Preconceito, discriminação e xenofobia contra nordestinos/as

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Preconceito, discriminação e xenofobia contra nordestinos/as: elementos introdutórios para um debate em período eleitoral

Por Thiago de Jesus Esteves[1]

Inicialmente, destaco que não vivemos um momento de normalidade institucional e também de normalidade social, ao menos para os padrões correntes no Brasil, desde a promulgação da Constituição Federal de 1988. Tanto quando as instituições e os poderes do Estado, que são atacados e desacreditados sistematicamente, as regras e normas sociais basilares, com as quais nós convivíamos – cabe aqui fazer referência as mudanças observadas em um dos processos sociais mais fundamentais para o campo da Sociologia, a Socialização, por meio do qual aprendemos e transmitimos os conhecimentos necessários que nos constituem em seres humanos propriamente ditos – são deixadas de lado e convenientemente lembradas apenas quando existe algum ganho ou interesse para o grupo dominante.

Provavelmente, neste momento muitos pesquisadores devem estar se debruçando sobre esta complexa situação, e estudos ainda serão realizados, para nos auxiliar a compreender com exatidão os fenômenos sociais que estamos vivenciando. Entretanto, em uma breve análise do contexto internacional é possível concluir que tais fenômenos não são exclusivos do Brasil, o que é inquietante.

Em diversas partes do mundo, sem distinção entre países ricos e pobres, temos observado um substancial crescimento da intolerância, do preconceito e da discriminação, sobretudo, contra aqueles que de algum modo se diferenciam do “padrão dominante” e que são mais frágeis economicamente e socialmente. Não por acaso, esta história nos parece familiar: judeus e turcos na Alemanha, ciganos na Europa, irlandeses na Inglaterra, latinos nos Estados Unidos da América, Rohingyas no Mianmar. Mas, também poderíamos descrever o caso dos brasileiros e brasileiras em Portugal, haitianos aqui no Brasil e das populações africanas que chegam diariamente na Europa. Enfim, poderíamos construir uma lista imensa de grupos sociais ou pessoas que são discriminadas, em diferentes regiões do planeta, por sua raça, etnia ou, simplesmente, o seu local de nascimento.

Mas, se o fenômeno da discriminação de determinados grupos sociais não é uma novidade, o que teríamos de singular no caso do preconceito, discriminação e xenofobia que vivenciamos na atualidade?

Talvez, a grande novidade da fase atual destes processos de preconceito, discriminação e xenofobia contra grupos sociais, que temos observado na atualidade – e dentre os quais se enquadra os ataques que a população nordestina deste muito tempo tem sofrido, mas que vem aumentando de escala desde a eleição de 2014 – e que reputo, estão relacionados a revolução informacional, que popularizou e tornou acessíveis os aparelhos celulares, tablets, computadores e notebooks, dentre outros, bem como a internet e as redes sociais. Neste sentido, parafraseando o professor italiano Umberto Ecco, para quem a internet teria dado voz para uma legião de imbecis, eu acrescentaria também as redes sociais. Assim, a internet e as redes sociais contribuíram para a abertura de uma espécie de “caixa de pandora” moderna, na qual os demônios dos diversos tipos de preconceito, da discriminação, da xenofobia e do racismo – que acreditávamos estarem sob controle desde ao menos o fim da II Guerra Mundial e do processo de descolonização da África – fossem soltos sem nenhum tipo de controle. E como se não bastasse a falta de controle, estes demônios podem se esconder no anonimato de uma tela e de nomes e imagens falsos. Mas, como muitas outras questões em nossas vidas cotidianas, esta mesma internet e as redes sociais deram voz e rosto para quem antes não tinha, isto é para as populações excluídas, marginalizadas e periféricas.

Mas retomando ao tema deste artigo, preconceito, discriminação e xenofobia contra os/as nordestinos/as, eu gostaria de expor um primeiro incomodo com a própria concepção da palavra nordestino, que me parece uma generalização pouco adequada para retratar a população de uma região com 1.558.000 KM², ou seja, maior do que qualquer país europeu, a exceção da Rússia, e que são divididos em 9 estados (Alagoas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe) e que, sob praticamente qualquer aspecto que se queira tratar, apresentam uma gigantesca diversidade.

