Edmund Husserl tinha um apelido para Alfred Schutz: banqueiro de dia, filósofo à noite. Não era exagero. A partir de 1927, Schutz ocupou um cargo executivo no Reitler and Company, banco vienense com negócios em vários países, e escrevia nas horas que sobravam. Foi nesse regime que ele publicou, em 1932, o livro que deu origem à fenomenologia social (BARBER, 2021).
A fenomenologia social estuda como pessoas comuns dão sentido ao mundo em que vivem. Em vez de começar pelas grandes estruturas, ela faz uma pergunta mais rente ao chão: como a sociedade aparece para quem está dentro dela? Por que achamos óbvio que o ônibus vai parar no ponto, que o colega vai responder ao bom-dia, que a professora vai fazer a chamada?
A pergunta da fenomenologia social parece pequena, mas sustenta boa parte da sociologia do século XX. Dela saíram a ideia de construção social da realidade, a etnometodologia e uma série de métodos de pesquisa qualitativa usados hoje em educação e saúde. Para quem está na licenciatura, a fenomenologia social também oferece um jeito de olhar a escola por dentro.
Abaixo estão a origem da corrente, os sete conceitos que Schutz deixou, a contribuição de Berger e Luckmann, as críticas mais conhecidas e uma atividade pronta para usar em sala.
O que é fenomenologia social?
Fenomenologia social é a corrente sociológica que descreve como os significados da vida cotidiana são produzidos, partilhados e transmitidos entre as pessoas. O objeto dela é o mundo da vida: aquilo que tomamos como dado antes de qualquer teoria. O sociólogo, nessa perspectiva, constrói conceitos sobre os conceitos que os próprios atores já usam para se orientar no dia a dia (SCHUTZ, 2018).
Qual a diferença entre fenomenologia e fenomenologia social?
A fenomenologia nasceu na filosofia. Edmund Husserl (1859-1938) propôs um método para descrever a estrutura da experiência, suspendendo as certezas do senso comum para observar como a consciência apreende as coisas. O lema era voltar às coisas mesmas. Ele chamou de intencionalidade o fato de a consciência ser sempre consciência de algo (HUSSERL, 2008).
Schutz levou esse método para outro lugar. Husserl queria chegar às estruturas da consciência pura; Schutz queria entender o mundo que compartilhamos com os outros. Para ele, a intersubjetividade não precisava ser deduzida pela reflexão filosófica. Bastava descrevê-la como ela acontece na vida diária, onde ninguém duvida que os outros existem (BARBER, 2021).
Fenomenologia social e sociologia fenomenológica são a mesma coisa?
Na prática, sim. Os dois nomes circulam como sinônimos na literatura, e ambos remetem a Schutz como fundador. Alguns autores preferem “sociologia fenomenológica” para marcar que se trata de uma sociologia, e não de um ramo da filosofia. O conteúdo é o mesmo.
Alfred Schutz: de Viena a Nova York
Alfred Schutz nasceu em Viena, em 1899. Estudou Direito e Ciências Sociais na Universidade de Viena e frequentou o círculo de Ludwig von Mises, onde conviveu com economistas e filósofos. Leu Max Weber cedo e gostou do que leu, mas achava que a noção weberiana de ação dotada de sentido ainda precisava de fundamento (BARBER, 2021). Weber falava em compreender o sentido da ação; Schutz queria saber como esse sentido se forma na consciência de quem age.
Por sugestão do amigo Felix Kaufmann, ele foi buscar a resposta em Husserl. O resultado foi Der sinnhafte Aufbau der sozialen Welt, de 1932, livro fundador da fenomenologia social, traduzido no Brasil como A construção significativa do mundo social (SCHUTZ, 2018). Um detalhe que costuma aparecer errado em resumos: Schutz não foi aluno de Husserl. Os dois se corresponderam e se encontraram, e Husserl elogiou o livro, mas a formação de Schutz foi outra. Quem quiser rever o pano de fundo weberiano encontra apoio nos textos sobre sociologia compreensiva e sobre o weberianismo.
Com a anexação da Áustria pela Alemanha nazista, em março de 1938, Schutz estava em Paris a trabalho e ficou meses separado da família. Em julho de 1939, emigrou para os Estados Unidos. A partir de 1943 deu aulas de Sociologia e Filosofia na New School for Social Research, em Nova York, sem largar o banco. Morreu em 1959, deixando manuscritos que Thomas Luckmann organizou e publicou depois (BARBER, 2021). Há um resumo biográfico mais curto no post sobre a teoria de Alfred Schutz.
