Ilustração de um círculo de cultura com adultos dialogando, representando a educação popular
Círculos de cultura são espaços típicos da educação popular

Educação Popular: Paulo Freire e outros em 6 princípios

A educação popular começou, no Brasil, como resposta a um número. No início dos anos 1960, milhões de adultos não sabiam ler, e quem não lia não votava. Em 2025, segundo o IBGE, ainda eram 8,4 milhões de pessoas com 15 anos ou mais nessa condição, e 58% delas tinham 60 anos ou mais. O problema encolheu sem sumir.

Tratar esse campo como sinônimo de alfabetização de adultos é um erro comum. A expressão nomeia uma tradição pedagógica e política latino-americana, sistematizada por Paulo Freire e discutida por Carlos Rodrigues Brandão, Moacir Gadotti e Maria da Glória Gohn. Ela muda o ponto de partida do ensino: quem aprende também ensina, e o conhecimento nasce da leitura crítica da realidade.

O texto está organizado em sete partes: definição, história, princípios, autores, comparação com conceitos vizinhos, dados do Brasil e críticas. Há uma tabela comparativa, um resumo para revisão, um vídeo de aula universitária e uma ilustração dos seis princípios.

Cada parte termina com uma sugestão de atividade para o ensino médio ou a graduação o qual o professor deve refinar e aprodundar a partir de seus objetivos específicos. São roteiros para adaptar, não relatos de aula. Se você ensina Sociologia ou estuda para o Enem, leia uma seção, aplique a atividade e volte ao texto com as dúvidas que surgirem.

educacao popular ilustracao

Educação popular é a prática educativa que parte da vida e do saber das classes populares para construir, com elas, uma leitura crítica da realidade e meios de transformá-la. A definição parece simples, mas carrega três escolhas: o ponto de partida é a experiência do povo, o método é o diálogo e a finalidade é política.

A palavra popular costuma enganar. No uso corrente, serve para o barato ou o massificado. Na tradição freireana, indica sujeito e origem: educação feita pelo povo e com o povo, não um produto simplificado oferecido a ele. Brandão (2006) descreve a mudança como a passagem de uma educação dirigida ao povo para uma educação em que o povo participa como sujeito. O termo tem duas origens. Antes dos anos 1960, educação popular designava sobretudo a escola primária e o ensino elementar que o Estado devia levar às camadas pobres. Foi na década de 1960, com os movimentos de cultura popular e com Paulo Freire, que a expressão ganhou o sentido político que hoje reconhecemos.

Brandão (2006) separa quatro sentidos históricos do termo, e a separação evita muita confusão. O primeiro é a educação da comunidade anterior à divisão social do saber, quando todos aprendiam trabalhando e participando de rituais. O segundo é a educação como ensino público, associada à luta pela escola laica e gratuita.

O terceiro sentido é o que interessa a este post: a educação das classes populares, nascida nos anos 1960 como movimento crítico. O quarto é um horizonte, a educação de uma sociedade igualitária, em que o saber deixaria de ser privilégio de poucos. Os dois primeiros são descrições históricas; os dois últimos são projetos políticos.

Brandão (2006) faz questão de dizer que a educação popular não é uma variante da educação de adultos. Para ele, a educação de adultos nasceu como oferta compensatória de organismos oficiais, enquanto a educação popular emergiu como movimento de trabalho político com as classes populares. A primeira corrige faltas; a segunda questiona o projeto inteiro. O livro está em edição aberta no Acervo Paulo Freire.

Educação formal, educação não formal e educação informal

Gohn (1999) organiza o campo em três categorias. A educação formal acontece nas escolas, com currículo, certificação e hierarquia de séries. A informal vem da socialização cotidiana, na família, no bairro, no grupo de amigos. A não formal se constrói em processos coletivos, em associações, sindicatos, movimentos e projetos comunitários, com intencionalidade educativa mas sem diploma.

A educação popular costuma ocupar o terceiro espaço, e daí vem outra confusão. Ela não se reduz à educação não formal: pode acontecer dentro da escola pública, quando professores adotam o diálogo e partem de temas geradores. Brandão (2006) chega a projetar que a educação pública se redefina, um dia, como educação popular em todos os níveis.

