Feminismo negro: conceito, história e principais pensadoras
Feminismo negro: conceito, trajetória histórica e principais autoras que sustentam essa corrente teórica.

Feminismo Negro: Conceito, História e 7 Autoras Essenciais

Feminismo negro é o nome dado à corrente do pensamento e do ativismo feminista que parte da experiência das mulheres negras para analisar como raça, gênero e classe se combinam na produção das desigualdades sociais. O termo não descreve apenas uma variação do feminismo tradicional.

Ele nasce da constatação de que o movimento feminista hegemônico, construído majoritariamente por mulheres brancas de classe média, não dava conta das opressões específicas vividas pela mulher negra.

No Brasil, essa corrente ganhou corpo institucional a partir do final dos anos 1970, com a atuação de pensadoras como Lélia Gonzalez e Sueli Carneiro. Suas contribuições continuam presentes nos currículos de Sociologia, Filosofia e História, e aparecem com frequência em provas de vestibular e concursos públicos.

Este texto reúne o conceito de feminismo negro, sua trajetória histórica nos Estados Unidos e no Brasil, os principais conceitos que sustentam essa perspectiva teórica (interseccionalidade, amefricanidade e lugar de fala), dados atuais sobre desigualdade racial e de gênero, e sugestões de atividades para professores que trabalham o tema em sala de aula.

Feminismo negro: conceito, história e principais pensadoras
Feminismo negro: conceito, trajetória histórica e principais autoras que sustentam essa corrente teórica.

O que é feminismo negro?

O feminismo negro parte de uma pergunta simples: o que acontece quando gênero e raça se cruzam na vida de uma mulher? A resposta molda toda a teoria. Para essa corrente, não é possível entender a opressão da mulher negra somando separadamente o racismo e o machismo que ela sofre. Os dois operam juntos, produzindo uma experiência distinta da vivida por mulheres brancas ou por homens negros.

Essa ideia rompe com a expectativa de que existe uma mulher genérica, cuja experiência representaria todas as mulheres. O feminismo negro mostra que raça, gênero, classe e sexualidade se articulam de formas específicas em cada contexto histórico. Uma trabalhadora doméstica negra no Brasil dos anos 1980 enfrentava barreiras que uma professora universitária branca da mesma época não conhecia.

A socióloga estadunidense Patricia Hill Collins chama esse processo de matriz de dominação: um sistema em que raça, gênero, classe e sexualidade operam ao mesmo tempo, reforçando-se mutuamente. Já a jurista Kimberlé Crenshaw, em 1989, usou o termo interseccionalidade para nomear esse cruzamento, mostrando como a lei costuma tratar raça e gênero como categorias separadas e por isso falha em proteger mulheres negras de discriminações combinadas.

Vale diferenciar o feminismo negro do feminismo em sentido amplo. Enquanto o feminismo geral busca a igualdade entre homens e mulheres, o feminismo negro pergunta: igualdade em relação a quem? Para conhecer as correntes gerais do movimento feminista antes de avançar neste texto, veja o artigo O que é feminismo?, publicado no Café com Sociologia.

Origem e história do movimento

As raízes nos Estados Unidos

Nos Estados Unidos, as raízes do feminismo negro remontam ao século XIX, quando mulheres como Sojourner Truth questionaram publicamente a exclusão das mulheres negras dos discursos sobre direitos femininos, ainda sob o regime da escravidão.

O movimento ganhou contornos teóricos mais definidos na década de 1970, quando o Combahee River Collective, coletivo fundado em 1974 em Boston, publicou uma declaração afirmando que raça, gênero, classe e sexualidade não podem ser tratadas separadamente.

Nas décadas seguintes, autoras como Angela Davis, bell hooks e Patricia Hill Collins consolidaram essa perspectiva academicamente. A obra Black Feminist Thought, de Collins, publicada em 1990, tornou-se referência obrigatória nos estudos de gênero e raça em universidades de todo o mundo, incluindo o Brasil.

A trajetória no Brasil

No Brasil, essa vertente se organiza como movimento autônomo a partir do final dos anos 1970, dentro do Movimento Negro Unificado (MNU). As mulheres negras que participavam do MNU perceberam que a liderança masculina do movimento não priorizava as questões de gênero, enquanto o movimento feminista da época, majoritariamente branco, ignorava o racismo. Dessa dupla exclusão nasceu o Movimento de Mulheres Negras (MMN).

