
Durante a pandemia de covid-19, uma mesma pessoa podia receber, no mesmo dia, um áudio de WhatsApp alertando sobre uma “cura milagrosa”, uma reportagem de um grande jornal com dados de uma revista científica e um vídeo de rede social afirmando que a vacina continha microchips. As três informações circulavam com a mesma velocidade e, para muita gente, com a mesma aparência de credibilidade. Esse excesso de informação, misturando dado verificado e boato, tem nome: infodemia.
O termo foi formalizado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2020, mas descreve um fenômeno mais amplo, que se intensifica sempre que uma crise de grande escala, sanitária, política ou econômica, gera volume de informação maior do que a capacidade das pessoas de checar e processar cada conteúdo com cuidado.
Este texto explica a origem do termo, sua definição oficial pela OMS, a diferença entre infodemia e fake news, os pilares de gestão da infodemia usados por organismos internacionais, exemplos concretos, dados da pandemia de covid-19 e orientações práticas para identificar e enfrentar esse fenômeno no dia a dia.
Este guia foi organizado para professores, estudantes, licenciandos, jornalistas em formação e candidatos a concursos que precisam entender, com profundidade e exemplos atuais, um dos fenômenos mais discutidos da sociologia da comunicação contemporânea.
O que é infodemia?
Infodemia é o excesso de informação, verdadeira ou falsa, sobre um determinado assunto, geralmente durante uma crise, dificultando que as pessoas encontrem fontes confiáveis e orientação segura no momento em que mais precisam delas. A palavra é uma fusão de “informação” e “epidemia”, sugerindo que o próprio volume de informação, e não apenas seu conteúdo, pode se tornar um problema de saúde pública e social.
É importante destacar: infodemia não é sinônimo de desinformação. Ela inclui tanto conteúdo falso quanto conteúdo verdadeiro, mas apresentado em volume tão grande, repetitivo e descontextualizado que se torna difícil separar o que é relevante e confiável do que não é. Mesmo notícias corretas, publicadas em excesso e sem hierarquização clara, contribuem para a confusão informacional característica do fenômeno.
Um jeito simples de entender a diferença: imagine duas pessoas tentando atravessar um rio. Uma enfrenta um rio raso, mas com água suja, difícil de ver o fundo (o problema é a qualidade da informação, como nas fake news). A outra enfrenta um rio com água limpa, mas com correnteza tão forte e volume de água tão grande que também não consegue atravessar em segurança (o problema é a quantidade, típico da infodemia). Em situações reais, os dois rios costumam se misturar, mas a distinção ajuda a entender por que soluções pensadas apenas para combater conteúdo falso nem sempre resolvem o problema da sobrecarga informacional.
Origem do termo
O termo “infodemic” foi usado pela primeira vez em 2003, pelo jornalista e pesquisador norte-americano David Rothkopf, em um artigo sobre a epidemia de SARS, para descrever como fatos, boatos e reações emocionais se misturavam na cobertura midiática daquele surto. O conceito, porém, permaneceu relativamente pouco usado até 2020, quando a Organização Mundial da Saúde o adotou formalmente para descrever o excesso de informação sobre a pandemia de covid-19, dando origem também ao termo “infodemiologia”, o campo de estudo dedicado a entender e gerenciar esse fenômeno.
Desde então, a OMS e a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) publicaram documentos técnicos e diretrizes específicas para orientar governos e profissionais de saúde na gestão do problema, reconhecendo-o como parte estrutural da resposta a emergências sanitárias, e não apenas como efeito colateral de crises de comunicação.
A adoção institucional do termo por um organismo do porte da OMS teve um efeito importante: transformou o que antes era descrito de forma dispersa, como “excesso de notícias” ou “confusão informativa”, em objeto de estudo científico sistemático, com metodologia própria, indicadores de monitoramento e políticas públicas dedicadas. Esse reconhecimento formal também abriu caminho para pesquisas acadêmicas específicas sobre o tema em diferentes países, incluindo o Brasil, onde ministérios da saúde precisaram desenvolver estratégias próprias de resposta durante a pandemia de covid-19.