Também não se confunde com educação informal. O que a distingue é a intencionalidade política: há planejamento, mediação e uma meta de organização coletiva. Uma conversa de fim de tarde na calçada ensina muito, mas só vira educação popular quando alguém, de modo intencional, ajuda o grupo a nomear um problema comum e a agir sobre ele.

Sugestão de atividade: mapa conceitual dos quatro sentidos

Objetivo: comparar os quatro sentidos de educação popular descritos por Brandão com as categorias de Gohn.

Nível e duração: 3ª série do ensino médio ou graduação; 50 minutos.

  1. Em duplas, escrever os quatro sentidos em cartões, com um exemplo brasileiro em cada.
  2. Ligar os cartões a educação formal, não formal e informal.
  3. Trocar o mapa com outra dupla, que contesta uma ligação.

Avaliação: quatro sentidos corretos e três ligações justificadas.

A educação popular brasileira não nasceu de um decreto nem de um gabinete. Nasceu de uma combinação rara, descrita por Brandão (2006): governos de orientação populista, uma intelectualidade de estudantes, universitários e religiosos militantes, e novas formas de organização das classes populares, no começo dos anos 1960.

Antes disso, o país já tentava combater o analfabetismo por campanhas. Brandão (2006) lembra a Campanha Nacional de Educação de Adultos, de 1947, e outras cruzadas de alfabetização que misturavam espírito de missão religiosa e rotina de quartel. Os resultados, diz ele, nunca foram animadores. O terreno estava preparado, mas faltava uma ideia diferente de ensinar. Essa ideia veio de fora do Ministério. Paulo Freire assumiu em 1947 a direção de educação do Sesi, no Recife, e ali se interessou pela alfabetização de adultos, conforme a Agência Senado (2012). Com sua equipe, formulou uma proposta que unia a leitura da palavra à leitura do mundo. O que aconteceu quando ela chegou ao governo federal?

No começo da década de 1960, o Recife foi laboratório. O Movimento de Cultura Popular, criado em 1960, reuniu artistas, estudantes e educadores em escolas, praças e círculos de leitura. Brandão (2006) inclui o MCP, os Centros Populares de Cultura, o Movimento de Educação de Base e a Ação Popular entre os lugares que fundam a educação popular.

Em 1962, Freire criou e dirigiu o Serviço de Extensão Cultural da Universidade do Recife. Em abril de 1963, a equipe realizou a experiência de Angicos, no Rio Grande do Norte, alfabetizando trabalhadores rurais em círculos de cultura. O método partia de palavras do vocabulário do grupo, as palavras geradoras, e de imagens que representavam situações da vida local.

O governo de João Goulart quis ampliar a experiência. Freire coordenou o Plano Nacional de Alfabetização, com meta de tirar 5 milhões de pessoas do analfabetismo, segundo a mesma matéria. Em 1964, a ditadura militar encerrou o plano, prendeu e exilou Freire e criou, em 1967, o Mobral, que Brandão (2006) classifica entre as agências compensatórias.

Exílio, resistência e redemocratização

No exílio, Freire morou na Bolívia, no Chile, nos Estados Unidos e na Suíça. No Chile, em 1968, escreveu a Pedagogia do oprimido, segundo a Agência Senado. Nos anos 1970, atuou em países da África, da Ásia e da Oceania. A edição brasileira só veio em 1974, ainda sob a ditadura, quando a proposta já circulava pela América Latina.

Enquanto isso, dentro do país, a tradição mudou de abrigo. Sem universidades e ministérios disponíveis, passou a viver em comunidades eclesiais de base, associações de moradores e sindicatos. Brandão (2006) observa que, nos anos 1970, setores da chamada igreja popular fortaleceram movimentos populares, enquanto setores conservadores seguiram caminho oposto.

Com a anistia, Freire voltou ao Brasil em 1980. Em 1989, assumiu a Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, na gestão de Luiza Erundina, e ficou até 1991. Morreu em maio de 1997. Em 2012, a Lei 12.612 o declarou Patrono da Educação Brasileira, título que não encerrou as disputas sobre sua obra.

Sugestão de atividade: linha do tempo de 1947 a 2012

Objetivo: ordenar os marcos da educação popular e identificar o que a ditadura interrompeu.

Nível e duração: 1ª ou 2ª série do ensino médio; 50 minutos.