O jornal Nzinga Informativo, considerado um dos primeiros periódicos autônomos dessa vertente no Brasil, foi um espaço importante para articular essas pautas na década de 1980. Nesse período, Lélia Gonzalez publicou o artigo Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira (1983), texto que se tornou referência para o pensamento social brasileiro sobre raça e gênero.

Em 30 de abril de 1988, Sueli Carneiro e outras nove mulheres negras fundaram, em São Paulo, o Geledés Instituto da Mulher Negra, uma das organizações mais influentes do país na defesa dos direitos das mulheres negras. Também em 1988, Gonzalez publicou Por um Feminismo Afro-Latino-Americano, propondo o conceito de amefricanidade, que será detalhado mais adiante neste texto.

Nas décadas seguintes, essa vertente brasileira se expandiu para as universidades e para o debate público, impulsionado por autoras como Djamila Ribeiro, Jurema Werneck e Conceição Evaristo, além de coletivos de base espalhados por diferentes regiões do país. Para situar essa trajetória no conjunto mais amplo das ondas do feminismo, veja também o artigo O que são feminismos e quais suas histórias?, do Café com Sociologia.

Diferenças entre feminismo negro e feminismo hegemônico

O feminismo hegemônico, historicamente protagonizado por mulheres brancas de classe média, construiu suas pautas a partir de experiências específicas desse grupo. A luta pelo direito ao trabalho remunerado fora de casa, por exemplo, fazia sentido para mulheres que viviam confinadas ao espaço doméstico. Mulheres negras, escravizadas e depois assalariadas em trabalhos domésticos e braçais, já trabalhavam fora de casa havia séculos.

Essa diferença de ponto de partida gera pautas distintas. Sueli Carneiro resume esse deslocamento na expressão “enegrecer o feminismo”: trazer para dentro do movimento feminista as questões que o recorte racial evidencia, como a violência policial contra homens negros, a mortalidade materna de mulheres negras e a hipersexualização de corpos negros na mídia.

Essa corrente também questiona padrões estéticos e culturais que privilegiam características associadas à branquitude, como cabelos lisos e traços finos. Para aprofundar como a sociologia discute os papéis de gênero de forma mais ampla, veja também o artigo Definição de mulher: breves apontamentos, publicado no Café com Sociologia.

A dimensão de classe reforça essas diferenças. Enquanto parte do feminismo hegemônico concentrou esforços em ampliar a presença de mulheres em cargos de liderança e em profissões de prestígio, o movimento liderado por mulheres negras historicamente precisou lutar antes por direitos trabalhistas básicos, como carteira assinada e jornada regulamentada para trabalhadoras domésticas, categoria majoritariamente negra no país.

Conceitos fundamentais da teoria

Quatro conceitos aparecem com frequência nessa literatura teórica e ajudam a entender sua base teórica: interseccionalidade, amefricanidade, lugar de fala e imagens de controle. Cada um deles nasceu para responder a um problema concreto de invisibilidade das mulheres negras.

Interseccionalidade

A interseccionalidade é talvez o conceito mais citado quando se fala em feminismo negro. Criado pela jurista estadunidense Kimberlé Crenshaw em 1989, o termo nasceu de uma análise jurídica. Crenshaw observou que tribunais dos Estados Unidos julgavam casos de discriminação racial e de discriminação de gênero separadamente, sem reconhecer que uma mulher negra pode sofrer discriminação exatamente por ser mulher negra.

A autora usou a imagem de um cruzamento de ruas para ilustrar a ideia. Se um acidente ocorre num cruzamento onde trafegam carros vindos de várias direções, é difícil dizer que apenas um carro causou o dano. Da mesma forma, quando uma mulher negra sofre discriminação, raça e gênero costumam agir juntos, e não é possível isolar qual dos dois pesou mais.

No Brasil, pesquisadoras como Helena Hirata ampliaram esse debate ao discutir também a categoria classe, formando a tríade raça, gênero e classe. A interseccionalidade se tornou ferramenta metodológica usada em pesquisas de Sociologia, Direito, Serviço Social e Educação.

Uma revisão acadêmica recente, publicada pela Universidade Federal de Minas Gerais, discute em detalhe a relação entre interseccionalidade e amefricanidade na obra de Lélia Gonzalez.

Amefricanidade

Amefricanidade é um conceito criado pela intelectual brasileira Lélia Gonzalez no texto A Categoria Político-Cultural de Amefricanidade, publicado em 1988. Gonzalez propôs o termo para nomear um processo histórico e cultural comum a todo o continente americano, marcado pela presença africana desde o período colonial, indo além das fronteiras nacionais.

