Um estudante lê um texto sobre democracia grega, filosofia iluminista e revolução científica europeia. No mesmo currículo, quase não aparece o pensamento político dos povos Tupi, a matemática dos impérios africanos ou a cosmologia indígena. Essa ausência não é acidental. Ela tem nome, e a sociologia contemporânea vem se dedicando a explicá-la com cada vez mais precisão.
O que é epistemicídio? Em termos simples, é o processo histórico de destruição, desvalorização e apagamento de sistemas de conhecimento produzidos por povos colonizados, como indígenas, africanos e afrodescendentes. O conceito nasceu na sociologia crítica e hoje atravessa a educação, a ciência da informação e os estudos decoloniais.
Este artigo explica o que é epistemicídio a partir dos dois autores que consolidaram o termo no Brasil e em Portugal, mostra exemplos concretos na história brasileira e discute por que essa discussão importa diretamente para professores, licenciandos e pesquisadores em Ciências Humanas.
O que é epistemicídio? Definição sociológica do conceito
Para responder com precisão o que é epistemicídio, é preciso partir de sua raiz. A palavra une “episteme”, termo grego para conhecimento, e “cídio”, sufixo latino que indica extermínio. Epistemicídio é, portanto, o assassinato de um sistema de conhecimento, não de uma ideia isolada.

O que é patriarcado? A pergunta parece simples, mas a resposta atravessa a história da humanidade, a estrutura da família brasileira e os boletins de ocorrência registrados todos os dias no país. Entender o que é patriarcado ajuda a explicar, por exemplo, por que o número de mulheres assassinadas por razão de gênero segue batendo recorde no Brasil.
Boaventura de Sousa Santos definiu o epistemicídio como a destruição de algumas formas de saber locais e a inferiorização de outras, desperdiçando, em nome dos desígnios do colonialismo, a riqueza de perspectivas presente na diversidade cultural (SANTOS; MENESES, 2009, p. 183). O conceito nasce da constatação de que o colonialismo europeu não apagou apenas territórios e corpos. Ele também apagou formas inteiras de entender o mundo.
Essa destruição não aconteceu por acaso. Ela seguiu uma lógica: impor um único modelo de epistemologia, o europeu, como padrão universal de verdade e ciência. Todo saber que não se encaixava nesse modelo passou a ser tratado como crença, superstição ou folclore, nunca como conhecimento legítimo.
Em resumo: o que é epistemicídio pode ser sintetizado como o processo pelo qual saberes de povos colonizados são negados, silenciados ou destruídos, enquanto o conhecimento europeu ocidental é imposto como única forma válida de ciência.
Por que o termo está em ascensão nos estudos decoloniais
Quem pesquisa o que é epistemicídio hoje encontra um número crescente de artigos científicos, dissertações e teses publicadas nos últimos cinco anos. O termo, cunhado ainda nos anos 1990 por Boaventura de Sousa Santos, permaneceu restrito por décadas a círculos acadêmicos de sociologia e filosofia da ciência.
Esse cenário mudou com a expansão dos estudos decoloniais nas universidades brasileiras, impulsionada em parte pela consolidação de políticas de cotas raciais e pela ampliação do número de pesquisadores negros e indígenas na pós-graduação. Áreas que antes pareciam distantes do debate racial, como Ciência da Informação, Educação Matemática e Ensino de Filosofia, passaram a incorporar o epistemicídio como categoria de análise.
Ainda assim, fora do ambiente acadêmico, o termo segue pouco conhecido do público em geral. Buscas pela expressão “o que é epistemicídio” têm volume baixo se comparadas a termos como “racismo estrutural” ou “preconceito racial”, mas crescem de forma constante, o que sinaliza um interesse emergente entre estudantes de graduação, licenciandos e candidatos a concursos públicos que precisam dominar vocabulário decolonial.
Para quem ensina Sociologia na educação básica, essa lacuna representa uma oportunidade pedagógica. Explicar o que é epistemicídio antes que o termo se torne lugar-comum ajuda estudantes a entrar em contato com um vocabulário conceitual que provavelmente encontrarão em provas de vestibular, no Enem e em concursos para o magistério nos próximos anos.
Origem etimológica do termo
O sufixo “cídio” aparece em outras palavras que a sociologia e o direito internacional já conhecem bem: genocídio, homicídio, feminicídio. Em todos os casos, ele indica a eliminação deliberada e sistemática de algo ou alguém. No caso do epistemicídio, o que se busca eliminar é a autoridade de um povo para produzir e validar conhecimento.
