Cidadania em São Paulo. São Paulo: Editora 34/Edusp, 2000.
  • HARVEY, David. Cidades Rebeldes: Do Direito à Cidade à Revolução Urbana. São Paulo: Martins Fontes, 2014.
  • IBGE. Censo Demográfico 2022: Favelas e Comunidades Urbanas. Rio de Janeiro: IBGE, 2024. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/habitacao/22827-censo-demografico-2022.html
  • IPEA. Atlas das Vulnerabilidades Urbanas nas Regiões Metropolitanas Brasileiras. Brasília: IPEA, 2023. Disponível em: https://www.ipea.gov.br
  • KRAUSE, A. B. P.; GOULART, J. O. Difusão de favelas e as ações do poder público em Bauru (SP). Oculum Ensaios, Campinas, v. 22, e2514888, 2025.
  • MARICATO, Ermínia. Brasil, Cidades: Alternativas para a Crise Urbana. Petrópolis: Vozes, 2001.
  • ONU-HABITAT. World Cities Report 2022. Nairobi: ONU-Habitat, 2022. Disponível em: https://unhabitat.org/wcr
  • PASTERNAK, S.; BOGUS, L. M. M. Favela como face extrema da segregação. Urbe: Revista Brasileira de Gestão Urbana, v. 16, e20230164, 2024.
  • SANTOS, Milton. A Urbanização Brasileira. São Paulo: Hucitec, 1993.
  • SNIS. Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento: Diagnóstico Temático Serviços de Água e Esgoto. Brasília: Ministério das Cidades, 2023.

Roniel Sampaio Silva

Doutorando em Educação, Mestre em Educação e Graduado em Ciências Sociais e Pedagogia. Professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Piauí – Campus Teresina Zona Sul.

Deixe uma resposta

Categorias

História do Café com Sociologia

O Site foi criado por Cristiano Bodart em 27 de fevereiro de 2009. Inicialmente, funcionava como um espaço virtual destinado ao armazenamento e compartilhamento de materiais utilizados em suas aulas, quando lecionava na rede pública de ensino do Estado do Espírito Santo. Em 2012, Roniel Sampaio Silva, por ocasião de seu ingresso no Instituto Federal, passou a integrar a administração do blog. Desde então, o projeto é desenvolvido e mantido em parceria pelos dois pesquisadores.

Ao longo de sua trajetória, o blog consolidou-se como uma das principais referências nacionais na área de ensino de Sociologia, sendo amplamente consultado por professores, estudantes, pesquisadores e leitores de diferentes áreas do conhecimento. O portal reúne uma extensa coleção de materiais didáticos, incluindo artigos, planos de aula, avaliações, dinâmicas pedagógicas, podcasts, vídeos, indicações de filmes e diversos outros recursos voltados à educação.

Em 2019, o blog ultrapassou a marca de 9 milhões de acessos, evidenciando seu alcance e relevância no cenário educacional brasileiro.

O trabalho desenvolvido pelo blog foi reconhecido nacionalmente, tendo sido premiado na 7ª edição do Prêmio Professores do Brasil. Atualmente, o projeto reúne centenas de milhares de seguidores nas redes sociais e mantém uma comunidade de leitores que acompanha regularmente suas publicações.

Seguimos comprometidos com a missão de produzir e divulgar conteúdos de qualidade, contribuindo para tornar os conhecimentos das Ciências Sociais cada vez mais acessíveis, relevantes e úteis para a formação crítica de estudantes, educadores e da sociedade em geral.

Direitos autorais

Atribuição-SemDerivações
CC BY-ND
Você pode reproduzir nossos textos de forma não-comercial desde que sejam citados os créditos.
® Café com Sociologia é nossa marca registrada no INPI. Não utilize sem autorização dos editores.

Selo da licença Creative Commons Atribuição-SemDerivações (CC BY-ND)
Segunda Guerra Mundial — ilustração flat design com soldados, globo dividido e pomba da paz representando o conflito de 1939–1945
Post Anterior

Segunda Guerra Mundial: causas, fases e 4 consequências sociais

Latest from Conceitos Sociológicos

Ir para oTopo