A proposta rompe com a ideia de que a identidade negra brasileira deveria ser pensada apenas a partir de referências europeias ou norte-americanas. Para Gonzalez, existe uma matriz cultural amefricana, presente na língua, na religiosidade, na culinária e nos modos de organização social de países como Brasil, Estados Unidos, Cuba e Haiti, entre outros.

Gonzalez também cunhou o termo pretuguês para descrever a marca das línguas africanas na formação do português falado no Brasil, um argumento que valoriza a contribuição africana na própria estrutura da língua nacional, geralmente atribuída apenas à herança portuguesa e indígena.

Lugar de fala

O conceito de lugar de fala, popularizado no Brasil pela filósofa Djamila Ribeiro em seu livro de mesmo nome (2017), discute a relação entre posição social e produção de conhecimento. A ideia central é que o lugar que uma pessoa ocupa, em termos de raça, gênero e classe, influencia o que ela pode enxergar e falar sobre determinados temas a partir da própria vivência.

Ribeiro se apoia em autoras como a filósofa Linda Alcoff para defender que vozes historicamente silenciadas, como as de mulheres negras, indígenas e trabalhadoras domésticas, precisam ocupar espaço na produção acadêmica, e não apenas serem objeto de estudo de terceiros.

O conceito gerou debates intensos na esfera pública brasileira. Para uma leitura aprofundada, o Café com Sociologia já publicou o artigo Lugar de fala, que lugar é esse?

Imagens de controle

Patricia Hill Collins desenvolveu o conceito de imagens de controle para explicar como estereótipos sobre mulheres negras cumprem uma função social específica: justificar e naturalizar sua exploração e marginalização. Figuras como a “mãe preta” e a mulher hipersexualizada não são retratos aleatórios. Elas moldam a forma como a sociedade trata as mulheres negras no mercado de trabalho, na saúde e na segurança pública.

No Brasil, essas imagens de controle aparecem em construções como a “mulata” erotizada da mídia e do turismo, ou a associação automática entre mulheres negras e trabalho doméstico. Reconhecer esses estereótipos é um passo importante para o trabalho pedagógico sobre racismo e representação, tema também discutido no artigo O que é racismo enquanto fenômeno social, do Café com Sociologia.

Relação com o feminismo decolonial

Parte da literatura recente aproxima essa tradição do chamado feminismo decolonial, corrente latino-americana que discute como o colonialismo europeu impôs categorias de gênero estranhas às organizações sociais indígenas e africanas anteriores à colonização. A filósofa argentina María Lugones, uma das principais referências dessa vertente, cunhou a expressão colonialidade de gênero para descrever esse processo.

No Brasil, autoras associam essa leitura decolonial à obra de Lélia Gonzalez, já que o conceito de amefricanidade antecipou, em boa medida, questões que o pensamento decolonial latino-americano desenvolveria décadas depois. Por isso, alguns programas de pós-graduação em Ciências Sociais já tratam o tema sob o título de feminismo negro decolonial, unindo as duas tradições numa mesma chave de leitura.

Principais pensadoras e referências

Conhecer as autoras que sustentam o feminismo negro ajuda a entender a diversidade de abordagens dentro dessa corrente teórica. As listas abaixo reúnem referências internacionais e brasileiras centrais para o tema.

Referências internacionais

  • Sojourner Truth (1797-1883): ex-escravizada e oradora estadunidense, autora do discurso “E não sou eu uma mulher?”, pronunciado em 1851.
  • Angela Davis (1944): filósofa e ativista, autora de Mulheres, Raça e Classe (1981), obra que relaciona escravidão, capitalismo e opressão de gênero.
  • bell hooks (1952-2021): escritora e crítica cultural, autora de E Eu Não Sou uma Mulher? (1981) e Ensinando a Transgredir (1994).
  • Patricia Hill Collins (1948): socióloga, autora de Pensamento Feminista Negro (1990), obra que sistematiza a epistemologia do feminismo negro.
  • Audre Lorde (1934-1992): poeta e ensaísta, autora de Irmã Outsider, coletânea que discute silêncio, raiva e diferença como ferramentas políticas.