Os 7 conceitos essenciais da fenomenologia social
A obra de Schutz é extensa, mas sete conceitos resumem a fenomenologia social. Eles se apoiam uns nos outros, então vale ler na ordem.
1. Mundo da vida
O mundo da vida (Lebenswelt) é o horizonte de evidências em que vivemos antes de qualquer reflexão. Sabemos que a rua continua lá quando viramos a esquina, que a moeda vale alguma coisa, que a fila do banco tem uma ordem. Ninguém aprendeu isso num livro. Na fenomenologia social, é o chão sobre o qual toda teoria, inclusive a sociológica, se apoia.
2. Atitude natural
Atitude natural é a postura com que nos movemos nesse mundo: suspendemos a dúvida sobre ele. O filósofo suspende a crença no mundo para examiná-lo; o cidadão comum faz o contrário e suspende a dúvida para conseguir viver. Schutz achava que a sociologia deveria levar essa postura a sério, e não tratá-la como ignorância.
3. Tipificação
Na fenomenologia social, tipificações são esquemas generalizados que usamos para reconhecer pessoas, objetos e situações. “Motorista de aplicativo”, “aluno que senta no fundo”, “reunião que podia ser um e-mail”. Elas economizam esforço e tornam a vida previsível. Também podem virar estereótipo quando ninguém as revisa. Schutz notou que o tipo ideal de Weber não era invenção de cientista: as pessoas comuns já pensam por tipos o tempo todo (BARBER, 2021).
4. Estoque de conhecimento à mão
Cada pessoa carrega um estoque de conhecimento acumulado em experiências próprias e, sobretudo, recebido de outros: pais, professores, vizinhos, a internet. Esse estoque é socialmente distribuído. Ninguém sabe tudo, mas quase todo mundo sabe a quem perguntar. É por isso que a fenomenologia social também é uma sociologia do conhecimento.
5. Relevância
Nem tudo no mundo da vida chama nossa atenção. Selecionamos o que importa conforme nossos planos e a situação biográfica em que estamos. Um professor em greve olha a cidade de um jeito; um motorista de aplicativo, no mesmo dia, olha de outro. Schutz distinguia ainda as relevâncias que escolhemos daquelas que nos são impostas, como um vestibular que define o que um adolescente precisa estudar.
6. Intersubjetividade e relação face a face
Vivemos num mundo comum a mim e a você. Schutz organizou esse mundo em camadas: os consociados, com quem partilhamos tempo e espaço; os contemporâneos, que vivem no mesmo tempo mas não encontramos; os predecessores e os sucessores. Na relação face a face, ou relação “nós”, acompanhamos a experiência do outro enquanto ela acontece e corrigimos nossos tipos na hora. Quanto mais distante o outro, mais dependemos de tipos genéricos e maior o risco de mal-entendido (BARBER, 2021).
7. Motivos “para” e motivos “porque”
Toda ação tem dois tipos de motivo. O motivo “para” aponta ao futuro: estudo para passar no ENEM. O motivo “porque” aponta ao passado: escolhi Medicina porque cresci vendo minha mãe trabalhar num posto de saúde. Quem age vive o primeiro; o segundo quase sempre só aparece quando alguém olha para trás. Essa distinção da fenomenologia social ajuda bastante em entrevistas de pesquisa, porque obriga o pesquisador a separar o que o entrevistado pretendia do que explica a trajetória dele.
Berger e Luckmann e a construção social da realidade
Em 1966, Peter Berger (1929-2017) e Thomas Luckmann (1927-2016), ambos com passagem pela New School, publicaram A construção social da realidade. O livro levou a fenomenologia social de Schutz a um público muito maior e a transformou numa teoria geral de como o conhecimento comum se forma e se mantém. Luckmann ainda completaria, com base nos manuscritos do antigo professor, As estruturas do mundo da vida (SCHUTZ; LUCKMANN, 1973).
Berger e Luckmann (2007) descrevem três momentos que acontecem ao mesmo tempo. Na externalização, as pessoas agem e produzem um mundo. Na objetivação, esses produtos ganham aparência de coisa: viram instituições, papéis, linguagem. Na internalização, as novas gerações aprendem esse mundo como se ele sempre tivesse existido. Para durar, uma instituição precisa ainda ser legitimada, isto é, justificada por normas, narrativas e teorias.

