9502535 DMc2s1

O sistema de forças pró e anti-mediocriade durante nossa trajetória de vida

Por Roniel Sampaio Silva

É incrível como o termo medíocre passou a ter tantas conotações, oscilando entre sentidos positivos e negativos. Se no arcadismo a mediocridade dourada fazia referencia à simplicidade, hoje a mediocridade tem sido associada ao esforço mínimo.  Assim como a ideia de mediocridade foi construída historicamente, o cotidiano traz armadilhas que embora nos obrigue a fugir delas, sempre deixando uma armadilha para nos prender.

Dia após dia tenho me deparado diante de situações que me fazem refletir sobre essa bendita mediocridade; como ela se configura no tempo e no espaço – principalmente como ela está enraízada na cultura brasileira. Vez por outra ela aparece  quando pessoas próximas a mim se esquivam do problema educacional.Por exemplo, quando usam a seguinte frase: “Poderia ser pior”. É óbvio que poderia ser pior. Mas não poderia a frase ser revertida para um “poderia ser melhor”?Essa cultura da mediocridade é construída socialmente e ao longo da vida ela parece ter o seguinte desenvolvimento:

Na Escola Como bem escreveu Cristiano Bodart a educação brasileira tem sido obrigada a ser medíocre mediante a uma série de limitações estruturais e institucionais. O professor precisa sempre “nivelar por baixo” e isso vai limitando o potencial de professores e alunos, e desde cedo ensina que o padrão não é a superação e sim a mediocridade. O fato de nossa educação ser quantitativistafaz com que os alunos estejam mais preocupados com um número o qual resume seu desempenho bimestral, ai invésdo aprendizado propriamente dito. Muitos deles estão preocupados em ter a nota maior do que o colega. Nesse sentido, o problema não é a mediocridade em si, mas a referência. A referência da mediocridade do arcadismo era a simplicidade e a vida no campo e não o conhecimento, diferentemente de hoje. Como assim? A referência dos alunos é ser melhor que os outros, não o melhor de si. Assim, se o ambiente for de pessoas cujo potencial é baixo, os demais, ao ter como referência os medíocres vão tornando-se igualmente medíocres. Nas redes sociais costumamos ver sátiras de que os asiáticos são melhores do que nós. Possivelmente isso é procedente. Sabe por quê? Por que culturalmente eles aprendem a ser melhor do que foram ontem e não a ser melhor que o outro. Sendo melhor que você foi ontem, sua referência é sempre positiva, o que o faz superar com maior facilidade a mediocridade.

Na universidade Quando ingressamos na universidade, passamos por uma rigorosa seleção que elimina boa parte dos medíocres. Porém isso não garante um distanciamento da mediocridade, uma pessoa engajada pode virar medíocre, e vice-versa. Alguns estudantes ingressam no movimento estudantil, na iniciação pesquisa, procuram professores para desenvolver projetos e etc. Quando não conseguem, organizam coletivos juvenis e outros projetos externos. Dependendo da instituição, o aprender e o pensar ficam limitados em sala de aula e assim, os professores medíocres costumam influenciar alunos para isso.A mediocridade quantitativista tanto exigida pela capes e a sobrecarga de trabalho dificultam o desenvolvimento de um trabalho criativo, restando, na maioria das vezes uma reprodução academicista para “inflar o lattes”.

No concurso público Terminei a universidade e agora? Preciso arrumar um trabalho, mas não quero ir pra iniciativa privada. A solução é buscar dedicar-se ao máximo para passar em um concurso. Duficilmente um concurseiro, por mais irresponsável que seja é medíocre. Para passar num bom concurso é preciso superar-se e romper com a mediocridade. No ritmo dos estudos, este concurseiro, assim que ingressa no serviço público pensa: “Vou começar o trabalho, darei o máximo de mim e me engajar pra fazer o melhor possível”. Pobre alma…

No trabalho Infelizmente, o peso da cultura institucional e do ambiente social pode motivar ou desmotivar a pessoa. Motivação tem uma relação íntima com a atmosfera institucional, esta por sua vez pode ser medríocre ou engajada, dependendo da gestão. O cara engajado que ingressou no serviço público quando cai numa instituição medíocre tende a ser mediocrizado. Para quem não tem cuidado, a estabilidade do serviço público gera comodismo. Quem busca superar isso é alvo de inveja, boicote e perseguição. É um “mané” quem busca melhorar o trabalho, ou em outro extremo, é petulante ou arrogante. As ações feitas por uma pessoa engajada são questionadas até que o servidor engajado transforma-se num medíocre. Ainda assim, existem exceções. Vinicius de Morais e Machado de Assis eram servidores públicos, seriam eles medíocres? Talvez na repartição sim. É impossível ser competente e engajado quando boa parte da estrutura está comprometida. O jeito é procurar uma válvula de escape ou procurar um ambiente menos medíocre.

