Neofascismo é o nome que as ciências sociais dão aos movimentos surgidos depois de 1945 que retomam ideias centrais do fascismo histórico. A diferença está na roupa. Em vez de camisas negras e partido único, esses grupos disputam eleições, falam em nome da liberdade e usam as redes sociais como palanque.
O termo saiu dos livros de história e entrou no noticiário. Aparece em aulas de Sociologia, em questões de vestibular e em discussões de família. Nem sempre, porém, com precisão. Há quem chame qualquer adversário de fascista. Há também quem negue que o fenômeno exista.
Este guia foi escrito para professores, estudantes e pesquisadores que precisam de um conceito firme. Você vai entender o que é neofascismo, de onde ele vem, quais são suas características, como ele se diferencia do fascismo clássico e o que os dados mostram sobre o Brasil. No fim, há sugestões para a sala de aula e respostas às dúvidas mais comuns.
O que é neofascismo: definição sociológica
Em termos simples, neofascismo é o conjunto de ideologias, partidos e grupos posteriores à Segunda Guerra Mundial que preservam o núcleo do fascismo. Esse núcleo inclui o nacionalismo excludente, a desconfiança em relação à democracia liberal, a busca por inimigos internos e a aceitação da violência como ferramenta política.
O prefixo “neo” indica continuidade com mudança. O fascismo não voltou igual. Ele se reorganizou para sobreviver em sociedades onde o nazismo e o regime de Mussolini se tornaram sinônimo de crime. Por isso, muitos grupos neofascistas recusam o rótulo em público, mesmo quando reproduzem sua lógica.
Se você ainda precisa revisar a base do conceito, vale ler antes o texto para entender de uma vez o que é fascismo. Sem essa referência, fica difícil perceber o que mudou e o que permaneceu.
De onde vem o termo?
A palavra ganhou uso corrente na Itália do pós-guerra. Em dezembro de 1946, ex-integrantes da República Social Italiana fundaram o Movimento Social Italiano (MSI). O partido reunia nostálgicos de Mussolini e passou a disputar eleições dentro da nova república democrática.
A partir dali, pesquisadores passaram a chamar de neofascistas os grupos que expressavam admiração pelo regime derrotado e tentavam adaptá-lo. Com o tempo, o conceito se ampliou. Hoje ele abrange movimentos de vários países, com inimigos e símbolos diferentes, mas com uma matriz comum.
Fascismo como Estado e fascismo como movimento
Uma distinção ajuda muito. O fascismo pode ser um tipo de Estado, com partido único, polícia política e fim das liberdades civis. Mas ele também pode existir como ideologia e movimento de massas, sem controlar o governo. O cientista político Armando Boito Jr., inspirado em Nicos Poulantzas, insiste nessa separação.
Para Boito Jr., o fascismo é um movimento reacionário de massa, enraizado nas classes médias e movido por um discurso que critica a economia e o Estado de forma apenas superficial. Essa definição permite analisar o neofascismo mesmo onde não há ditadura. Ele pode crescer dentro da democracia e corroê-la aos poucos.
O historiador Robert Paxton segue raciocínio parecido. Em A anatomia do fascismo, ele descreve cinco estágios: a criação do movimento, o enraizamento no sistema político, a chegada ao poder, o exercício do poder e, por fim, a radicalização ou o esgotamento. A maioria dos grupos neofascistas nunca passa dos dois primeiros. Isso não os torna inofensivos.
Origens históricas: do pós-guerra ao século XXI
A história do neofascismo costuma ser contada em ondas. Cada uma reage a uma crise diferente e usa as ferramentas de comunicação disponíveis na época. Vale conhecer a origem do movimento original no artigo sobre a origem e o contexto histórico do fascismo. Apesar de marginalizada, essa primeira geração serviu como incubadora ideológica. Porém, conforme os veteranos envelheciam e a Guerra Fria mudava de fase, o movimento precisou se reinventar para sobreviver nas urnas.
Primeira onda: a nostalgia organizada (1945 a 1970)
Logo após a guerra, os grupos eram pequenos e defensivos. Reuniam veteranos, simpatizantes e publicações de circulação restrita. O objetivo principal era preservar a memória dos regimes derrotados e negar seus crimes. O MSI italiano foi o caso mais estruturado desse período. Essas ondas acompanham as grandes transformações políticas, econômicas e tecnológicas globais. Após a derrota das potências do Eixo em 1945, o fascismo não desapareceu; ele precisou se camuflar, adaptar seu discurso e encontrar novos inimigos para sobreviver em um mundo que havia acabado de rejeitá-lo violentamente.