  1. Em grupos, sortear marcos: Sesi (1947), MCP (1960), Angicos (1963), golpe (1964), Pedagogia do oprimido (1968), Secretaria de São Paulo (1989) e Lei 12.612 (2012).
  2. Explicar cada marco em uma frase e montar a linha em cartolina.
  3. Responder em dois minutos: o que mudou depois de 1964?

Avaliação: ordem correta e um comentário próprio sobre uma ruptura.

Não existe lista oficial dos princípios da educação popular, e tradições vivas resistem a definições fechadas. Mas há um documento público que organiza o essencial em seis pontos: a Portaria 2.761, de 19 de novembro de 2013, do Ministério da Saúde, que instituiu a Política Nacional de Educação Popular em Saúde no SUS.

Os seis princípios da portaria são diálogo, amorosidade, problematização, construção compartilhada do conhecimento, emancipação e compromisso com o projeto democrático e popular. O vocabulário é freireano, agora convertido em orientação para trabalhadores e gestores da saúde, sinal de que a tradição saiu das escolas.

Por trás dos seis princípios, há uma palavra que Freire tornou central: conscientização. O termo designa o processo em que as pessoas passam de uma percepção ingênua da realidade para uma compreensão crítica, que reconhece contradições e abre caminho à ação. Sem esse movimento, o diálogo vira conversa agradável e a problematização vira exercício retórico.

  1. Diálogo: encontro de saberes construídos histórica e culturalmente, em que cada pessoa coloca o que sabe à disposição do grupo.
  2. Amorosidade: ampliação do diálogo pelas trocas emocionais e pela sensibilidade, além da argumentação lógica.
  3. Problematização: leitura e análise crítica da realidade, a partir de relações dialógicas.
  4. Construção compartilhada do conhecimento: processos pedagógicos entre pessoas e grupos de saberes e culturas diferentes.
  5. Emancipação: processo coletivo de superação da opressão, da exploração, da discriminação e da violência.
  6. Compromisso com o projeto democrático e popular: aposta em uma sociedade justa, igualitária e culturalmente diversa, com os sujeitos populares como protagonistas.

Diálogo, amorosidade e problematização

O diálogo é o princípio mais citado e o mais mal compreendido. Freire (1987) não o trata como técnica de aula participativa, mas como encontro entre sujeitos que nomeiam o mundo juntos. Nomear é decidir o que existe, o que é problema e o que merece ação. Quem monopoliza a palavra monopoliza a realidade.

A amorosidade não significa docilidade. A portaria a define como ampliação do diálogo pelas trocas emocionais e pela sensibilidade, e Freire (1996) coloca o querer bem aos educandos ao lado da exigência: o educador afetuoso que não cobra aprendizado trai o aluno tanto quanto o autoritário.

A problematização é onde o princípio vira conteúdo. Em vez de explicar a pobreza como destino, o grupo pergunta quem produz, quem lucra, por que o bairro não tem esgoto. Brandão (2006) mostra a mesma lógica ao tratar o fracasso escolar dos pobres como instrumento de recriação da desigualdade, e não como acidente.

A construção compartilhada do conhecimento rejeita a divisão entre quem sabe e quem ouve. O educador traz o saber sistematizado, o grupo traz a experiência, e o resultado é um terceiro saber que nenhum dos dois possuía. Santos e Meneses (2010) chamam esse encontro de ecologia de saberes, em que a ciência convive com outros conhecimentos sem apagá-los.

A emancipação é o princípio mais exigente. A portaria a descreve como processo coletivo, e a palavra coletivo pesa. Uma pessoa pode se informar sozinha, mas só se emancipa com outras, porque as estruturas que a limitam são sociais. O conceito de ideologia ajuda a entender por que ideias que naturalizam a desigualdade circulam como senso comum.

O último princípio, o compromisso com o projeto democrático e popular, é o que mais divide opiniões. Para os defensores, ele explicita o que toda educação faz de modo implícito: tomar partido por um modelo de sociedade. Para os críticos, confunde pedagogia com militância. A seção sobre críticas volta a esse embate, com as razões dos dois lados.

A educação popular e os círculos de cultura

O círculo de cultura é o método que traduz os princípios em encontro. Substitui a sala de carteiras em fileira por uma roda, o professor por um coordenador de debate e o aluno por um participante de grupo. Freire (1967) o propôs no lugar da escola tradicional. O conteúdo vem da situação que as pessoas vivem.