É daí que vem a distinção entre socialização primária e secundária. A primária, em geral na família, apresenta o mundo como o único possível. A secundária, na escola, no trabalho, na igreja, apresenta submundos especializados e pode entrar em choque com a primeira. O mesmo vocabulário ajuda a pensar instituições sociais e papéis sociais.
O que significa dizer que a realidade é socialmente construída?
Esta é a pergunta que mais gera confusão em sala. Dizer que algo é socialmente construído não significa dizer que é falso, imaginário ou fácil de mudar. A escola, o casamento e o dinheiro são construções sociais e, ainda assim, pesam sobre a vida de qualquer um. O argumento de Berger e Luckmann (2007) é que essas instituições são produto humano, mas se apresentam a nós como fatos objetivos. A sociedade é, ao mesmo tempo, realidade objetiva e realidade subjetiva. O texto O que é construção social? desenvolve esse ponto com mais exemplos.
Herdeiros: Garfinkel, Goffman e a sociologia do cotidiano
Harold Garfinkel partiu da fenomenologia social de Schutz para criar a etnometodologia, que estuda os métodos práticos com que as pessoas produzem ordem nas interações (GARFINKEL, 2018). Seus famosos experimentos de quebra, como pedir a estudantes que agissem como hóspedes na própria casa, mostram na prática aquilo que Schutz descreveu: a atitude natural só fica visível quando alguém a interrompe.
Erving Goffman vem de outra tradição, a de Chicago, mas conversa com os mesmos problemas da fenomenologia social. Em A representação do eu na vida cotidiana, ele analisa a interação como uma encenação em que cada um administra a impressão que causa (GOFFMAN, 1999). O post sobre Goffman e o interacionismo simbólico ajuda a perceber onde as duas abordagens se encontram e onde se separam.
Como usar a fenomenologia social na pesquisa e na sala de aula
Na pesquisa, a fenomenologia social sustenta entrevistas compreensivas e estudos que tentam reconstruir o ponto de vista de quem vive uma situação. A área da saúde usa bastante esse referencial. Um estudo publicado na Revista da Escola de Enfermagem da USP, por exemplo, trata o cuidado como ação social e aplica os conceitos de Schutz à formação e à prática de enfermeiros (JESUS et al., 2013).
Na escola, o caminho mais simples para trabalhar a fenomenologia social é o estranhamento. Peça à turma que descreva a rotina escolar como se fosse um povo desconhecido. Logo aparecem as tipificações: “o professor bravo”, “a turma do fundão”, “o aluno que só aparece na prova”. A partir daí dá para discutir de onde vêm esses tipos, quem os reforça e o que eles escondem. A conversa costuma levar direto ao currículo oculto e aos temas de introdução à Sociologia.
Críticas e limites da fenomenologia social
A crítica mais citada vem de Pierre Bourdieu. Em Esboço de uma teoria da prática, ele aceita que a fenomenologia descreve bem a experiência do mundo como evidente, aquilo que chama de doxa. O problema, para ele, é que ela para aí. Não pergunta quais condições sociais tornam essa evidência possível nem a quem ela favorece (BOURDIEU, 2002). Para entender por que certos sentidos se impõem sobre outros, Bourdieu recorre a conceitos como capital simbólico e violência simbólica.
Jürgen Habermas fez uma crítica parecida por outro caminho. Ele aproveitou o conceito central da fenomenologia social, o mundo da vida, mas achou a versão de Schutz estreita demais, presa à cultura e pouco atenta às ordens institucionais. Na teoria dele, o mundo da vida convive com sistemas regidos pelo dinheiro e pelo poder administrativo, que tendem a colonizá-lo (HABERMAS, 2012; BARBER, 2021). Anthony Giddens acrescentou a ideia de dupla hermenêutica: os conceitos dos sociólogos voltam ao mundo social e mudam as práticas que pretendiam descrever (GIDDENS, 1978).
Os defensores de Schutz responderam. Pesquisadores como Daniela López e Jochen Dreher argumentam que a noção de relevâncias impostas permite, sim, analisar o poder institucional, porque mostra como estruturas objetivas definem o que as pessoas são obrigadas a considerar importante (BARBER, 2021). O debate segue aberto. Minha leitura é que as críticas valem como alerta, não como sentença: a fenomenologia social funciona melhor quando o pesquisador a combina com uma análise das desigualdades.