Essa raiz etimológica já responde parte da pergunta sobre o que é epistemicídio: trata-se de extermínio, não de simples esquecimento. O termo não descreve um evento único, como uma queima de livros.
Ele descreve um processo contínuo, que se repete em diferentes momentos históricos por meio de mecanismos distintos: a catequese forçada, a proibição de línguas nativas, a exclusão de autores negros e indígenas dos currículos, a desvalorização de práticas de cura tradicionais. Cada um desses episódios é uma manifestação do mesmo fenômeno maior.
Boaventura de Sousa Santos e a colonialidade do saber
Para responder de forma completa o que é epistemicídio, é preciso conhecer seu autor de origem. O sociólogo português Boaventura de Sousa Santos cunhou o termo em suas obras sobre a sociologia das ausências, entre elas “Pela Mão de Alice” e, posteriormente, “Epistemologias do Sul”. Sua pergunta central era simples de formular e difícil de responder: por que certos saberes contam como ciência e outros não?
Para Santos, a resposta está na colonialidade do poder, conceito que ele retoma do sociólogo peruano Aníbal Quijano. Durante a expansão colonial europeia, o conhecimento ocidental não apenas se espalhou pelo mundo. Ele se impôs como critério exclusivo de verdade, relegando outras tradições epistêmicas à condição de saberes menores ou inexistentes.
Essa reflexão deu origem ao que o autor chama de pensamento abissal: uma linha invisível que divide o mundo entre “deste lado”, onde a ciência ocidental é válida, e “do outro lado”, onde formas indígenas, africanas e populares de conhecer são simplesmente ignoradas. Quem quiser aprofundar essa base teórica encontra no pensamento decolonial um panorama mais amplo dessas ideias.
Um estudo publicado pela revista científica Liinc, vinculada ao Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia, descreve o epistemicídio como um conceito aberto, em constante dialetização, que nasceu ligado ao exercício de poder e violência contra saberes chamados subalternos e hoje se expande para diversas áreas do conhecimento, incluindo a Ciência da Informação1.
Sueli Carneiro e o epistemicídio no Brasil
Entender o que é epistemicídio no contexto brasileiro passa necessariamente por essa autora. Se Boaventura de Sousa Santos formulou o conceito, foi a filósofa brasileira Sueli Carneiro quem o trouxe para dentro do debate racial brasileiro.
Em sua tese de doutorado, defendida na Universidade de São Paulo em 2005 e intitulada “A construção do Outro como Não-Ser como fundamento do Ser”, Carneiro usa o epistemicídio para explicar como o racismo brasileiro nega às pessoas negras a condição de sujeitos de conhecimento.
Carneiro (2005, p. 97) descreve o epistemicídio como aquilo que “fere de morte a racionalidade do subjugado ou a sequestra, mutila a capacidade de aprender”. Para ela, o fenômeno tem função estratégica: ele opera junto com o que Michel Foucault chamou de biopoder, sustentando não apenas a exclusão simbólica, mas também a exclusão material e educacional da população negra.
Em texto publicado no portal Geledés, instituto que fundou e dirige, a própria Sueli Carneiro resume o mecanismo. Segundo ela, o aparelho educacional brasileiro se tornou, para os racialmente inferiorizados, fonte de aniquilamento da capacidade cognitiva e da confiança intelectual, por meio da negação da condição de sujeitos de conhecimento e da desvalorização das contribuições do continente africano e da diáspora ao patrimônio cultural da humanidade2.
Carneiro também localiza historicamente o fenômeno no Brasil. A primeira expressão do epistemicídio no país, segundo pesquisas que retomam sua obra, remonta à catequese jesuítica, que geriu a educação colonial entre 1549 e 1759 e impôs a doutrina católica europeia como único saber legítimo, apagando cosmovisões indígenas e, mais tarde, africanas.
Como o epistemicídio funciona na prática
Entender o que é epistemicídio na prática exige ir além da definição de dicionário. O fenômeno não opera apenas por proibição explícita. Ele funciona, sobretudo, por hierarquização silenciosa. Um saber pode até ser tolerado, mas nunca tratado como equivalente ao conhecimento científico ocidental. Essa hierarquia aparece em pelo menos três frentes.
- Curricular: livros didáticos e ementas universitárias que citam quase exclusivamente autores europeus e norte-americanos, tratando pensadores africanos, indígenas e latino-americanos como exceção ou nota de rodapé.