A dinâmica segue etapas. A equipe levanta o universo vocabular do grupo, escolhe palavras geradoras, prepara imagens de situações da vida e conduz o debate sobre elas. Imagine um grupo de pedreiros: a palavra tijolo abre a discussão sobre o trabalho, o salário e as casas que eles constroem para outros, e só depois é decomposta em sílabas.

Os círculos não ficaram restritos à alfabetização. Reaparecem em formações de professores, na extensão universitária e em comunidades. O risco é esvaziá-los: uma roda de cadeiras em que o coordenador fala por quarenta minutos não é círculo de cultura. O critério cabe numa pergunta: quem decide o tema, e a partir de quê?

Resumo para revisão: seis princípios, segundo a Portaria 2.761/2013: diálogo, amorosidade, problematização, construção compartilhada do conhecimento, emancipação e compromisso com o projeto democrático e popular. O conceito que os une é a conscientização; o método clássico é o círculo de cultura. Ponto de partida: a realidade do grupo, não o conteúdo pronto.

Sugestão de atividade: estudo de caso das palavras geradoras da turma

Objetivo: identificar palavras do cotidiano e argumentar como elas abrem uma discussão crítica sobre a realidade local.

Nível e duração: ensino médio ou licenciatura; 100 minutos.

  1. Em roda, listar dez palavras do bairro ou da escola, como ônibus ou trabalho.
  2. Em grupos, escolher uma e escrever três perguntas: quem ganha, quem perde, o que pode mudar.
  3. Debater com outro grupo e registrar um plano de ação em uma frase.

Avaliação: perguntas ligadas à realidade local e plano viável.

BNCC: EM13CHS502.

Ilustração em flat design dos seis princípios da educação popular em um círculo de cultura
Os seis princípios da educação popular representados em um círculo de cultura: diálogo, amorosidade, problematização, construção compartilhada, emancipação e projeto democrático e popular.

Falar de educação popular sem Paulo Freire é impossível, mas reduzi-la a Freire é empobrecê-la. A tradição reúne educadores, sociólogos, teólogos, militantes e pesquisadores, brasileiros e latino-americanos. Alguns a defendem como pedagogia, outros como teoria do conhecimento, outros ainda como estratégia política.

Freire formulou a base filosófica e o método. Brandão e Gadotti organizaram, divulgaram e historicizaram. Gohn situou o tema na sociologia dos movimentos sociais. Gramsci, nos Cadernos do cárcere, deu a ideia de intelectual orgânico das classes subalternas; o colombiano Fals Borda, a pesquisa participante, em que a comunidade produz conhecimento sobre si.

Quem é o autor de referência depende da pergunta. Para o método, Freire. Para a história do termo, Brandão. Para a relação com movimentos sociais, Gohn. Para a pesquisa com comunidades, Fals Borda. O vídeo abaixo, uma aula universitária sobre educação popular e movimentos sociais, complementa a leitura.

Aula inaugural da Faculdade de Educação da UFRGS (2019) sobre Paulo Freire e educação popular.

Paulo Freire: trajetória, obras e categorias centrais

Paulo Freire nasceu no Recife, em 1921. Formou-se em Direito, mas preferiu lecionar língua portuguesa e, depois, dirigir a área de educação do Sesi. Na década de 1950, concluiu o doutorado em Filosofia e História da Educação e tornou-se professor universitário, antes de levar seu método aos movimentos de cultura popular.

Educação como prática da liberdade (1967) apresenta a crítica à educação de massa e o método de alfabetização. A Pedagogia do oprimido, escrita em 1968, desenvolve as ideias de educação bancária, dialogicidade e práxis. A Pedagogia da esperança (1992) revisita esse livro, e a Pedagogia da autonomia (1996) fala diretamente aos professores.

Três categorias atravessam a obra. A práxis é a união de reflexão e ação transformadora. A conscientização é o processo de ler criticamente a realidade. O inédito viável é aquilo que ainda não existe, mas pode existir se as pessoas agirem juntas. Essa última, desenvolvida na Pedagogia da esperança, responde a uma dúvida antiga: como esperar mudança sem ingenuidade?