Além disso, a região Nordeste possui a segunda maior população do país, com cerca de 53 milhões de pessoas e concentra o segundo maior quantitativo de eleitores aptos para votar, aproximadamente 42 milhões de eleitores. Mas, penso que, a influência do Nordeste é muito maior do que somente estes números. É bom lembrar, que uma parcela significativa das pessoas que residem, principalmente em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Pará e Amazonas, nasceram ou são descendentes de nordestinos. Eu mesmo, um orgulhoso neto, por parte de mãe, de alagoanos.

Neste sentido, chamo a atenção para a construção social de uma visão hegemônica sobre o Nordeste e sua população, na qual destaco o papel dos meios de comunicação, notadamente sediados na região Sudeste e dos intelectuais sudestinos. Tanto os meios de comunicação, como os intelectuais, construíram e propagaram ao longo dos anos uma visão do Nordeste associada a miséria e pobreza, como se pobres e miseráveis não existissem nas outras regiões do país. Tal visão, generalizava a região Nordeste, como se toda a região fosse um gigantesco sertão e caatinga, marcada pela falta de água e alimentos, com pessoas e animais esqueléticos. Esta imagem do Nordeste, foi eternizada na obra “Os Retirantes” do pintor sudestino Cândido Portinari.

Já pensaram se ao invés desta versão do Nordeste, tivéssemos uma outra, na qual fosse destacado as suas cores, a diversidade populacional, a alimentação (carne de sol, peixes, frutos do mar, azeite de dendê, leite de côco, Maria Isabel, cuscuz, paçoca, capote, macaxeira, só para citar alguns exemplos), as praias, as centenas de pontos turísticos, os sítios arqueológicos e as inúmeras manifestações culturais. Também seria possível falar dos fantásticos resultados que os/as estudantes e docentes nordestinos/as têm conquistado em nosso país e que são corroborados nas diversas avaliações educacionais, nas várias olimpíadas escolares e no significativo ingresso nos cursos superiores, em universidades de renome, tanto no Brasil, como no exterior. Penso que este seja um importante indício que devemos levar em consideração para compreender o processo de preconceito, discriminação e preconceito contra os/as nordestinos/as. O sucesso que este grupo vêm obtendo em diferentes campos, especialmente no campo educacional, pode estar diretamente relacionado aos ataques, sem qualquer tipo de fundamentação, que estão sofrendo, em especial no período eleitoral.

Tais ataques, sem nenhum tipo de fundamento objetivo, ocorre da parte de pessoas preconceituosas, racistas e xenofóbicas, que não se conformam em terem perdido o poder decisório que antes estava em suas mãos. Neste sentido, chamo a atenção para um período da história da nossa república, que ficou conhecido como “café com leite”, e que vidência a influência de São Paulo e Minas Gerais, na definição dos rumos políticos do país. Isto, apenas para citar um único exemplo.

A região Nordeste quebrou essa lógica de predomínio dos estados do Sudeste e do Sul da definição dos eleitos para a presidência da república. Além do ódio de classe, contra os mais pobres, agora convivemos com um tipo de preconceito motivado pelo exercício da cidadania. Os/As nordestinos estão votando majoritariamente nos candidatos do Partido dos Trabalhadores (PT), foi assim em 2014, com Dilma Rousseff, em 2018, com Fernando Haddad e agora em 2022, quando elevaram o candidato Luiz Inácio Lula da Silva a liderança no primeiro turno da disputa presidencial. Após estas eleições, nós, enquanto cidadãos teremos muitos desafios, mas não podemos nos esquecer, de que um dos principais será o estabelecimento de um novo marco civilizatório, no qual o Brasil, as suas cores e bandeira, sejam partilhadas por todos/as os/as brasileiros/as e não apenas por um grupo que se julga no direito de se apropriar do país, como tem feito a pouco mais de cinco séculos. E mais uma vez, o Nordeste parece destinado à função de salvador do nosso país.

Como citar este texto:

ESTEVES, Thiago de Jesus. Preconceito, discriminação e xenofobia contra nordestinos/as: elementos introdutórios para um debate em período eleitoral. Blog Café com Sociologia, out. 2022.

 

 

[1] Doutor em Educação (UFRRJ). Docente do Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (CEFET-RJ). E-mail: [email protected]

 

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Cristiano Bodart

Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), professor do Centro de Educação e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Pesquisador do tema "ensino de Sociologia". Autor de livros e artigos científicos.

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