- Linguística: a imposição de uma única língua de prestígio acadêmico, historicamente o português, o inglês ou o francês, em detrimento de línguas indígenas e africanas faladas por milhões de pessoas.
- Institucional: critérios de avaliação científica que privilegiam metodologias europeias e desconsideram saberes orais, práticas comunitárias e conhecimentos tradicionais como formas válidas de produção de conhecimento.
O resultado cumulativo desses três mecanismos é o que Sueli Carneiro chamou de produção da indigência cultural: grupos inteiros são levados a acreditar que não produzem conhecimento válido, apenas cultura, folclore ou tradição.
Epistemicídio e racismo epistêmico: qual a diferença
Saber o que é epistemicídio ajuda a não confundir causa e consequência. É comum encontrar os termos epistemicídio e racismo epistêmico usados como sinônimos, mas eles não descrevem exatamente a mesma coisa.
O racismo epistêmico é o mecanismo de desqualificação: a crença, consciente ou não, de que certos grupos raciais são incapazes de produzir conhecimento sério. O epistemicídio é o resultado desse mecanismo aplicado ao longo do tempo, a destruição efetiva desses saberes.
A tabela abaixo ajuda a fixar o que é epistemicídio ao lado de conceitos vizinhos, evitando que o termo seja usado de forma imprecisa.
| Conceito | O que descreve | Autor de referência |
|---|---|---|
| Epistemicídio | Destruição histórica de sistemas inteiros de conhecimento | Boaventura de Sousa Santos, Sueli Carneiro |
| Racismo epistêmico | Desqualificação de indivíduos ou grupos como produtores de saber | Ramón Grosfoguel |
| Colonialidade do saber | Estrutura de poder que hierarquiza saberes segundo a origem colonial | Aníbal Quijano |
| Racismo estrutural | Reprodução sistêmica de desigualdades raciais em instituições | Silvio Almeida |
Entender essas diferenças ajuda a evitar o uso genérico do termo epistemicídio como sinônimo de qualquer desigualdade racial. Para aprofundar esse debate mais amplo, vale ler também sobre o que é racismo enquanto fenômeno social, que trata das bases históricas da hierarquização racial no Brasil.
Exemplos de epistemicídio na história brasileira
A teoria só ganha sentido quando confrontada com casos concretos. Ver o que é epistemicídio aplicado a episódios reais da história brasileira torna o conceito mais palpável. A história do país oferece vários exemplos.
Catequese jesuítica e povos indígenas
Entre 1549 e 1759, a ordem jesuíta comandou a educação no Brasil colônia. Línguas indígenas foram substituídas pelo português e pelo latim nas escolas, e cosmologias nativas foram tratadas como paganismo a ser corrigido. Práticas de cura, calendários agrícolas e sistemas de organização social indígenas foram descartados como atraso, nunca reconhecidos como conhecimento técnico legítimo.
Escravização e apagamento de saberes africanos
Pessoas escravizadas trazidas de diferentes regiões da África chegaram ao Brasil com conhecimentos avançados de metalurgia, agricultura, medicina e organização política. Esses saberes raramente entraram nos registros oficiais como ciência. Foram tratados, na melhor das hipóteses, como cultura popular, e na pior, como superstição a ser combatida pela Igreja e pelo Estado.
Currículo escolar eurocêntrico
Mesmo depois da abolição e da independência, o currículo escolar brasileiro manteve, por mais de um século, uma estrutura quase exclusivamente europeia: filosofia grega, história de Roma, literatura portuguesa e francesa. A ausência de autores negros e indígenas nas listas de leitura obrigatória não foi neutra. Ela reforçou, geração após geração, a ideia de que conhecimento sério vem de fora.
Esse apagamento curricular também atingiu os povos originários de forma específica, ao reduzi-los a estereótipos de “bom” ou “mau selvagem” nos materiais didáticos, como mostram estudos sobre povos originários e seus papéis outorgados na representação escolar.
Epistemicídio digital nas plataformas e algoritmos
Pesquisas recentes em Ciência da Informação chamam atenção para uma nova frente do fenômeno: o epistemicídio digital. Mecanismos de busca e redes sociais tendem a priorizar conteúdos em línguas hegemônicas e produzidos por instituições já consolidadas, o que reduz a visibilidade de conhecimentos indígenas, africanos e populares na internet.
Ao mesmo tempo, ferramentas digitais também abrem brechas de resistência. Comunidades tradicionais passaram a usar vídeos, podcasts e redes sociais para registrar e divulgar saberes próprios, criando um contraponto ao apagamento histórico. Entender o que é epistemicídio no ambiente digital, portanto, exige olhar tanto para os riscos quanto para essas estratégias de enunciação.