Diferença entre infodemia, fake news e pós-verdade
Esses três termos costumam ser usados de forma intercambiável, mas descrevem fenômenos distintos, embora relacionados.
| Termo | O que descreve |
|---|---|
| Fake news | Conteúdo especificamente falso, criado de forma deliberada para enganar |
| Pós-verdade | Contexto cultural em que emoções e crenças pesam mais que fatos verificáveis na formação de opinião |
| Infodemia | Excesso de volume de informação, verdadeira e falsa, que dificulta discernimento e boas decisões |
Uma infodemia pode ocorrer mesmo sem nenhuma fake news circulando: bastaria um volume muito grande de notícias verdadeiras, mas contraditórias entre si ou descontextualizadas, para gerar confusão equivalente. Na prática, porém, os três fenômenos costumam se retroalimentar: a pós-verdade cria terreno cultural favorável às fake news, que por sua vez aumentam o volume total de informação em circulação, intensificando o problema descrito neste artigo.
Essa distinção tem consequências práticas importantes para políticas públicas. Uma estratégia voltada apenas a remover conteúdo falso, por exemplo, dificilmente resolve o problema sozinha se o volume total de informação, mesmo majoritariamente correta, continuar superando a capacidade das pessoas de processá-la com atenção e critério. Por isso, especialistas defendem que soluções eficazes precisam combinar checagem de fatos com estratégias mais amplas de organização e hierarquização da informação disponível.
Como a infodemia se espalha
O fenômeno se intensifica especialmente em contextos de incerteza, quando a demanda por informação supera a capacidade da ciência e das instituições de fornecer respostas definitivas em tempo hábil. Redes sociais aceleram esse processo por três motivos principais: velocidade de compartilhamento superior à velocidade de verificação, algoritmos que priorizam conteúdo emocionalmente engajador em vez de conteúdo preciso, e ausência de intermediários editoriais que antes filtravam informações antes da publicação.
Esse cenário se conecta diretamente ao campo da sociologia digital, que estuda como algoritmos e vieses de plataformas reproduzem e amplificam dinâmicas sociais já existentes, incluindo a propagação acelerada de desinformação em grupos de mensagens e redes sociais.
Vale notar que aplicativos de mensagens instantâneas, como WhatsApp e Telegram, apresentam desafio particular para a gestão desse problema: por operarem em grupos privados e criptografados, dificultam o monitoramento público do volume e do conteúdo em circulação, tornando o trabalho de infovigilância significativamente mais complexo do que em redes sociais abertas, onde pesquisadores e agências de checagem conseguem acompanhar tendências com mais facilidade.
Os quatro pilares de gestão da infodemia
Organismos internacionais como a OMS e a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) estruturam a resposta à infodemia em torno de quatro pilares principais, segundo documento técnico da Organização Pan-Americana da Saúde:
- Infovigilância: monitoramento sistemático de quais informações, verdadeiras e falsas, estão circulando sobre determinado tema.
- Alfabetização em saúde digital e científica: capacitação da população para avaliar criticamente fontes e conteúdos.
- Aprimoramento da qualidade da informação: verificação de fatos (fact-checking) e revisão por pares de conteúdos técnicos.
- Tradução precisa e oportuna do conhecimento científico: comunicação clara de descobertas científicas para o público geral, evitando lacunas que sejam preenchidas por desinformação.
Exemplos de infodemia
O fenômeno não se limita a crises sanitárias. Qualquer situação de alta incerteza combinada com grande demanda por informação pode gerar um episódio equivalente, como mostram os exemplos a seguir.
Crises sanitárias
Além da covid-19, surtos como a epidemia de zika vírus e a gripe H1N1 já geraram episódios equivalentes, com informações contraditórias sobre transmissão, tratamento e prevenção circulando simultaneamente em diferentes canais de comunicação.
Crises políticas e eleitorais
Períodos eleitorais costumam gerar volume elevado de conteúdo informativo e persuasivo, misturando dados de pesquisas, opiniões e desinformação deliberada, dificultando que o eleitor identifique fontes confiáveis em meio ao volume total de conteúdo.
Desastres naturais
Enchentes, terremotos e outros desastres naturais frequentemente geram picos de informação não verificada sobre número de vítimas, rotas de fuga e ajuda disponível, o que pode tanto salvar vidas quanto colocá-las em risco, dependendo da precisão do conteúdo compartilhado.