Segunda onda: juventude, rua e imigração (1970 a 1990)
Nos anos 1970 e 1980, o foco mudou. A imigração vinda de ex-colônias virou alvo central. Surgiram gangues de skinheads em países europeus e partidos que misturavam ex-militantes neofascistas com conservadores tradicionais. A Frente Nacional francesa, fundada em 1972, é o exemplo mais citado dessa fusão. Com o fim do milagre econômico do pós-guerra e o início das grandes levas migratórias rumo à Europa, o neofascismo percebeu que a estética hitlerista era um obstáculo eleitoral. A grande virada foi estratégica e intelectual, liderada por pensadores da Nouvelle Droite (Nova Direita) francesa.
Terceira onda: crise, internet e rede transnacional (1990 em diante)
O fim da Guerra Fria, a globalização e a crise financeira de 2008 criaram um ambiente de insegurança. Empregos sumiram, cidades mudaram e a sensação de perda de status se espalhou. É o que Bauman chamou de medo difuso, tema explorado no texto sobre modernidade líquida.
A internet deu escala a esse mal-estar. Fóruns, canais fechados e vídeos curtos conectaram grupos antes isolados. Na Grécia, o partido Aurora Dourada chegou ao Parlamento e depois foi considerado organização criminosa pela Justiça, em 2020. Na Itália, a CasaPound ganhou visibilidade com ações de rua e forte presença digital.
Frequentemente associada ao termo alt-right (direita alternativa), essa geração utiliza o anonimato dos fóruns (como 4chan e Reddit), a cultura dos memes e a linguagem irônica para recrutar e radicalizar jovens. O alvo se ampliou: não é apenas o imigrante, mas o chamado “globalismo”, as instituições democráticas tradicionais, a imprensa e os direitos de minorias.
7 características básicas do neofascismo
Não existe uma lista oficial. Umberto Eco apontou 14 traços do que chamou de “fascismo eterno”. Jason Stanley reuniu dez pilares. Paxton preferiu falar em “paixões mobilizadoras”. Cruzando esses autores, é possível organizar sete características recorrentes. Nenhuma delas, isolada, define o fenômeno. O que importa é a combinação.
1. Nacionalismo excludente e passado mítico
O discurso neofascista inventa uma nação pura que teria existido no passado. Essa nação teria sido corrompida por estrangeiros, minorias ou elites culturais. A promessa é restaurá-la. Stanley chama isso de “passado mítico”. O problema é que esse passado nunca existiu da forma descrita.
Na prática, o nacionalismo vira ferramenta de exclusão. Quem não se encaixa no modelo de “verdadeiro cidadão” passa a ser tratado como ameaça. Essa lógica se aproxima do que o Café com Sociologia discute em xenofobia enquanto fenômeno social.
2. A política do “nós contra eles”
O neofascismo precisa de inimigos. Pode ser o imigrante, o comunista, o professor, o jornalista ou o movimento feminista. O alvo muda conforme o país. A estrutura permanece: de um lado, o povo virtuoso; do outro, os traidores. Essa divisão alimenta e se alimenta da polarização política.
3. Culto ao líder e anti-intelectualismo
O líder aparece como alguém que “fala a verdade” contra o sistema. Suas falas valem mais do que dados, leis ou especialistas. Universidades, cientistas e imprensa são descritos como elites arrogantes. O conhecimento técnico vira suspeito justamente porque pode desmentir o discurso oficial.
4. Violência como método
A violência não é tratada como exceção lamentável. Ela é celebrada como prova de coragem. Isso aparece em frases que glorificam a morte de “bandidos”, em ameaças a adversários e em ataques físicos a minorias. Achille Mbembe ajuda a pensar essa relação entre poder e morte no conceito de necropolítica.
5. Ataque às instituições por dentro
Aqui está a grande novidade. O fascismo clássico tomava o poder pela força. A versão atual, em geral, entra pelo voto. Depois, tenta enfraquecer tribunais, órgãos de controle, universidades e a imprensa. O objetivo é esvaziar a democracia sem precisar aboli-la no papel.
6. Propaganda digital e desinformação
Mussolini tinha jornais e rádio. Os grupos atuais têm algoritmos. Memes, vídeos curtos e correntes de mensagens circulam sem checagem e premiam conteúdos que provocam raiva. A propaganda deixou de ser centralizada. Ela se espalha por milhares de perfis que parecem independentes, mas repetem as mesmas pautas.