Epistemicídio na educação: por que essa discussão importa para professores
Para quem atua em sala de aula, entender o que é epistemicídio não é um exercício teórico distante. É uma ferramenta de análise curricular concreta. Duas leis federais tentam justamente reverter esse quadro.
A Lei 10.639/2003 tornou obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana na educação básica. A Lei 11.645/2008 estendeu essa obrigatoriedade à história e cultura indígena. Juntas, elas representam uma tentativa legal de combater diretamente o epistemicídio curricular, ainda que sua implementação siga desigual entre redes de ensino, como discutido em desigualdade racial e sociedade.
A Base Nacional Comum Curricular também reforça essa direção ao incluir, entre suas competências gerais, o respeito à diversidade e o reconhecimento de diferentes culturas e identidades. Para professores de Sociologia, Filosofia e História, isso significa uma tarefa dupla: ensinar o conteúdo obrigatório e, ao mesmo tempo, questionar por que esse conteúdo foi excluído do currículo por tanto tempo.
Na prática, essa discussão pode entrar em sala de aula por caminhos simples: comparar a lista de autores lidos ao longo do ano letivo, perguntar quantos são europeus e quantos são africanos, latino-americanos ou indígenas, e discutir com a turma o que essa proporção revela sobre hierarquias de conhecimento ainda vigentes.
Como identificar o epistemicídio no cotidiano escolar e acadêmico
Reconhecer o que é epistemicídio no dia a dia escolar raramente significa identificar um discurso explícito de superioridade racial. Ele se manifesta, na maioria das vezes, em escolhas aparentemente técnicas e neutras. Alguns sinais ajudam a reconhecê-lo:
- Bibliografias de disciplinas que não incluem nenhum autor negro, indígena ou latino-americano.
- Avaliação de trabalhos acadêmicos que penaliza referências a saberes populares ou tradicionais por “falta de rigor científico”.
- Feiras de ciências e eventos escolares que tratam conhecimentos indígenas apenas como “folclore” ou “cultura”, nunca como tecnologia ou ciência aplicada.
- Silêncio curricular sobre pensadores como Lélia Gonzalez, Abdias Nascimento, Ailton Krenak ou Davi Kopenawa em cursos de Ciências Sociais e Filosofia.
Perceber esses padrões é o primeiro passo para que professores e estudantes possam, de fato, revisar suas próprias práticas de ensino e pesquisa. Saber o que é epistemicídio na teoria ajuda pouco se essa percepção não se traduz em mudanças concretas de bibliografia, avaliação e planejamento de aula.
Uma pergunta simples costuma revelar bastante: ao montar a ementa de um curso ou a lista de leitura de um trimestre, quantos autores citados são europeus homens brancos, e quantos vêm de outras origens geográficas, raciais e de gênero? Esse exercício de contagem, embora rudimentar, expõe com clareza mecanismos que discursos abstratos sobre diversidade às vezes deixam passar despercebidos.
Genocídio, necropolítica e outros conceitos relacionados
Discutir o que é epistemicídio sem relacioná-lo a outros conceitos da sociologia crítica empobrece a análise. Boaventura de Sousa Santos descreveu o fenômeno como a outra face do genocídio. Enquanto o genocídio elimina corpos, o epistemicídio elimina a legitimidade intelectual de um povo, funcionando como um dos instrumentos mais duradouros de dominação racial, ao negar aos grupos oprimidos o reconhecimento como sujeitos de conhecimento.
Essa articulação aparece também na obra de Achille Mbembe sobre necropolítica, que discute como certos Estados decidem, ainda que de forma indireta, quais populações podem viver plenamente e quais são relegadas a condições precárias. Sueli Carneiro conecta essa ideia ao conceito de biopoder de Michel Foucault: o epistemicídio prepara o terreno simbólico que, historicamente, viabilizou outras formas de violência contra populações negras e indígenas.
Vale reforçar que nenhum desses conceitos substitui o outro. Eles funcionam como lentes complementares para entender diferentes camadas de um mesmo processo histórico de dominação.
Como combater o epistemicídio: caminhos para uma educação decolonial
Depois de entender o que é epistemicídio e como ele opera, a pergunta natural é: como revertê-lo? Reverter séculos de hierarquização epistêmica não é tarefa simples, mas há caminhos concretos que escolas, universidades e educadores individuais já colocam em prática.
- Diversificar bibliografias: incluir autores negros, indígenas e latino-americanos como referência central, não como complemento opcional.