Considerações finais. O mais fatalista de tudo é quando sobrevivemos a toda essa trajetória de mediocridade e findamos em um trabalho cuja lógica é medíocre. O trabalho na perspectiva de Émile Durkheim é um ambiente que faz com que as pessoas se sintam integradas à sociedade. Na medida em que o trabalhador se sente improdutivo, inútil ele tente a se sentir fora do ciclo social.  É muito comum as pessoas ingressarem no tão sonhado emprego e serem subutilizadas a ponto de serem mediocrizadas. Pessoalmente, morro de medo disso; pra mim isso é como “privatizar a alma”.

Roniel Sampaio Silva

Doutorando em Educação, Mestre em Educação e Graduado em Ciências Sociais e Pedagogia. Professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Piauí – Campus Teresina Zona Sul.

1 Comment Deixe um comentário

  1. Excelente texto. Como servidor público e professor universitário, sinto na pele cada uma das etapas. Uma das coisas que me irrita é quando alguém diz que, pelo fato de já ser concursado, eu já "estou com a vida ganha". O que essa pessoa pensa da vida? A primeira coisa que vem à cabeça de uma pessoa assim é que ela só produz sob a pressão da demissão e será um desperdício de dinheiro público ao passar em um concurso.

Deixe uma resposta

Categorias

História do Café com Sociologia

O Site foi criado por Cristiano Bodart em 27 de fevereiro de 2009. Inicialmente, funcionava como um espaço virtual destinado ao armazenamento e compartilhamento de materiais utilizados em suas aulas, quando lecionava na rede pública de ensino do Estado do Espírito Santo. Em 2012, Roniel Sampaio Silva, por ocasião de seu ingresso no Instituto Federal, passou a integrar a administração do blog. Desde então, o projeto é desenvolvido e mantido em parceria pelos dois pesquisadores.

Ao longo de sua trajetória, o blog consolidou-se como uma das principais referências nacionais na área de ensino de Sociologia, sendo amplamente consultado por professores, estudantes, pesquisadores e leitores de diferentes áreas do conhecimento. O portal reúne uma extensa coleção de materiais didáticos, incluindo artigos, planos de aula, avaliações, dinâmicas pedagógicas, podcasts, vídeos, indicações de filmes e diversos outros recursos voltados à educação.

Em 2019, o blog ultrapassou a marca de 9 milhões de acessos, evidenciando seu alcance e relevância no cenário educacional brasileiro.

O trabalho desenvolvido pelo blog foi reconhecido nacionalmente, tendo sido premiado na 7ª edição do Prêmio Professores do Brasil. Atualmente, o projeto reúne centenas de milhares de seguidores nas redes sociais e mantém uma comunidade de leitores que acompanha regularmente suas publicações.

Seguimos comprometidos com a missão de produzir e divulgar conteúdos de qualidade, contribuindo para tornar os conhecimentos das Ciências Sociais cada vez mais acessíveis, relevantes e úteis para a formação crítica de estudantes, educadores e da sociedade em geral.

Direitos autorais

Atribuição-SemDerivações
CC BY-ND
Você pode reproduzir nossos textos de forma não-comercial desde que sejam citados os créditos.
® Café com Sociologia é nossa marca registrada no INPI. Não utilize sem autorização dos editores.

Unknown
Post Anterior

7 de setembro: Hoje é feriado. E daí?

O que é relativismo cultural
Próximo post

O que é relativismo cultural

Latest from Sem categoria

Lado yang?

Por  Karla Cristina da Silva* Eu não quero ser Yin muito menos Yang… Tirar a paz? Desequilibrar o mundo? Tanto faz… Foi Pandora
Ir para oTopo

Don't Miss