7. Vitimização e sequestro da ideia de liberdade
Um traço curioso do neofascismo contemporâneo é que ele se apresenta como vítima. Seus defensores dizem estar sendo censurados, perseguidos ou silenciados. A palavra “liberdade” é usada para justificar ataques a quem é diferente. Na prática, trata-se da liberdade de ofender sem consequências, reservada a quem está do lado certo.
Resumo para revisão: nacionalismo excludente, inimigo interno, culto ao líder, violência como método, ataque às instituições, propaganda digital e vitimização. Para memorização: lembre que o conceito exige a combinação desses traços, não a presença de um só.

Fascismo clássico e neofascismo: diferenças principais
Comparar os dois ajuda a evitar dois erros. O primeiro é achar que só existe fascismo quando háO neofascismo se tornou um dos temas mais debatidos na política e nas ciências sociais nas últimas décadas. Ao contrário do fascismo clássico dos anos 1920 e 1930, ele se adapta a contextos democráticos e utiliza ferramentas contemporâneas, como redes sociais e mídias digitais, para disseminar discursos de ódio e angariar seguidores. Este artigo explora as raízes, as características e as manifestações do neofascismo, com atenção especial ao Brasil e ao papel da educação no enfrentamento desse desafio.
1. O que é neofascismo: definição e origens
O termo neofascismo ganhou força nas ciências sociais para designar movimentos e regimes que, embora não sejam cópias fiéis do fascismo histórico, compartilham traços autoritários, nacionalistas e excludentes. O fascismo clássico, analisado por autores como Fascismo características, impactos e desdobramentos, surgiu em um contexto de crise econômica e instabilidade política, com exemplos na Itália de Mussolini e na Alemanha de Hitler. O neofascismo surgiu depois da Segunda Guerra Mundial, mas se intensificou a partir dos anos 1980 e 1990, com o avanço de partidos de extrema-direita na Europa e nas Américas.
1.1. Raízes históricas e rupturas
O fascismo clássico pregava abertamente a supressão da democracia e a criação de um Estado totalitário. O neofascismo, em sua maioria, opera dentro das regras democráticas para subvertê-las por dentro. Essa estratégia é analisada por estudiosos como O que é fascismo: alguns apontamentos, que destacam a capacidade desses movimentos de se apresentarem como defensores da liberdade de expressão, enquanto atacam minorias e instituições democráticas.
No Brasil, o neofascismo se manifestou em grupos organizados, milícias digitais e discursos políticos que ganharam visibilidade a partir de 2013 e se intensificaram nos anos seguintes. A Ditadura Militar no Brasil: golpe, repressão, 5 presidentes e abertura política serve como lembrete de como o autoritarismo já esteve no poder e deixou marcas profundas.
1.2. Contexto contemporâneo e globalização
A globalização e as crises econômicas criaram terreno fértil para o neofascismo. A sensação de insegurança e o medo do outro, alimentados por discursos xenófobos, encontram eco em parcelas da população. O O que é xenofobia enquanto fenômeno social? ajuda a compreender como a rejeição a imigrantes e refugiados se torna uma bandeira desses grupos.
Além disso, a crise da modernidade líquida, conceito de Zygmunt Bauman, contribui para a fragilidade dos laços sociais e a busca por identidades fixas e inimigos comuns. Veja mais em Modernidade Líquida: Conceito de Bauman e 6 Exemplos Atuais.
2. Características do neofascismo
O neofascismo não é um bloco monolítico, mas compartilha características que permitem identificá-lo. Entre elas, estão o nacionalismo exacerbado, a exaltação da violência, o culto à personalidade do líder, a propaganda massiva, o ataque a minorias e a deslegitimação da democracia liberal. Diferente do fascismo clássico da década de 1930, que propunha abertamente ditaduras totalitárias, o neofascismo contemporâneo frequentemente opera sob uma roupagem defensiva. Ele se apropria de ideias como “liberdade de expressão” e “defesa da família” para justificar suas ações, corroendo o sistema democrático por dentro.
2.1. Nacionalismo e xenofobia
O nacionalismo neofascista se baseia na ideia de uma nação pura e homogênea, ameaçada por estrangeiros e minorias. No Brasil, discursos contra nordestinos, indígenas e imigrantes refletem essa lógica. A intolerância se manifesta também contra a população LGBTQIA+, negros e mulheres. A xenofobia busca silenciar grupos oprimidos. Para este assunto recomendamos ” Lugar de fala, que lugar é esse? O contexto sócio-político e a polêmica obra de Djamila Ribeiro no qual a autora discute como grupos historicamente silenciados reivindicam espaço.