O nome de Freire virou argumento em disputas políticas. A discussão sobre a demonização de Paulo Freire na escola, assinada por Cristiano Bodart, mostra como o educador foi retratado como inimigo da educação. Bodart e Marchiori (2022) reuniram pesquisadores para examinar esse discurso e as motivações políticas atribuídas a quem o sustenta.

Brandão, Gadotti, Streck e Gohn: a sistematização brasileira

Carlos Rodrigues Brandão, antropólogo e educador, escreveu os livros que ensinaram uma geração a pensar a educação popular. Em O que é educação popular (2006), distingue os sentidos do termo e sustenta que ela surgiu como movimento, não como variante da educação de adultos. Também organizou a coletânea Pesquisa participante (1981).

Moacir Gadotti foi colaborador de Freire e fundou o Instituto Paulo Freire, em São Paulo, em 1991. Em Convite à leitura de Paulo Freire (1989), oferece uma entrada acessível à obra. Danilo Streck e Maria Teresa Esteban, na coletânea Educação popular: lugar de construção social coletiva (2013), reúnem pesquisadores que discutem a prática em escolas, movimentos e políticas.

Maria da Glória Gohn contribuiu de outro ângulo. Em Educação não-formal e cultura política (1999), analisa como a participação em associações e movimentos produz aprendizagens e se liga à cidadania. Sua distinção entre educação formal, não formal e informal virou vocabulário comum na pesquisa brasileira. Essa distinção ajuda a localizar o tema, embora a autora trate de um campo mais amplo.

Sugestão de atividade: roteiro de podcast com três autores

Objetivo: explicar a contribuição de Freire, Brandão e Gohn para a educação popular.

Nível e duração: 3ª série do ensino médio ou graduação; 100 minutos e gravação.

  1. Em trios, cada integrante prepara dois minutos sobre um autor, com uma obra citada.
  2. O grupo escreve o roteiro com abertura, três blocos e um exemplo brasileiro.
  3. Grava de seis a oito minutos e troca o arquivo com outro grupo.

Avaliação: ideias atribuídas ao autor certo e clareza para ouvinte leigo.

A educação popular convive com vizinhos que lhe tomam emprestado o vocabulário: educação de adultos, educação comunitária, educação social, educação não formal, educação do campo. A confusão gera dois erros: tratar tudo o que acontece fora da escola como educação popular, ou achar que ela só existe fora da escola.

A tabela a seguir compara a educação popular com a educação formal, a não formal e a informal, em cinco critérios. Na prática, as categorias se misturam: um projeto de extensão pode ser não formal na estrutura e popular no método, e uma escola pública pode adotar práticas populares.

CritérioEducação formalEducação não formalEducação informalEducação popular
Espaço típicoEscola e universidadeAssociações, ONGs e projetos comunitáriosFamília, bairro e mídiaQualquer espaço, inclusive a escola pública
IntencionalidadeAlta, com currículo e certificaçãoAlta, sem certificação obrigatóriaBaixa ou nulaAlta, com finalidade política declarada
Papel do educadorProfessor que ensina o conteúdo prescritoMediador ou facilitadorInexistente ou espontâneoEducador que também aprende com o grupo
Origem do conteúdoCurrículo oficialDemandas do projeto ou do grupoVida cotidianaRealidade e saberes das classes populares
Finalidade principalFormação escolar e certificaçãoParticipação e qualificaçãoSocializaçãoConscientização e transformação social

Leia a tabela por colunas, não por linhas. A educação formal tem como marca a certificação, a não formal a participação voluntária e a informal a ausência de planejamento. A educação popular atravessa as três pela finalidade: define-se pelo projeto político e pelo método dialógico, não pelo lugar onde ocorre.

Freire criou a expressão educação bancária para descrever o ensino em que o professor deposita conteúdos e o aluno os guarda e devolve na prova. Em Pedagogia do oprimido (1987), ela aparece como o oposto da educação problematizadora. De um lado, o saber como depósito; do outro, o saber como pergunta. O blog tem um texto próprio sobre educação bancária.

Bourdieu e Passeron (2008) ajudam a ver o que está em jogo. Em A reprodução, mostram que a escola tende a legitimar privilégios culturais de classe. A noção de capital cultural explica por que alunos de famílias escolarizadas se movem com naturalidade em um ambiente que fala a língua de casa.