Crises econômicas
Notícias contraditórias sobre valorização ou desvalorização de moedas, ações e criptomoedas podem gerar pânico financeiro coletivo, mesmo quando parte significativa da informação em circulação é tecnicamente correta, apenas descontextualizada ou fragmentada.
Grandes eventos esportivos e culturais
Mesmo eventos não relacionados a crises, como Copas do Mundo ou premiações, já geraram picos de volume informacional excessivo nas redes sociais, incluindo boatos sobre resultados, escalações e bastidores, ilustrando que o mecanismo básico do fenômeno, volume que supera capacidade de verificação, pode ocorrer em contextos de menor gravidade social, ainda que com consequências bem mais limitadas do que em crises sanitárias ou políticas.
A infodemia durante a covid-19
A pandemia de covid-19 é, até hoje, o caso mais estudado de infodemia em escala global. Segundo artigo publicado na Revista Panamericana de Salud Pública, ministérios da saúde de diversos países da América do Sul precisaram desenvolver estratégias específicas de gestão da infodemia, incluindo materiais de comunicação voltados diretamente para desmentir boatos e orientar a população com base em evidências científicas atualizadas.
Esse período evidenciou um paradoxo central do fenômeno: mesmo com acesso sem precedentes a informação científica, incluindo estudos publicados em tempo recorde, parte significativa da população mundial teve dificuldade para tomar decisões informadas sobre vacinação, uso de máscaras e distanciamento social, justamente por causa do volume desproporcional de desinformação misturado ao conteúdo científico legítimo.
A própria ciência, nesse período, contribuiu inadvertidamente para o problema: a prática de disponibilizar estudos em versão “preprint”, antes da revisão por pares, acelerou a comunicação científica em um momento crítico, mas também permitiu que resultados preliminares, por vezes revisados ou contestados posteriormente, circulassem amplamente como se fossem conclusões definitivas, alimentando ainda mais o volume total de informação em disputa sobre o vírus e as vacinas.
| Ano | Marco |
|---|---|
| 2003 | David Rothkopf usa o termo “infodemic” pela primeira vez, sobre a epidemia de SARS |
| 2020 | OMS formaliza o conceito de infodemia durante a pandemia de covid-19 |
| 2020 | OPAS publica fichas informativas específicas sobre gestão da infodemia na região das Américas |
| 2021 | Surgem publicações acadêmicas específicas sobre “infodemiologia” como campo de estudo |
| 2022 | OMS publica documento de orientação de políticas para gestão contínua do fenômeno |
Consequências sociais e para a saúde pública
As consequências vão além da confusão momentânea. Estudos associam episódios prolongados desse tipo a atrasos na adesão a medidas de saúde pública, aumento da polarização política, enfraquecimento da confiança em instituições científicas e de imprensa, e sobrecarga psicológica das pessoas expostas continuamente a volume excessivo de informações alarmantes, fenômeno também chamado de “fadiga informacional”.
Em termos econômicos, pesquisadores também apontam custos indiretos relevantes: decisões de consumo e investimento tomadas com base em informação de baixa qualidade, atrasos em respostas governamentais causados pela necessidade de desmentir boatos antes de implementar políticas públicas, e desgaste de recursos institucionais dedicados à checagem e ao monitoramento de conteúdo, recursos que, em circunstâncias ideais, poderiam ser direcionados diretamente ao enfrentamento da crise original.
Como identificar e se proteger da infodemia
Além das estratégias institucionais discutidas anteriormente, existem práticas individuais simples que ajudam a reduzir a exposição pessoal ao excesso informacional e a melhorar a qualidade das decisões tomadas em meio a uma crise.
- Verifique a fonte original: antes de compartilhar, identifique quem produziu a informação e qual sua credibilidade no assunto específico.
- Desconfie de conteúdos extremamente emocionais: informações que provocam medo ou indignação intensa se espalham mais rápido, o que as torna alvo preferencial de desinformação.
- Limite o número de fontes acompanhadas: seguir poucas fontes confiáveis e consolidadas reduz a exposição ao volume desnecessário característico da infodemia.
- Use agências de checagem: serviços de fact-checking reconhecidos ajudam a verificar rapidamente boatos em circulação.
- Faça pausas de consumo de notícias: especialmente em períodos de crise aguda, intervalos regulares sem consumo de notícias ajudam a reduzir a fadiga informacional.