Referências brasileiras

  • Lélia Gonzalez (1935-1994): filósofa e antropóloga, criadora dos conceitos de amefricanidade e pretuguês, autora de Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira (1983).
  • Sueli Carneiro (1950): filósofa, doutora em Educação pela USP e fundadora do Geledés Instituto da Mulher Negra, em 1988.
  • Conceição Evaristo (1946): escritora, criadora do conceito de escrevivência, que une literatura e experiência de vida das mulheres negras.
  • Jurema Werneck (1963): médica sanitarista e ativista, ex-diretora executiva da Anistia Internacional Brasil.
  • Djamila Ribeiro (1980): filósofa, autora de Lugar de Fala (2017) e organizadora da coleção Feminismos Plurais.

Essas autoras, entre tantas outras, produziram um conjunto de obras que hoje orienta pesquisas, políticas públicas e práticas pedagógicas voltadas para a equidade racial e de gênero no Brasil.

Dados e desigualdades no Brasil

Os números ajudam a entender por que o feminismo negro segue relevante como perspectiva teórica. Levantamento do Ministério do Trabalho e Emprego, divulgado em novembro de 2024 com base na Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), mostra que a combinação de racismo e sexismo produz desigualdades que não aparecem quando raça ou gênero são analisados isoladamente.

Indicadores de desigualdade racial e de gênero no mercado de trabalho brasileiro
IndicadorMulheres negrasGrupo de comparação
Taxa de desemprego (2º trimestre de 2024)10,1%4,6% entre homens não negros
Informalidade no trabalho (2º trimestre de 2024)41%9,1 pontos percentuais a menos entre mulheres não negras
Remuneração em relação a homens brancos (RAIS 2023)50,2%100% (referência salarial)
Taxa composta de desemprego e subocupação16,7%7,5% entre homens não negros

Esses dados confirmam, na prática, o que a interseccionalidade descreve na teoria: mulheres negras não enfrentam a simples soma do racismo com o machismo, mas uma forma específica de desigualdade, que as coloca em desvantagem mesmo quando comparadas a outras mulheres ou a outros trabalhadores negros. A fonte completa dos dados está disponível na publicação do Ministério do Trabalho e Emprego sobre desigualdade racial no mercado de trabalho.

Para discutir com os estudantes como discursos sobre esforço individual costumam ignorar esse tipo de desigualdade estrutural, veja também o artigo A meritocracia, racismo e conhecimento sociológico, do Café com Sociologia.

Feminismo negro na educação e na BNCC

O ensino sobre feminismo negro em sala de aula tem respaldo legal e curricular. A Lei 10.639, sancionada em 2003, tornou obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira na educação básica, o que inclui a trajetória de mulheres negras na formação social do país.

Na Base Nacional Comum Curricular, a habilidade EM13CHS105 orienta o estudante a analisar e caracterizar as demandas dos movimentos sociais contemporâneos, o que abrange diretamente o feminismo negro. A área de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas também prevê, em suas competências gerais, o desenvolvimento do senso crítico sobre desigualdades étnico-raciais e de gênero.

Trabalhar esse tema em Sociologia permite conectar teoria e realidade concreta dos estudantes, especialmente em turmas com presença significativa de alunas e alunos negros. Professores que desejam aprofundar a relação entre BNCC e o ensino de Sociologia podem consultar o artigo Competências e habilidades da BNCC e o ensino de Sociologia, publicado no Café com Sociologia.

Como trabalhar o tema em sala de aula

Algumas estratégias pedagógicas ajudam a tornar o tema concreto para estudantes do Ensino Médio e da graduação:

  1. Roda de leitura com trechos de Lélia Gonzalez, Sueli Carneiro ou Djamila Ribeiro, seguida de debate orientado por perguntas-guia.
  2. Análise de letras de música e poesia de autoras negras contemporâneas, relacionando linguagem artística e denúncia social.
  3. Pesquisa em dados oficiais, como IBGE e RAIS, sobre desigualdade racial e de gênero no mercado de trabalho da região dos estudantes.
  4. Exibição de documentários sobre trajetórias de mulheres negras, seguida de produção de resenha crítica em grupo.
  5. Debate estruturado sobre a diferença entre feminismo hegemônico e feminismo negro, com grupos representando argumentos distintos.
  6. Produção de podcast ou vídeo curto entrevistando mulheres da comunidade escolar sobre suas experiências de trabalho e estudo.

Essas atividades dialogam diretamente com a habilidade EM13CHS105 da BNCC e podem ser adaptadas a diferentes cargas horárias, desde uma aula única até um projeto interdisciplinar de várias semanas.