Brandão (2006) chega a conclusão parecida por outro caminho: o sistema escolar acompanha processos de reprodução e controle da própria desigualdade. A leitura conversa com o currículo oculto, conjunto de normas que a escola ensina sem declarar. A educação popular tenta tornar visível o que a bancária esconde e transformar esse conteúdo em tema de discussão.

A EJA é uma modalidade da educação básica, prevista em lei, destinada a quem não concluiu os estudos na idade regular. A educação popular é uma tradição pedagógica e política. Coincidem quando uma turma de EJA trabalha com temas geradores. Mas não são sinônimos, e Brandão (2006) nega que a segunda seja desdobramento da primeira.

A diferença de origem pesa. A educação de adultos, lembra Brandão (2006), foi patrocinada pela Unesco e adotada por governos de todo tipo, com perfil compensatório: suprir carências de quem saiu cedo da escola. A educação popular nasceu de grupos e movimentos que questionavam a própria escola. Um programa pode ensinar a ler sem perguntar quem deveria ter ensinado antes.

O debate ganha urgência diante dos números da próxima seção. Se a EJA encolhe, a pergunta passa a ser quem fica de fora e por quê. Uma educação popular que se limitasse à metodologia, sem disputar o direito à escola, deixaria de lado justamente o público que a originou.

Sugestão de atividade: análise de charge sobre a sala de aula

Objetivo: diferenciar, em uma charge, traços da educação bancária e da educação popular.

Nível e duração: ensino médio; 40 minutos.

  1. Projetar uma charge sobre ensino tradicional escolhida pelo professor.
  2. Em duplas, listar três elementos visuais: espaço, falas e posição do professor.
  3. Reescrever a cena em versão dialógica, em duas frases.

Avaliação: três traços bancários identificados e proposta coerente com os princípios.

Os números medem o desafio que deu origem à educação popular. Segundo a PNAD Contínua Educação, divulgada pelo IBGE em junho de 2026, o Brasil tinha 8,4 milhões de pessoas de 15 anos ou mais analfabetas em 2025, uma taxa de 4,9%. É a primeira vez, desde 2016, que a taxa fica abaixo de 5%.

A leitura exige cuidado. A educação popular não é só política de alfabetização, e o dado de analfabetismo não mede o que ela busca: a capacidade de ler criticamente o mundo. Mesmo assim, os números mostram onde as desigualdades se concentram e quem ainda espera por escola.

Esta seção reúne duas frentes. A primeira traz dados sobre analfabetismo e EJA, com fontes do IBGE e do Inep. A segunda apresenta experiências concretas, na saúde, nos movimentos sociais e em organizações comunitárias, que mostram como os princípios saem do papel. O fio condutor é uma pergunta: quem ainda não foi alcançado?

Analfabetismo e EJA em números

A taxa de analfabetismo caiu de 6,7%, em 2016, para 4,9%, em 2025, de acordo com o IBGE. O que chama a atenção é a idade: 58% dos analfabetos, ou 4,9 milhões de pessoas, tinham 60 anos ou mais. Entre 15 e 59 anos, a taxa foi de 2,6%. Hoje, é sobretudo herança de gerações sem escola.

As desigualdades regionais e raciais persistem. O Nordeste concentrava 4,8 milhões de analfabetos, com taxa de 10,6%. Entre pessoas de 15 anos ou mais, a taxa de pretos ou pardos era de 6,5%, contra 2,8% entre brancos. O elo com as desigualdades sociais múltiplas é direto: região, cor e idade se somam.

A EJA, que deveria atender essa demanda, encolhe. O Censo Escolar do Inep registrou 2.962.322 matrículas em 2021 e 2.252.069 em 2025, queda de 24% em quatro anos. Em 2025, eram 1.406.442 no ensino fundamental e 845.627 no médio. Hoje nem a oferta compensatória alcança todos.

Segundo o IBGE, entre os jovens de 14 a 29 anos que deixaram a escola ou nunca a frequentaram, 43,0% apontaram a necessidade de trabalhar como razão principal, e 25,6% disseram não ter interesse em estudar. O analista da pesquisa, William Kratochwill, associa o aumento do desinteresse a um possível desalinhamento entre as expectativas dos jovens e o modelo educacional.