Vídeo sobre o tema
Para complementar a leitura, veja esta produção da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), com apoio do SUS e do Ministério da Saúde, sobre como identificar informações confiáveis em meio ao excesso de conteúdo digital:

Como usar o tema em redações e concursos
Infodemia é tema frequente em redações do ENEM e vestibulares sobre desinformação, saúde pública, redes sociais e ciência. Algumas orientações ajudam no uso correto do conceito:
- Cite a origem correta: o termo foi formalizado pela OMS em 2020, embora tenha sido cunhado por David Rothkopf em 2003.
- Não confunda com fake news: infodemia é um conceito mais amplo, que inclui excesso de informação verdadeira também.
- Cite os pilares de gestão: mencionar infovigilância, alfabetização digital, checagem de fatos e comunicação científica clara demonstra domínio técnico do tema.
- Proponha soluções institucionais: educação midiática nas escolas e parcerias entre governos e plataformas digitais são propostas de intervenção bem avaliadas em redações sobre o tema.
Perguntas frequentes sobre infodemia
Quem criou o termo infodemia?
O termo foi usado pela primeira vez pelo jornalista David Rothkopf em 2003, mas ganhou definição oficial e ampla adoção após ser formalizado pela Organização Mundial da Saúde em 2020, durante a pandemia de covid-19.
Infodemia é o mesmo que fake news?
Não. Fake news são conteúdos especificamente falsos e criados deliberadamente para enganar. Infodemia é um fenômeno mais amplo: o excesso de informação, verdadeira e falsa, que dificulta o discernimento e a tomada de decisões, especialmente em contextos de crise.
O que é infodemiologia?
É o campo de estudo científico dedicado a entender, monitorar e gerenciar infodemias, combinando ferramentas de epidemiologia, ciência da informação e comunicação em saúde.
A infodemia só ocorre em crises de saúde?
Não. Embora o termo tenha ganhado popularidade durante a pandemia de covid-19, o fenômeno pode ocorrer em qualquer contexto de crise com alta demanda informacional, incluindo eleições, desastres naturais e crises econômicas.
Como as plataformas digitais têm respondido à infodemia?
Diversas plataformas implementaram parcerias com agências de checagem de fatos, sinalização de conteúdo verificado e ajustes em algoritmos para reduzir o alcance de desinformação, embora a efetividade dessas medidas continue sendo debatida por pesquisadores da área.
Aplicativos de mensagens são mais problemáticos que redes sociais abertas?
Em certos aspectos, sim. Por operarem em grupos privados e criptografados, aplicativos como WhatsApp dificultam o monitoramento público do volume de conteúdo em circulação, o que torna mais difícil para pesquisadores e agências de checagem identificar e responder rapidamente a boatos em disseminação.
Existe alguma medida oficial do tamanho de uma infodemia?
Ainda não existe um índice único e amplamente adotado, mas pesquisadores usam indicadores como volume de menções a um tema em redes sociais, proporção de conteúdo verificado como falso e velocidade de disseminação para estimar a intensidade do fenômeno em cada contexto específico.
Considerações finais
A infodemia expõe um paradoxo da era digital: nunca se teve tanto acesso à informação, e, ao mesmo tempo, nunca foi tão difícil identificar quais informações merecem confiança. Compreender esse fenômeno, distinguindo-o de conceitos próximos como fake news e pós-verdade, é essencial para quem estuda comunicação, sociologia digital e saúde pública.
Os quatro pilares de gestão apresentados neste artigo, infovigilância, alfabetização digital, checagem de qualidade e comunicação científica clara, oferecem um roteiro tanto para instituições quanto para indivíduos interessados em navegar de forma mais segura por um ambiente informacional cada vez mais saturado.
Combater esse tipo de excesso informacional não significa reduzir o acesso à informação, mas melhorar a capacidade coletiva de organizá-la, verificá-la e hierarquizá-la. Escolas, universidades e meios de comunicação têm papel central nesse processo, especialmente por meio da educação midiática, que ensina desde cedo a avaliar criticamente fontes e conteúdos, uma habilidade que se tornou tão essencial quanto a alfabetização tradicional na sociedade contemporânea.
Para aprofundar a discussão sobre esse tema, vale explorar também os artigos sobre fake news, pós-verdade e sociologia digital, disponíveis no Café com Sociologia.