2.2. Culto à violência e ao líder
A violência é glorificada como solução para conflitos sociais. Líderes neofascistas se apresentam como salvadores da pátria, acima da lei e da moral convencional. Essa dinâmica foi observada em diversos países, como nos Estados Unidos durante o governo de Donald Trump, analisado em Donald Trump e o mundo de ponta-cabeça!.
O episódio mais emblemático dessa retórica na história recente ocorreu em 6 de janeiro de 2021, com a invasão do Capitólio dos Estados Unidos. Instigados pela narrativa de que a eleição havia sido roubada, grupos de extrema-direita e apoiadores radicalizados tentaram interromper a transição pacífica de poder pela força. A violência política, nesse contexto, deixou de ser um tabu e passou a ser celebrada por essas bases como um ato heroico de “reconquista” nacional e patriotismo, episódio que se repetiu no Brasil com os atos de 8 de janeiro.
2.3. Propaganda e redes sociais
As redes sociais se tornaram ferramentas poderosas para a disseminação do neofascismo. Memes, vídeos e mensagens rápidas atingem milhões, muitas vezes com desinformação. A O que é ideologia? ajuda a entender como discursos são construídos para manipular.
No ambiente digital, a ideologia não opera mais como uma doutrina rígida imposta de cima para baixo por um Ministério da Propaganda. Ela age como um filtro invisível que molda a percepção da realidade de forma personalizada, explorando as vulnerabilidades psicológicas de cada usuário.
Os memes são a principal porta de entrada para esse ecossistema. Por serem curtos, visuais e altamente compartilháveis, eles contornam o pensamento crítico. A extrema-direita contemporânea domina o uso da ironia e do humor “politicamente incorreto” para testar os limites do aceitável. Quando um discurso de ódio é disfarçado de “mera piada”, o extremismo é normalizado. Se alguém critica a mensagem, o autor recua e acusa o crítico de não ter senso de humor ou de ser excessivamente sensível.
3. Neofascismo e neonazismo: aproximações e diferenças
O neonazismo é uma vertente do neofascismo que se inspira diretamente no nazismo histórico, com símbolos, saudações e teorias raciais. No entanto, nem todo neofascismo é neonazista. Há movimentos que rejeitam o rótulo nazista, mas adotam práticas autoritárias e excludentes.
Enquanto o neonazismo exige a destruição imediata e violenta do Estado para a instauração de um etnoestado baseado na pureza racial, o neofascismo mais amplo (frequentemente travestido de direita populista radical) busca corroer as instituições democráticas por dentro, vencendo eleições e alterando as leis a seu favor.
3.1. Neonazismo no Brasil
O Brasil tem registrado um aumento de células neonazistas, especialmente entre jovens. Dados da Polícia Federal mostram operações contra grupos que pregam a supremacia branca. A O que é fascismo: algumas contribuições das ciências sociais oferece ferramentas para analisar esse fenômeno.
O monitoramento dessas células revela um crescimento exponencial e alarmante na última década. Pesquisas pioneiras, como as conduzidas pela falecida antropóloga Adriana Dias, uma das maiores especialistas no tema no país, mapearam um salto impressionante: o Brasil passou de algumas dezenas de grupos no início dos anos 2010 para mais de 530 células ativas identificadas em 2021 — número que continua em expansão.
3.2. Intolerância e crimes de ódio
A intolerância é o combustível do neofascismo. Crimes de ódio contra negros, LGBTQIA+, judeus e muçulmanos têm crescido. O O que são desigualdades sociais múltiplas? contextualiza como essas violências se entrelaçam com desigualdades estruturais.
O conceito de interseccionalidade, ou desigualdades sociais múltiplas, revela que o ódio neofascista não atinge todos os grupos de maneira igual, mas sim através de camadas sobrepostas de discriminação. A violência extremista não surge no vácuo; ela se aproveita de fraturas históricas que já marginalizam populações vulneráveis.
4. O neofascismo no Brasil: exemplos e dados
No Brasil, o neofascismo se manifesta em grupos como o Movimento Brasil Livre (MBL) em sua retórica anticomunista, em milícias digitais e em atos antidemocráticos. Segundo o IPEA, a violência política aumentou nos últimos anos. O IBGE também registra crescimento de discursos de ódio.
A transição do neofascismo brasileiro das margens da internet para o centro do poder político ocorreu de forma acelerada na última década, utilizando uma combinação de pânico moral e revisionismo histórico. Grupos que surgiram na esteira dos protestos de 2013, como o Movimento Brasil Livre (MBL), embora não se declarem fascistas e hoje tentem se distanciar de alas mais radicais, foram fundamentais para reintroduzir no debate público brasileiro um anticomunismo virulento e uma retórica agressiva de deslegitimação das instituições tradicionais e da imprensa.