Cultura e ativismo digital

Nos últimos anos, essa corrente ganhou visibilidade também fora da academia, por meio da literatura, da música e das redes sociais. Conceição Evaristo popularizou o conceito de escrevivência, unindo narrativa literária e experiência vivida por mulheres negras.

Coletivos e páginas de divulgação em redes sociais ajudaram a difundir conceitos como interseccionalidade e lugar de fala para um público mais amplo, fora dos muros da universidade. Esse processo trouxe ganhos de alcance, mas também simplificações do debate original, o que reforça a importância de voltar às fontes primárias, como os textos de Lélia Gonzalez e Patricia Hill Collins, ao ensinar o tema.

O mercado editorial também mudou nos últimos anos. Coleções como Feminismos Plurais, organizada por Djamila Ribeiro, e a reedição de obras de Lélia Gonzalez por editoras de grande circulação ampliaram o acesso a essas autoras fora dos círculos acadêmicos, algo raro até o início dos anos 2010.

O ciberativismo também impulsionou debates sobre representatividade em espaços de poder, como política, mídia e mercado editorial, ampliando a cobrança por presença de mulheres negras em posições de decisão. Uma leitura institucional sobre a origem do movimento, incluindo dados sobre violência e mercado de trabalho, está disponível no artigo do Geledés Instituto da Mulher Negra sobre o tema.

Perguntas frequentes

O que é feminismo negro, em resumo?

Feminismo negro é a corrente do pensamento feminista que analisa a opressão da mulher negra a partir do cruzamento entre raça, gênero e classe, questionando a ideia de uma experiência feminina universal.

Feminismo negro e feminismo interseccional são a mesma coisa?

Não exatamente. O feminismo negro é o movimento e a tradição teórica construída por mulheres negras. A interseccionalidade é um dos conceitos centrais dessa tradição, mas também é usada em outras análises que combinam categorias como classe, sexualidade e deficiência.

Quem são as principais fundadoras do feminismo negro no Brasil?

Não existe uma única fundadora, mas Lélia Gonzalez e Sueli Carneiro são as referências mais citadas na consolidação teórica e institucional do feminismo negro brasileiro a partir das décadas de 1970 e 1980.

O que é interseccionalidade, de forma simples?

Interseccionalidade é o conceito, criado por Kimberlé Crenshaw em 1989, que explica como raça, gênero e outras categorias sociais se combinam para produzir formas específicas de discriminação, que não se explicam observando cada categoria separadamente.

O feminismo negro se opõe ao feminismo em geral?

Não. O feminismo negro se apresenta como uma crítica interna ao movimento feminista, cobrando que as pautas de raça e classe sejam incorporadas, e não como uma negação da luta pela igualdade de gênero.

Qual a relação entre feminismo negro e movimento negro?

São movimentos próximos, mas distintos. O movimento negro tradicionalmente priorizou pautas raciais gerais, muitas vezes sob liderança masculina. As mulheres que hoje sustentam essa corrente feminista surgiram justamente da crítica à ausência de uma perspectiva de gênero dentro do movimento negro.

Como o tema costuma aparecer em provas como o Enem?

Questões sobre o tema costumam relacionar o conceito a movimentos sociais, desigualdade racial e de gênero no mercado de trabalho, e à obra de autoras como Lélia Gonzalez, Sueli Carneiro e Djamila Ribeiro.

Considerações finais

O feminismo negro oferece um instrumento teórico indispensável para entender desigualdades que persistem mesmo com avanços legais e institucionais no Brasil. Ao unir raça, gênero e classe numa mesma análise, essa corrente evita explicações parciais e ajuda estudantes, professores e pesquisadores a enxergar a complexidade das relações sociais brasileiras.

Para quem trabalha com Sociologia, incorporar esse tema ao currículo não é apenas uma exigência legal, mas uma forma de aproximar o conteúdo da sala de aula da experiência concreta de parte significativa dos estudantes brasileiros. Autoras como Lélia Gonzalez, Sueli Carneiro, Djamila Ribeiro e Conceição Evaristo continuam oferecendo ferramentas conceituais atuais para pensar o Brasil contemporâneo.

Este texto reuniu conceito, história, autoras e sugestões práticas para apoiar esse trabalho pedagógico. A leitura direta das obras citadas continua sendo o melhor caminho para aprofundar cada um dos temas apresentados aqui.

Roniel Sampaio Silva

Doutorando em Educação, Mestre em Educação e Graduado em Ciências Sociais e Pedagogia. Professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Piauí – Campus Teresina Zona Sul.

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