Saúde, movimentos sociais e terceiro setor

A política pública mais explícita é a PNEPS-SUS, de 2013. A portaria atribui ao Ministério da Saúde a tarefa de incorporar a educação popular ao Plano Nacional de Saúde, garantir financiamento e apoiar tecnicamente as secretarias estaduais. Equipes de atenção primária ganham base legal para rodas de conversa e saberes populares de cuidado.

Nos movimentos sociais, a tradição segue viva. O Setor de Educação do MST, por exemplo, participou do Fórum de Estudos sobre Paulo Freire realizado na UFRGS em 2024, em mesa sobre educação popular, movimentos sociais e dignidade humana. A relação é de via dupla: a universidade aprende com a prática, e a prática ganha sistematização.

Parte dessas iniciativas vive no terceiro setor, entre ONGs, fundações e associações comunitárias, com um dilema conhecido: a dependência de financiamento. Quando o recurso vem de um edital, a agenda do financiador pode pesar mais que a demanda da comunidade. A educação popular, que se define pela origem popular das perguntas, precisa vigiar essa inversão.

Sugestão de atividade: pesquisa nos dados do IBGE

Objetivo: interpretar taxas de analfabetismo por idade, região e cor ou raça.

Nível e duração: 2ª ou 3ª série do ensino médio; 100 minutos, com internet.

  1. Abrir a PNAD Contínua Educação 2025 e montar uma tabela com cinco taxas e suas fontes.
  2. Escolher o grupo com maior taxa e redigir duas perguntas para um círculo de cultura com ele.
  3. Apresentar em três minutos.

Avaliação: números corretos, com fonte e ano, e perguntas sem estereótipos.

BNCC: EM13CHS606.

Críticas, debates e limites da educação popular

Toda tradição que se pretende crítica precisa suportar a crítica. A educação popular recebe contestações de três lados: de quem a acusa de doutrinação, de quem duvida de sua eficácia e de quem, dentro do campo, teme que ela perca força ao se institucionalizar. Os três merecem atenção, mas não têm o mesmo peso.

A primeira crítica é política e vem de fora. Freire (1996) sustenta, na Pedagogia da autonomia, que a educação nunca é neutra. Os adversários respondem que declarar a escola como espaço político já é tomar partido. O objetivo aqui é mostrar as razões de cada lado, não arbitrar.

A segunda crítica é de eficácia. Um método pensado para pequenos grupos, com educadores muito comprometidos, funciona em escala nacional? A história não permitiu o teste, porque o Plano Nacional de Alfabetização foi interrompido em 1964. A pergunta, por isso, continua aberta, e é legítima.

Limites internos: institucionalização e diluição

O alerta mais duro vem de dentro. Brandão (2006) descreve um padrão: práticas que surgem como contestação ao sistema educacional tendem a ser absorvidas pelas instituições que criticavam, e suas ideias entram em versão domesticada. A educação de adultos, segundo ele, racionalizou com retórica desenvolvimentista experiências autônomas das classes populares. O risco para a educação popular é repetir o ciclo.

Há também o risco da diluição. A expressão virou rótulo de tudo, da oficina de artesanato à política de saúde. Se tudo cabe nele, o termo perde valor analítico. A diversidade de experiências que coletâneas como a de Streck e Esteban (2013) reúnem é riqueza, mas exige critérios para distinguir prática dialógica de prática apenas participativa.

Por fim, a escala. A educação popular exige tempo, vínculo e formação de educadores, três recursos escassos em redes públicas sobrecarregadas. A queda de 24% nas matrículas da EJA, mostrada na seção anterior, pode ter muitas causas, e nenhuma delas se resolve só com metodologia. Parte do problema é de política pública.

A disputa política em torno de Freire

Desde 2012, Paulo Freire é por lei o Patrono da Educação Brasileira, título nunca consensual. A Lei 12.612 foi proposta pela deputada Luiza Erundina e sancionada em 13 de abril de 2012. Parte do debate público posterior tratou o educador como responsável pelos problemas da escola, tese que Bodart e Marchiori (2022) consideram uma construção discursiva, e não uma análise de resultados.

Os críticos de Freire sustentam, em geral, que sua pedagogia mistura ensino e militância e desvaloriza o conteúdo. Seus defensores respondem que Freire nunca propôs abandonar o conhecimento sistematizado e que a educação popular exige rigor, como diz a Pedagogia da autonomia. O debate se trava com argumentos de princípio, não com avaliações de resultado, e por isso dura tanto.