- Aplicar as Leis 10.639/03 e 11.645/08 de forma transversal, integrando história e cultura afro-brasileira e indígena a todas as disciplinas, não apenas a datas comemorativas isoladas.
- Valorizar saberes orais e comunitários em atividades de pesquisa, reconhecendo entrevistas com lideranças tradicionais como fonte legítima de dados.
- Revisar critérios de avaliação acadêmica que tratam metodologias não europeias como menos rigorosas.
- Formar continuamente professores em epistemologias decoloniais, para que a discussão não dependa apenas do interesse individual de cada docente.
Nenhuma dessas medidas resolve o problema sozinha. Juntas, formam um conjunto de práticas capazes de, aos poucos, corrigir distorções curriculares construídas ao longo de séculos.

Perguntas frequentes sobre epistemicídio
O que é epistemicídio, em resumo?
É o processo histórico de destruição e desvalorização de sistemas de conhecimento de povos colonizados, substituídos pela imposição do conhecimento europeu ocidental como único padrão científico válido.
O que é epistemicídio para Boaventura de Sousa Santos?
Para Santos, é a destruição de saberes locais e a inferiorização de outros, em nome do colonialismo, desperdiçando a riqueza de perspectivas presentes na diversidade cultural mundial.
Qual a diferença entre epistemicídio e racismo epistêmico?
O racismo epistêmico é o mecanismo de desqualificação de grupos como produtores de conhecimento. O epistemicídio é o resultado histórico e cumulativo desse mecanismo: a destruição efetiva de saberes ao longo do tempo.
Quem trouxe o conceito de epistemicídio para o Brasil?
A filósofa Sueli Carneiro, em sua tese de doutorado de 2005, aplicou o conceito criado por Boaventura de Sousa Santos à análise do racismo estrutural brasileiro.
O que é epistemicídio na educação?
É a exclusão sistemática de autores e saberes negros, indígenas e latino-americanos dos currículos escolares e acadêmicos, fenômeno que as Leis 10.639/03 e 11.645/08 buscam reverter.
Epistemicídio é a mesma coisa que censura?
Não exatamente. A censura costuma ser um ato pontual e explícito. O epistemicídio é um processo estrutural e prolongado, que opera principalmente por hierarquização silenciosa entre o que conta e o que não conta como ciência.
Por que o volume de busca por “o que é epistemicídio” ainda é baixo?
Porque o termo permaneceu restrito a círculos acadêmicos de sociologia e filosofia por décadas. Ele só começou a circular fora da universidade nos últimos anos, à medida que os estudos decoloniais ganharam espaço na formação de professores.
O epistemicídio ainda acontece hoje?
Sim. Ele se manifesta em bibliografias acadêmicas, critérios de avaliação científica e algoritmos de busca que seguem priorizando conhecimento produzido em centros hegemônicos, em detrimento de saberes indígenas, africanos e populares.
Considerações finais
Voltar à pergunta que abre este texto, o que é epistemicídio, depois de percorrer sua origem, seus autores e seus exemplos históricos, revela algo simples: não se trata de um conceito abstrato, distante da sala de aula. Ele explica por que certas vozes ainda soam mais “acadêmicas” que outras, mesmo quando tratam do mesmo tema com igual profundidade.
Para professores de Sociologia, Filosofia e História, essa discussão oferece uma ferramenta concreta de revisão curricular. Para estudantes e pesquisadores, oferece um vocabulário preciso para nomear um fenômeno que muitos já intuíam, mas nem sempre sabiam como descrever. Reconhecer o que é epistemicídio é o primeiro passo para construir currículos, pesquisas e salas de aula mais plurais.
Referências
1. GONÇALVES, Robson de Andrade; MUCHERONI, Marcos L. O que é epistemicídio? Uma introdução ao conceito para a área da Ciência da Informação. Liinc em Revista, v. 17, n. 2, 2021. Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia. Disponível em: https://revista.ibict.br/liinc/article/view/5759.
2. CARNEIRO, Sueli. Epistemicídio. Portal Geledés, 2014. Disponível em: https://www.geledes.org.br/epistemicidio/.
CARNEIRO, Aparecida Sueli. A construção do outro como não-ser como fundamento do ser. Tese (Doutorado em Educação). Universidade de São Paulo, São Paulo, 2005.
SANTOS, Boaventura de Sousa; MENESES, Maria Paula (Orgs.). Epistemologias do Sul. Coimbra: Almedina, 2009.