4.1. Milícias digitais e fake news
Grupos organizados em redes sociais disseminam notícias falsas para atacar adversários e desestabilizar instituições. A Notas de Sociologia da Educação: contribuições para pensar as disputas pela Educação no Brasil mostra como a educação é campo de disputa.
A máquina de desinformação não opera de forma aleatória; ela possui alvos estratégicos muito bem definidos. Entre eles, o sistema educacional é um dos mais atacados. A sociologia nos mostra que a escola e a universidade não são espaços neutros, mas arenas centrais na disputa pela hegemonia cultural e política.
Para o neofascismo, o pensamento crítico, a ciência e a sociologia são ameaças diretas ao projeto autoritário. As milícias digitais direcionam campanhas massivas de fake news para descredibilizar a educação formal e seus profissionais através de táticas coordenadas.
4.2. Ataques à democracia
Os atos de 8 de janeiro de 2023 em Brasília são um exemplo claro de ação neofascista, com invasão de prédios públicos e pedidos de intervenção militar. A Redução da carga horária de Sociologia: entre ignorância e perversidade alerta para o desmonte do ensino crítico.
O ensino de disciplinas como Sociologia e Filosofia, que fornecem as ferramentas analíticas para compreender e questionar a realidade social, tornou-se um alvo prioritário. A redução da carga horária dessas matérias ou a tentativa de substituí-las por conteúdos puramente técnicos não é um mero ajuste curricular; é uma escolha política. O objetivo é formar trabalhadores funcionais para o mercado, mas destituídos da capacidade de reconhecer as engrenagens da desigualdade e da manipulação ideológica.
5. Como identificar o neofascismo no cotidiano
O neofascismo não é apenas um fenômeno distante; ele se infiltra em conversas, piadas e políticas públicas. Identificá-lo exige atenção a discursos que naturalizam a violência e a exclusão. Estar vigilante a esses sinais não significa enxergar o fascismo em cada discordância política, mas compreender que a corrosão das democracias modernas raramente começa com tanques nas ruas. Ela se inicia nas entrelinhas, na tolerância aos pequenos autoritarismos, no silêncio diante do preconceito e na perda progressiva da empatia coletiva.
5.1. Sinais de alerta
Frases como “bandido bom é bandido morto”, “isso é coisa de comunista” ou “vamos limpar o país” são indicativos. A O que são desigualdades sociais múltiplas? mostra como esses discursos se conectam a estruturas de poder.
O neofascismo não cria seus alvos do zero; ele instrumentaliza e aprofunda as desigualdades sociais múltiplas. Ao transformar o preconceito banal em uma plataforma política contínua, essas ideologias mobilizam o medo e o ressentimento da sociedade para preservar privilégios históricos, garantindo que as cúpulas de poder político e econômico permaneçam inquestionáveis e intactas.
5.2. O papel da educação
A educação é uma das principais armas contra o neofascismo. Professores podem promover o pensamento crítico e a empatia. O Notas de Sociologia da Educação traz contribuições valiosas.
O combate ao extremismo no ambiente escolar exige ir além de apelos abstratos sobre respeito e tolerância. Trata-se de construir uma práxis educativa que articule o rigor do saber científico com a vivência dos estudantes, transformando a educação formal em um autêntico instrumento de emancipação, de consciência social e de defesa inegociável da formação humana.
6. Considerações finais
O neofascismo é um desafio global e local. No Brasil, ele aparece em discursos, práticas e políticas que ameaçam a democracia e os direitos humanos. Entender suas raízes e características é o primeiro passo para combatê-lo, e a sociologia, com seus autores clássicos e contemporâneos, oferece instrumentos valiosos para essa análise. Não é um fenômeno passageiro: exige vigilância constante e ação coletiva. A educação, a imprensa livre e a mobilização social são nossas principais armas. Como escreveu Norberto Bobbio, a democracia não é um estado natural, mas uma conquista diária. Enfrentar o neofascismo é defender a própria possibilidade de convivência plural e justa.
Referências
BOBBIO, Norberto. O futuro da democracia: uma defesa das regras do jogo. Paz e Terra, 1986.
PAXTON, Robert O. A anatomia do fascismo. Paz e Terra, 2007.
STANLEY, Jason. Como funciona o fascismo: a política do “nós” e do “eles”. L&PM, 2018.
ECO, Umberto. O fascismo eterno. Record, 2018.
ADORNO, Theodor W. Estudos sobre a personalidade autoritária. Unesp, 2019.
REICH, Wilhelm. Psicologia de massa do fascismo. Martins Fontes, 1988.