Para o professor, a saída é separar três perguntas. O que Freire escreveu? O que se fez em seu nome? O que as evidências mostram? A primeira se responde lendo as obras; a segunda, com história; a terceira, com pesquisa. Misturá-las é discutir sem conversar, e as disputas pela educação no Brasil ganham clareza quando são separadas.

Sugestão de atividade: debate regrado sobre a neutralidade da educação

Objetivo: argumentar a favor e contra a tese de que toda educação é política, com ao menos dois autores.

Nível e duração: 3ª série do ensino médio ou graduação; 100 minutos.

  1. Sortear posições entre dois grupos e escolher três mediadores.
  2. Cada grupo prepara três argumentos com autor ou dado, como Freire (1996) ou IBGE (2026).
  3. Abertura de três minutos, réplica de dois e perguntas de cinco; mediadores apontam o que ficou sem evidência.

Avaliação: dois autores bem usados e um parágrafo individual sobre o que mudou na própria opinião.

BNCC: EM13CHS605.

Considerações finais

A educação popular é uma ideia simples e difícil. Simples porque cabe numa frase: aprender com o povo enquanto se ensina. Difícil porque exige mexer na divisão de poder em cada aula e em cada política. Brandão (2006) resume a dificuldade ao dizer que ela quer refazer o projeto educativo inteiro, a partir do ponto de vista popular. O conceito tem quatro sentidos, pouco mais de seis décadas de história, seis princípios em portaria federal, autores brasileiros e latino-americanos e limites reconhecidos pelo próprio campo. Os dados do IBGE e do Inep indicam que o problema que a originou, a exclusão escolar de adultos, continua, embora hoje se concentre entre idosos. Fica uma tarefa para quem ensina: testar na própria aula. Pergunte aos alunos o que sabem sobre o tema antes de explicar. Anote as palavras que eles usam. Veja o que muda. Se algo mudar, a educação popular terá começado ali, sem decreto e sem manual. Se nada mudar, vale perguntar por quê e voltar à primeira seção.

Referências

BODART, Cristiano das Neves; MARCHIORI, Cassiane da C. Ramos (org.). Por que eles têm medo de Paulo Freire na escola? Maceió: Editora Café com Sociologia, 2022.

BOURDIEU, Pierre; PASSERON, Jean-Claude. A reprodução: elementos para uma teoria do sistema de ensino. Petrópolis: Vozes, 2008.

BRANDÃO, Carlos Rodrigues (org.). Pesquisa participante. São Paulo: Brasiliense, 1981.

BRANDÃO, Carlos Rodrigues. O que é educação popular. São Paulo: Brasiliense, 2006.

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Roniel Sampaio Silva

Doutorando em Educação, Mestre em Educação e Graduado em Ciências Sociais e Pedagogia. Professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Piauí – Campus Teresina Zona Sul.

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História do Café com Sociologia

O Site foi criado por Cristiano Bodart em 27 de fevereiro de 2009. Inicialmente, funcionava como um espaço virtual destinado ao armazenamento e compartilhamento de materiais utilizados em suas aulas, quando lecionava na rede pública de ensino do Estado do Espírito Santo. Em 2012, Roniel Sampaio Silva, por ocasião de seu ingresso no Instituto Federal, passou a integrar a administração do blog. Desde então, o projeto é desenvolvido e mantido em parceria pelos dois pesquisadores.

Ao longo de sua trajetória, o blog consolidou-se como uma das principais referências nacionais na área de ensino de Sociologia, sendo amplamente consultado por professores, estudantes, pesquisadores e leitores de diferentes áreas do conhecimento. O portal reúne uma extensa coleção de materiais didáticos, incluindo artigos, planos de aula, avaliações, dinâmicas pedagógicas, podcasts, vídeos, indicações de filmes e diversos outros recursos voltados à educação.

Em 2019, o blog ultrapassou a marca de 9 milhões de acessos, evidenciando seu alcance e relevância no cenário educacional brasileiro.

O trabalho desenvolvido pelo blog foi reconhecido nacionalmente, tendo sido premiado na 7ª edição do Prêmio Professores do Brasil. Atualmente, o projeto reúne centenas de milhares de seguidores nas redes sociais e mantém uma comunidade de leitores que acompanha regularmente suas publicações.

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