O que fica da fenomenologia social
A fenomenologia social de Schutz, Berger e Luckmann deixou um vocabulário para olhar o cotidiano com estranhamento. Mundo da vida, tipificação, relevância e intersubjetividade servem tanto para uma pesquisa de doutorado quanto para uma aula de 50 minutos no primeiro ano do ensino médio. A lição de método é simples de enunciar e difícil de praticar: antes de explicar uma estrutura, descubra como ela aparece para quem vive dentro dela.
Atividade: estranhando a escola com Schutz
Questão 1 (dissertativa). Em grupos, listem cinco tipificações usadas na escola de vocês para classificar alunos ou professores. Para cada uma, respondam: quem usa esse tipo, em que situações ele ajuda e em que situações ele prejudica alguém?
Questão 2 (múltipla escolha). Para Alfred Schutz, fundador da fenomenologia social, a atitude natural corresponde:
a) ao método filosófico de suspender a crença na existência do mundo.
b) à postura cotidiana em que as pessoas suspendem a dúvida sobre a realidade do mundo.
c) ao processo pelo qual as instituições ganham aparência de coisa.
d) à capacidade do cientista de observar a sociedade sem pressupostos.
e) ao conjunto de normas impostas pelo Estado aos indivíduos.
Questão 3 (análise). Uma estudante diz: “Escolhi fazer licenciatura para mudar a escola pública, porque estudei numa escola que me salvou.” Identifique o motivo “para” e o motivo “porque” dessa fala e explique a diferença entre eles.
Questão 4 (reflexão). Berger e Luckmann afirmam que a sociedade é, ao mesmo tempo, realidade objetiva e realidade subjetiva. Usando a escola como exemplo, explique essa afirmação em um parágrafo.
Gabarito comentado.
Questão 1: respostas pessoais; o professor pode retomar a ideia de que tipificações economizam esforço, mas viram estereótipo quando ninguém as revisa.
Questão 2: alternativa b. A alternativa a descreve a postura do filósofo, não a do cidadão comum; a c descreve a objetivação de Berger e Luckmann.
Questão 3: o motivo “para” é mudar a escola pública, voltado ao futuro; o motivo “porque” é a experiência numa escola que a “salvou”, voltada ao passado.
Questão 4: espera-se que o aluno mostre que a escola é produto humano (horários, regras, séries) e, ao mesmo tempo, se impõe a cada estudante como algo que já estava lá quando ele chegou.
Referências
BARBER, Michael. Alfred Schutz. In: ZALTA, Edward N. (ed.). The Stanford Encyclopedia of Philosophy. Stanford: Stanford University, 2021. Disponível em: https://plato.stanford.edu/entries/schutz/. Acesso em: 10 out. 2026.
BERGER, Peter L.; LUCKMANN, Thomas. A construção social da realidade: tratado de sociologia do conhecimento. 27. ed. Petrópolis: Vozes, 2007.
BOURDIEU, Pierre. Esboço de uma teoria da prática: precedido de três estudos de etnologia cabila. Oeiras: Celta, 2002.
GARFINKEL, Harold. Estudos de etnometodologia. Petrópolis: Vozes, 2018.
GIDDENS, Anthony. Novas regras do método sociológico. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.
GOFFMAN, Erving. A representação do eu na vida cotidiana. 8. ed. Petrópolis: Vozes, 1999.
HABERMAS, Jürgen. Teoria do agir comunicativo, 2: sobre a crítica da razão funcionalista. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2012.
HUSSERL, Edmund. A ideia da fenomenologia. Lisboa: Edições 70, 2008.
JESUS, Maria Cristina Pinto de et al. A fenomenologia social de Alfred Schütz e sua contribuição para a enfermagem. Revista da Escola de Enfermagem da USP, São Paulo, v. 47, n. 3, p. 736-741, 2013. DOI: 10.1590/S0080-623420130000300030.
SCHUTZ, Alfred. A construção significativa do mundo social: uma introdução à sociologia compreensiva. Petrópolis: Vozes, 2018.
SCHUTZ, Alfred; LUCKMANN, Thomas. The structures of the life-world. Evanston: Northwestern University Press, 1973.


